sexta-feira, dezembro 15, 2006

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

AI A TOLA

1. Regresso de Teerão, onde o estado policial não conseguiu encontrar-me, nem saber onde dormi, de onde telefonei, e com quem falei (com duas ou três excepções). A avaria nos computadores do aeroporto foi também providencial, no meu regresso.
Seja como for, esclarecimentos adicionais aos bem-intencionados (os outros podem continuar com a medicação), e um abraço emocionado aos amigos.

2. A ideia de ir ao Irão, num trabalho de pesquisa na área política, estratégica, de relações internacionais, defesa e segurança, começou há já algum tempo. O país é demasiado vital para que o ignoremos, e uma mina de informação e contactos.
O MNE local sugeriu-ma há um ano, depois passou-se muita água debaixo das pontes. O último convite incluía, para além de fact-finding, a assistência (como enviado SIC Notícias, e com um câmara) ao que então se chamava “congresso sobre a revisão histórica” (depois “Holocausto: Mito ou Realidade”, e depois ainda “Holocausto: Uma Visão Global”).
Era suposto podermos filmar livremente o que lá se passaria.
Curiosamente, nunca recebi uma lista das pessoas que fariam parte do “colóquio”, até ao dia seguinte à minha chegada a Teerão. Provavelmente, saberiam o que diria, se em vez de um congresso “científico”, me aparecesse o Grande Dragão do Ku Klux Klan. Ou um passeio ao bairro nazi, ou uma excursão em camisa a Ishfahan.
Mesmo assim, dias antes da “conferência”, pedi para traduzir a minha participação, não de um mero observador de reportagem (a câmara SIC não ficou disponível para aqueles dias, e não vivemos do Estado), mas de um interveniente que, como convidado do MNE, não poderia ignorar uma realização do mesmo ministério.
Fiz então o texto “Holograms of Holocausts”, e pedi para o ler, durante cerca de 30 minutos, adicionando-lhe uma introdução em farsi, que dizia simplesmente, traduzido:

“Obrigado ao Irão pela recepção cortês, e obrigado por manter a fé”.

Achei que era suficientemente ambíguo, e queria-o assim. O começo do texto explica a história.

3. Não queria mais nenhum contacto com a organização, até porque não teria tempo: os meus trabalhos em várias instituições (não interessa aqui quais) não me davam tempo, e queria apenas apresentar uma declaração de princípio, que vários me disseram que nunca seria aceite (incluindo o meu bom amigo Andre Thomashausen, da UNISA, que aqui não me esqueço de saudar).
Sei que o texto foi logo posto debaixo do lápis censório. Talvez não pelo organizador directo (o IPIS, que me parecia bem intencionado, mas ingénuo), mas por alguém mais acima, ou mais ao lado. Sabemos exactamente aquilo que eu não poderia dizer.

4. Quando cheguei ao aeroporto de Teerão, não estava ninguém à minha espera. Não conhecia a cidade, não conhecia ninguém (directamente) na cidade, não conhecia os locais de pernoita da cidade, e, mais estranho, não tinha qualquer morada de referência (a não ser o bairro de Niavaran). Os hotéis – tanto quanto sei – não aceitam cartões de crédito (as transacções passam pelos EUA, e as “travestidas” que vão ao Dubai nem sempre resultam), e o meu telemóvel não tinha roaming para o país (só a Vodafone é que tem, ou a V e mais uma, creio).
A organização estava a dar-me a primeira mensagem sobre o que achava...da minha mensagem. O truque é velho: deixar o inimigo apodrecer, desmoralizar, para depois o velar “ao sítio”.
Mas há vantagens em ser um combatente de outras guerras. E a verdade é que sobrevivi. Tive em Teerão anjos da guarda de várias nacionalidades, que fintaram a clique que ocupa a nação orgulhosa, e que é denunciada pelos próprios órgãos de poder alternativos que existem no país. Passei quatro dias terríveis, com o MNE local a tentar adivinhar onde estava, quem me levava, como andava, com quem falava.
No dia aprazado para a minha mensagem, saí da clandestinidade para a sede do IPIS. Insisti para os meus 30 minutos. Encontrei muita gente do MNE, nobre e profissional, revoltada com a afluência de nazis e gangs racistas. Esperavam outras pessoas, e outras causas.
Quando me fizerem sinal para entrar, perguntei se garantiam os 30 minutos, e uma sala livre do Grande Dragão do KKK (ele podia entrar quando eu acabasse).
Não sabia o que me ia acontecer, não sabia o que ia acontecer. A minha protecção era quase nula, e a verdade é que deixara, em Lisboa, uma mulher inolvidável, os meus filhos e os meus amigos de gerações.
Não sou mártir nem herói, e ali era um homem quase só.

5. Disseram-me então que um não participante não podia falar, e muito menos ditar condições. Houve uns “f...you!”, uns “who is this jerk?”, e uma senhora que perguntava, excitada, “este é que é o amigo dos judeus?”.
Senti-me transportado para uma telenovela bíblica.
O director geral do IPIS saiu de rompante da sala, levou-me para o anexo onde se deveriam reunir os rabis anormais, e disse-me que o melhor era esquecer tudo. Se eu lesse o texto, haveria bernarda. Iam assim acabar mais cedo, não haveria conclusões e sessão de encerramento, e partiriam, providencialmente, para ver Almadinejad (que os deixou a secar, até se decidir).
Pediu ainda para tirar o meu nome da mesa. Alguém tentou rasgar o papel, mas o apelido estava mal escrito. Tenho o resto comigo.
Dei-lhe o texto, e disse-lhe que achava lamentável para o Irão querer conduzir a luta dos oprimidos, aliando-se ao menor denominador possível, a coligação nazi-trotsqui-louca-pseudo-guevarista. Tive pena de saber que andava por ali o Muti (ainda bem que não o Freda), e olhei para tudo desta perspectiva: quem foi o génio que quis destruir, em dois dias, o que o Irão tinha construido nas últimas semanas, em imagem e legitimidade.

6. Não vou dizer o que se seguiu, mas garanto uma coisa: há muitas pessoas, com formações diversas, nos vários órgãos de poder, que ficou irritada não só com a “conferência”, mas com as mentiras que sobre a mesma se construíram.
Primeiro, a mentira da “cientificidade”.
Depois, a mentira da “liberdade de opinião”.
Por fim, a mentira das “intenções honradas”.

Podem ter a certeza de que, do regime (o grupo de Almadinejad não é parvo), não haverá mais erros de “casting” deste tipo.
Mas este chega.

O resto, e os pormenores, ficam para a próxima “Sábado”.

8 Comentários:

Blogger Sofocleto disse...

Imagino o que você deve ter passado só para ler um testo de trinta minutos na terra dos aiatolas. Agora imagine que andava, de lupa na mão, a tentar descobrir porque diabo caiu o Edifício nº 7 do World Trade Center a 11 de Setembro de 2001, sem que nenhum avião lá tivesse embatido. Provavelmente ia parar a Guantanamo.

sexta-feira, dezembro 15, 2006 8:29:00 da tarde  
Blogger Pedro Botelho disse...

Nuno Rogeiro dixit: «Curiosamente, nunca recebi uma lista das pessoas que fariam parte do “colóquio”, até ao dia seguinte à minha chegada a Teerão. Provavelmente, saberiam o que diria, se em vez de um congresso "científico", me aparecesse o Grande Dragão do Ku Klux Klan.»

Explicação do fenómeno que imediatamente ocorreria a qualquer criança com um mínimo de entendimento e um pouco menos de contemplação umbilical: a lista de participantes não foi divulgada com antecedência, não para enganar o ilustre viajante (quase acidental?) Nuno Rogeiro, mas sim para evitar que os governos ocidentais detivessem os participantes, como de resto aconteceu com pelo menos um deles, o alemão Horst Mahler, impedido «preventivamente» de viajar para fora da «RDFA»...

E um reparo: parece-lhe honesto invocar como desculpa do seu comportamento a presença do tal «grande dragão» David Duke que, de resto, nunca teve tal designação no KKK que abandonou ha' mais de 30 anos, muito antes do ex-cripto-fascista e ex-negacionista das câmaras de gás Nuno Rogeiro ter virado gentio virtuoso especial de corrida?!...

Como muito bem sabe, o dilema que se apresenta aos seus amigos exterminacionistas é este: por um lado é necessário fazer crer que a negação do «Holocausto» é uma posição lunática e de tal forma ridícula que não merece qualquer crédito; por outro é preciso impedir a todo custo que os revisionistas apresentem os seus argumentos supostamente lunáticos na praça pública, porque o mito é de tal ordem frágil que não resiste muito tempo ao confronto em campo aberto, com armas iguais que não passem pela repressão e censura.

A contradição é insuperável: explica o pânico que se instala e os dragões que se inventam para esconder a desonestidade intelectual, pura e simples.

sexta-feira, dezembro 15, 2006 8:49:00 da tarde  
Blogger Margarida disse...

Diz que só "no dia seguinte" é que lhe deram a lista dos participantes, isto é quando já estava na "clandestinidade"? Pois. A mentira tem mesmo as pernas muito curtinhas...

sábado, dezembro 16, 2006 8:28:00 da manhã  
Blogger Pedro Proença disse...

Bibliografia recomendada a negacionistas:

Vacher de Lapouge- que defendia que Liberdade, Igualdade Fraternidade deviam ser substituidas por "Determinismo, Desigualdade e Selecção" - Social Selection

Otto Ammon- The Social order and its natural foundations- este senhor e responsável pela célebre classificação entre dolicocéfalos e braquicéfalos.

Podem também tentar alguma coisa do senhor Cesare Lombroso.

Podem também dar um toque em Francis Galton para saberrem o que é que se pensava da Eugenia.

estes para terem uma ideia sobre o pensamento que dominava a europa no início do Sec. XX.

para saber como de vivia num campo de concentração podem ler "Se isto é um homem" do Primo Levi.

Para os Nazis (que pelos vistos há muitos e têm blogues) que adoram ler livros sobre o nacional-socialismo podem ler o Michael Burleigh "The 3rd reich: a New history" e o mais recente (já com 2 dos 3 volumes editados) de Richard J. Evans.

Para os Comunistas negacionistas têm o Gulag da Anne Apllebaum.

Para os maoistas negacionistas têm o O Mao: The unknow story da Jung Chang e o recentíssimo Mao's last revolution do Roderick MacFarquhar.

esperemos que cada um negue o que vêm nestes livros tal como negam o holocuasto. Assim ficaremos esclarecidos.
......
Ai desculpem enganei-me, afinal vocês estão certos e nós estamos todos errados (leiam o ubik do Philip k. dick e depois entendem)

sábado, dezembro 16, 2006 12:23:00 da tarde  
Blogger Ventoinha disse...

Caros "afirmacionistas", a vossa vinda a este blogue não vos coloca na mesma posição do sr NR em teerão? Será que cairam na mesma ratoeira sentados no sofá de casa? Como se vão livrar deste virus de "boa fé"? Pedir tamiflu ao sr.rumsfeld?

domingo, dezembro 17, 2006 6:31:00 da tarde  
Blogger Pedro Proença disse...

Cara Ventoinha,

Não porque este blogue não é uma farsa.

Não porque este blogue não é escrito por nazis.

Não vamos pedir nada ao Sr. rumsfeld porque ele está em casa a tomar aspirinas para as dores de cabeça depois da porcaria que fez no Iraque.

domingo, dezembro 17, 2006 11:15:00 da tarde  
Blogger ventoinha321 disse...

Por não ser escrito por nazis é que as suas recomendações literárias, por muito interessantes que sejam, se encontram meio deslocadas neste espaço (pelo menos do ponto de vista das insinuações que parecem encerrar).

domingo, dezembro 17, 2006 11:54:00 da tarde  
Blogger jotabloguer disse...

Bem eu diria que subscrevo quase na
integra o artigo de Nuno Rogeiro, porque tendo Amigos a viver em Teerão (Iranianos de gema) o retrato aqui mostrado, corresponde á realidade dos dias de todos os iarnianos (em especial as novas gerações, mas não só)que anseiam por mudanças e melhorias de condições de vida e a que o regime tirânico de Almadinejah, não falando na colossal tragédia grega que é a da negação de factos históricos que pelo seu conteúdo daria vontade rir, se não fosse uma autêntica comédia de non-sense!
jorgemadureira

segunda-feira, janeiro 01, 2007 8:53:00 da tarde  

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