terça-feira, dezembro 26, 2006

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

CARTAS (NA MESMA) - “Meu Caro Zé Maria: Não sigas os pressentimentos fúnebres. Estarás aqui para o ano, a celebrar as nossas alegrias, e a juntar-te a nós nos dias de sombra.
Tens razão sobre a paciência de Job, na esgrima com pseudónimos de pseudónimos. Há limites, sobretudo na utilidade das coisas.
Também me ri – à gargalhada, confesso – da re-invenção da minha juventude por gente que nunca me conheceu, ou que finge desconhecer-me. Só não se percebe é porque é que se torna necessário puxar-me para as catacumbas da paranóia negacionista.
A tirada sobre “os judeus de hoje são os palestinianos...e nazis”, é também edificante, e acéfala. Se não houve nenhuma determinação negra contra os judeus, porque é que palestinianos e nazis se hão-de preocupar? Gente do “corta e cola”, tens razão, mas sem cabeça.
Quanto ao resto, estamos de acordo: o reconhecimento da historicidade dos genocídios nada tem a ver com os juízos que fazemos sobre o Estado de Israel, o regime político de Israel, o actual governo de Israel e as suas tácticas e estratégias. Como dizes, fui muito criticado por sectores sionistas, durante a Guerra do Líbano, por ter falado das violações do Direito Internacional Humanitário, praticados por elementos das forças armadas israelitas. E também muito criticado por ter sequer ousado ir a Teerão, falar com as “forças vivas” locais (como se dizia na outra senhora). Mas o que é que queres, num mundo povoado por bandos extremos de Gregos e Troianos?
Era interessante, realmente, re - publicar a entrevista que o Zeev Sternehll nos deu para o FP, há uns anos atrás. Acho que as obras do Sternhell sobre os fascismos e a sua génese, são fundamentais, ao menos no contraste do debate, mas gosto especialmente de “The Founding Myths of Israel”.
O “Sociedade das Nações” vai regressar com mais força em 2007, e muitas surpresas. Como é que soubeste do filme de promoção? Já não se pode manter um segredo.
A obra de que falas deverá ter 7 ou 8 volumes, esperando nós uma edição de um a dois por ano.
Soube da morte do Diniz Diogo, cuja poesia (influenciada pelo Rodrigo Emílio e pelo António Manuel Couto Viana) conhecia e admirava muito. Paz à sua alma.”

CONTO – Fui entretanto desenterrar este velho conto de Natal, que escrevinhei há uns anos, obviamente inspirado por Jünger, Céline, Chesterton, na “Lenda do Santo Bebdor” e Philip K. Dick (sobretudo este), leitoras e visões febris desse crepúsculo.



VIAGEM AO FIM DA NOITE
Era um daqueles dias impossíveis. No hospital, o único da pequena cidade da montanha, Francisco desesperava. Olhou, com o tal olhar vazio que trazia ultimamente, para o louvor do Hierofonte, emoldurado em latão barato, posto desajeitadamente junto ao calendário com as realizações do Regime de Nova Heliopolis: “ Reconhecimento público pela obra comunitária do dr. Francisco José Yepes, doutorado na Universidade de Taurus, em comissão de serviço na cordilheira dos novos Andes”, etc., etc.

Convenientemente, mais uma vez, os colegas tinham-se eclipsado. Resumindo e concluindo, estava sozinho, com trinta doentes para uma noite que outros viviam em festa, com largadas de dragões, bailes nos bosques, festas privadas no Palácio dos Doges, ou na última exposição dos Dalis desenterrados das ruínas de Paris (já ninguém se lembrava do Holocausto de 2020, mas ele fora real).
O dia 25 continuava a ser a Festa Nacional da Revolução Humanista e Liberal, e Francisco imaginou, por momentos, o Pró-Cônsul nas suas libações com o estado-maior, sobre um mapa virtual do mundo livre. “Conseguimos numa década, camarada imperador, os sonhos mais impossíveis dos nossos pais”: a tirada do Marechal Chicken, chefe dos mercenários da Guarda Pretoriana, tinha de certeza aberto uma manhã de brindes, palmadinhas nas costas e envenenamentos dignos dos Bórgias.

Quando a enfermeira principal, visivelmente já apetrechada para o reveillon, surgiu na tela de comunicações internas, o médico imperial recuperou o sorriso sardónico, a sua imagem de marca desde o curso em Pádua. Não prestou atenção ao relatório preliminar, soletrado por Natalina, a peste local. O couro preto fazia-a ainda mais parecida com Louro da Costa, o comediante virtual do momento, a única razão para Francisco proibir o tele-cinema a três dimensões na Clínica do Novo Povo.
Mas eram boas notícias. Os “pacientes impacientes”, como chamava aos hipocondríacos locais, tinham saído em boa ordem. Não havia mais testes, análises ou desfiar de” estados de alma” (lembrava-se da frase, retirada de um velho romance de Jacques Laurante). Podia ir para casa.

No conforto da piscina instalada no quarto áureo, sobranceiro ao monte da Danação, pensou que estava a alucinar. O micro-telefone exibia a mensagem: “caso urgente em Belém; parto com complicações; família pobre, sem convicções políticas”. O robot-servo da série Kunhal enxugou-o, vestiu-o, e em cinco minutos estava a caminho, no magnífico Lexus Stratus, o símbolo do novo poder.

Uma hora depois, podia jurar que uma voz o tinha chamado, mas a verdade é que não havia vontade de terminar o último copo de vodka puro, servido na Estalagem da Montanha. Por alguma razão, foi parando ao longo do percurso. Já era a terceira libação em hotéis de luxo do Partido. Tivera ainda tempo de jogar – e ganhar – a Lotaria Instantânea, no bistrot do Tio Nero. E não achou sequer estranho ter encontrado Lillith, a velha chama da Universidade, no átrio do Hotel Herodes. Não soube se ali passou minutos ou séculos, nas planuras de leite e mel generosamente abertas, mas retemperou-se de uma semana de agruras.
No relógio, leu a mensagem musical: “promoção a Grande Mestre; parabéns”. De repente, tudo parecia ter mudado. A noite abria-se, e ao alcance da mão tinha o poder dos príncipes deste mundo. Na zona das Fontes de Púrpura, tocava mais um êxito do crooner Mefistófeles. De repente, por entre as brumas do álcool e do luxo, surgiu-lhe a imagem: uma mulher sofria, um homem desesperava, uma criança esperava, no frio da noite.

“Ajuda-nos”. A mensagem arrepiou-lhe a espinha, e fê-lo arrepiar caminho.
Num ápice chegou à cabana. Se há nascimentos perfeitos, foi aquele. O céu estava coberto, sem estrelas, mas do lago gelado vinha uma luz intensa. Seria o reflexo do sorriso do menino, cuidadosamente enrolado pela mãe cansada?
Nessa noite, Francisco rasgou o cartão do regime, e seguiu o casal, como quem procura a única coisa importante da vida.

ETC – O grupo “Et Cetera” é uma pérola escondida (e, infelizmente, defunta) do “jazz rock” europeu. Formado, no início dos anos 70, pelo grande pianista alemão Wolfgang Dauner, procurou uma síntese sofisticada dos eruditos contemporâneos, da música clássica indiana (ou “indianizante”), da composição electrónica, da improvisação “jazzy” e da pulsão “rock”.
Infelizmente, não há – que eu saiba – reedições em CD, embora me tenham falado em dois discos publicados no Japão. Quem souber, diga.
Pelos “Et Cetera” (não confundir com o grupo homónimo do Quebeque) passou uma pléiade de intérpretes euro-americanos, de que destacamos Eberhard Weber (o som do seu contrabaixo modificado, sobretudo em “Colours of Chlöe”, continua único), o guitarrista Sigi Schwab ou o baterista Fred Braceful.
Um raro trecho dos ETC em público pode ser visionado no endereço seguinte:

http://www.youtube.com/watch?v=iVl654-UAGY



(NATIV)IDADE – É a idade. Com os olhos e os ouvidos postos em “Vingt Regards sur L’Enfant Jésus”, de Olivier Messiaen (DVD Elektra, 2002), interpretado pelo pianista Pierre Laurent Aimard, preparamos, em casa, o Natal e o Ano Bom.
O Olhar do Pai, o Olhar da Virgem, o Olhar da Estrelha, o Olhar do Filho sobre o filho, o Olhar do Tempo, a Troca, O Olhar dos Anjos, o Olhar dos Profetas, o Olhar da Cruz, são alguns dos temas desta obra memorável de 1944. Das teclas, e das mãos de mestre de Aimard, saem carrilhões e cânticos, órgãos celestiais e baixos graves, sinos e percussões exóticas, coros amplíssimos e danças vivas. O misticismo católico de Messiaen transfigura-se, em momentos como este, em espiritualidade ecuménica e ecléctica. É difícil ficar indiferente a uma música profunda e simples, como todos os mistérios.

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