quarta-feira, dezembro 06, 2006

O céu a seu dono: dicionário imaginário

SALGA – Ganha pelos nacionalistas portugueses, a batalha da baía da Salga, nos Açores, foi um inferno para Lope de Vega e Cervantes, militares envolvidos, e para o almirante espanhol, comandante humilhado pela guerrilha insular, que viria a ser o estratego da "Invencível Armada". Deu-se a escaramuça um ano depois da perda da independência, e devia gerar mais reflexões sobre o que parece perdido na história. Tentei escrever sobre isso no último "JN", mas para já fica a memória da frase "em política, o desespero é uma estupidez".

VIDA E PESSOA – O conto de Philip Kindred Dick, (um homem de "esquerda", embora atípico, o que mostra que o que parece não é), as "Pré Pessoas", postulava o seguinte: numa sociedade futura, uma neo-igreja determina que a alma só entra no corpo depois dos 12 anos, e que só a partir desse momento há "pessoas". Daí à caça administrativa àqueles que são só "vida", vai um ápice. O relato começa, aliás, se bem me lembro, com dois adolescentes escondidos, numa estrada de montanha, a ver passar o camião das apanhas.
O problema é fulcral, mas não tem solução fácil. Da biologia à filosofia, muitos acharão que a pessoa separada, autónoma, identitária, só se forma muito depois do nascimento. O que fazer antes?

"ZI HÉVE VAYS TO MAKE YOU TALK" – Peço desculpa pelos parênteses seguintes (que não me caiam, por isso, na lama). Ainda não comecei a escrever as minhas memórias (ou testamento), mas ao longo da vida, conheci (declaradamente) três agentes do KGB (Primeiro Directorado Principal), outros tantos do SVR (sucessor externo do KGB), um do FSB (sucessor interno) e dois do GRU (serviços militares).
Alguns foram expulsos dos países onde estavam colocados. Outros tomaram cautela.
Sempre me pareceram funcionários competentes (dentro do possível), transparentes (às vezes involuntariamente), e racionais (embora um acreditasse na telepatia, e achasse que a Al Qaeda estava a estudá-la).
Só num caso notei que poderia haver "conflito de interesses" entre a possibilidade de (pequena) fortuna pessoal, e a obediência à cadeia de comando. Mas foi numa altura de "grande turbação" em Moscovo: se o general duvida, o que deve fazer o peão?
Por outras palavras: até nova prova, vejo mal a hipótese de uma "operação autónoma", não consentida (pelo Kremlin), dos serviços secretos russos no Reino Unido, apesar (ou por causa) das alegações bilaterais de aumento das acções de espionagem.
No caso Litvinenko, restariam assim três hipóteses: envenenamento sem dolo externo, ordem de execução de Moscovo, ou homicídio perpetrado por outrem.
Uma corrente diz que Litvinenko estivera em contacto com o Polónio 210, a malfadada descoberta dos Curie, e se preparava para o adquirir.
Outra tese refere que, ao fim de uma noite de maior irritação, Vladimir Putin pode ter deixado escapar uma referência indirecta a Litvinenko, interpretada por um qualquer chanceler como um desejo de aniquilação.
A terceira ideia é a de que Litvinenko possuía muito mais inimigos do que protectores, em vários países, ocupações e postos. Alguns poderiam ter o dinheiro e os contactos necessários à obtenção do produto mortal.
O suicídio parece rebuscado, e uma página de humor negro (ou o crime perfeito, e póstumo, de difamação). A carta do Kremlin violaria um "compromisso de cavalheiros" (que um dia se explica), e sobretudo destruiria todo o trabalho paciente (volto a dizer, "racional") de construção de uma nova imagem russa. A terceira tese origina uma busca enlouquecedora em muitas direcções, algumas perturbantes, outras próximas de casa.
Aviso aos amadores: o comboio ainda agora saiu da gare.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial