sábado, dezembro 09, 2006

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

ROUSSEL, Raymond – Há quem vá a Paris contemplar o seu túmulo, no cemitério Père-Lachaise. Pianista de mérito e dramaturgo com ideias, saído de uma família de artistas, morfinómanos e capitalistas, amigo de Proust e Cocteau, Raymond Roussel terá inventado, modestamente, tal como se faz prosa sem saber, a “ficção científica surrealista”. A partir do admirável Locus Solus, que merece um lugar à parte na biblioteca de Babel, contaminou muita gente. Obrigou mesmo Michel Foucault a escrever “A Morte e o Labirinto”, uma tentativa inútil de o “des-construir” e explicar. “Doente profissional dos psiquiatras”, como observava um amigo, vítima de um último cocktail de barbitúricos, e sabe-se lá mais quê, Roussel morreu em Palermo, com 56 anos, na data da promulgação da Constituição do Estado Novo. O argumento de Locus Solus foi retomado por muita gente, de Ernst Jünger a Jean Ray.


Martial Canterel, milionário e filantropo, cientista amador e intelectual experimental, que se pode imaginar ser o alter ego do autor, reúne na mansão de Locus Solus um grupo de colegas e amigos. A visita do parque contíguo, onde se expõe uma colecção perturbante de coisas, situações e fenómenos complexos (o mais normal é a cabeça de Danton, recuperada e preservada em fluido, com uma maquineta animando os nervos da face), irá alterar a percepção da realidade de todos. Os que estão dentro do livro, presos como personagens, o leitor, e, obviamente, o autor, que enlouquece a cada página.
No também brilhante Impressões de África, publicado em 1910 (que deu depois origem a uma peça de teatro, e originou um intrigante poema), falso safari colonial, Louise Montalescot e um grupo de náufragos vê-se na presença do rei Talou VII, soberano dos lugares e extorcionista. Enquanto se espera pelo resgate, os infortunados precisam de representar espectáculos adequados aos seus talentos.
É impossível resumir o espólio de Roussel, dividido entre escrita instintiva, poemas sob influência, novelas baseadas em trocadilhos (buriladas com arte e engenho), ensaios paradoxais e meras recriações, exactas e laboratoriais, de sonhos e pesadelos.
É impossível, mas é necessário.

Em 2002, o “Magazine Littéraire” dedicou um número monográfico a Roussel. Apesar da quantidade e dos colaboradores, o todo resulta aborrecido e superficial. Mark Ford escreveu, há uns anos, o muito mais interessante Raymond Roussel and the Republic of Dreams (Faber, 2000), e o fotógrafo, cineasta e documentarista suíço, Peter Volkart, rodou a curta-metragem Terra Incognita, dedicada, com evidente carinho, ao mesmo universo. Em 1977, Impressions d’Afrique foi levado à televisão, por Jean-Cristophe Averty. Alain Robbe Grillet, John Ashbery, os “novos romancistas” e, já agora, Italo Calvino e o-Hergé-do-Tintin (involuntariamente?), estão (ao menos, do meu ponto de vista) entre os mais influenciados pelo nosso dicionarizado. Na música, o que me ocorre imediatamente é o baterista de jazz Charlie Davot, o saxofonista John Zorn, o grupo Etron Fou Leloublan, o belga Cos, e talvez, com um grão de sal, Julverne.

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