Terça-feira, Outubro 31, 2006

Neos e velhos "cons"

Nos EUA os "neocons" já desapareceram. Pois aqui em Portugal está tudo ainda nisso. O Compromisso Portugal é isso:um compromisso de"neocons".
Mário Soares , in O Público , 31-10-2006

Citações 17: alcunhas reais

A recent movie suggests that the Duke of Edinburg's nickname for the Queen is "cabbage".(...)The nickname is originally French,"mon petit chou", and I know at least one other wife who is called cabbage by her spouse, though as an alternative to "old bag".
Paul Johnson,The Spectator,28 October 2006

Segunda-feira, Outubro 30, 2006

Nostalgias 3



Outra fita marcante de Julie Christie foi The Go-Between, de Joseph Loosey, com Alan Bates - que faz de Ted Burgess, o agricultor rude que tem um caso com a lindíssima Marian Mandsley (a própria Julie Christie).
O go-between (Leo) recorda esta história de infância, em que levava as cartas dos dois amantes. O filme é um retrato crítico do sistema de classes inglês,nos princípios do século XX e da sua "hipocrisia", com Harold Pinter e L. P. Hartley, como autores da história.
É importante esta aparente contradição do sistema inglês de classes sociais, que é o mais "estratificado" do Ocidente, e a moderação e integração da História política inglesa. Talvez porque em Inglaterra a "revolução" foi no século XVII e depois só houve reformas, ou seja, a promoção social funcionou por cooptação - individual ou colectiva-sem rupturas.
Talvez também por isso os marxistas ingleses são tão marxistas, e a questão dos grupos sociais - tratada de forma "séria" neste Go-Between ou na Forsight Saga ou mesmo nos romances de Jane Austen ou, perto de nós, por Evelyn Waugh ou Aldous Huxley ,e de modo mais solto e humorístico em Gosford Park e Upstairs-Downstairs- seja tão central.
Falaremos disto, mas aqui ficam mais "Julie Christies".

Citações 16

(...) And she kept talking about the right wing this and the right wing that (...) She kept on and on. Finally told me, said: I don't like the way this country is heading. I want my grand daughter to be able to have an abortion. And I said well now I dont think you got any worries about the way the country is headed. The way I see it going I dont much doubt but what she'll be able to have an abortion. I'm going to say that not only will she be able to have an abortion, but she'll be able to have you put to sleep. Which pretty much ended the conversation.

(E não se calava a respeito da direita isto, a direita aquilo. Não se calava. Por fim virou-se para mim, disse: não gosto do rumo que está a tomar este país. Quero que a minha neta tenha a possibilidade de fazer um aborto. E eu disse bem não me parece que tenha muito que preocupar-se sobre o rumo do país. Da maneira que vejo as coisas correrem não duvido muito que ela não tenha a possibilidade de fazer um aborto. Acho mesmo, acho que não só terá a possibilidade de fazer um aborto como até de a mandar pôr a dormir a si. O que mais ou menos pôs fim à conversa.)

Cormac McCarthy, No Country for Old Men, 2006

Desporto radical

Entre muitas outras explicações do terrorismo suicida: a adrenalina do exercício. Nas palavras de dois estudiosos dos bombistas suicidas (Anne Marie Oliver, Paul Steinberg, The road to Martyr's Square), an ecstatic camaraderie in the face of death. Um americano que conhece bem a Arábia Saudita e acaba de publicar um outro livro sobre o terrorismo islâmico, acha que muitos jovens sauditas enveredam pelo terrorismo porque "se aborrecem". Escrevemos sobre este tema no nº 62 do Futuro Presente, que já está em fase adiantada de preparação. Daremos mais notícias.

Os riscos do Império ideológico

Por força do vazio deixado pelo fim da União Soviética e da fraqueza político-militar da Europa, os Estados Unidos receberam o "fardo" imperial suportado anteriormente por outros poderes: Roma depois das Guerras Púnicas, os Áustrias na Europa dos séculos XVI e XVII, Napoleão a partir de Austerlitz e Iena, a Inglaterra no século XIX.

Os impérios duradouros nunca foram ideológicos: não procuraram impor os "valores" políticos e os costumes sociais do centro imperial à periferia; toleraram, quando não encorajaram, a persistência de usos e costumes locais; criaram ordem e segurança, a troco de suserania política e tributo; governaram mais através de autoridades locais, com governadores e procônsules, que por administração directa.

Os impérios "ideológicos" não duram muito; foi o caso do austro-espanhol, que quis impor o Catolicismo ou o napoleónico que quis impor o Liberalismo. Geraram reacções nacionalistas e religiosas, encarnadas pela Holanda protestante ou, no caso de Napoleão, pelos russos, portugueses e espanhóis. E o Império ideológico-militar soviético caiu por razões parecidas.

Ao contrário, o Império Romano e o Império Britânico criaram um espaço terrestre e marítimo de ordem e paz, garantindo a circulação de pessoas e bens no quadro geopolítico; e tiveram o cuidado de não interferir com as crenças religiosas e os costumes nos seus domínios. Deixaram a "mudança" operar pelo soft power - cultura e economia.

Quanto aos EUA, poder hegemónico nos anos 90, depois do 11/9, tanto quanto a guerra do Afeganistão - a base recuada e território dos atacantes - foi certa, a guerra do Iraque, soberbamente conduzida no terreno, falhou nas suas razões políticas: não havia WMD no Iraque; Sadam, um tirano execrável mas pragmático, nunca atacaria os interesses americanos, nem faria causa comum com os radicais religiosos; o petróleo não precisava de controle directo. Os iraquianos não tinham liberdades políticas mas viviam mais tranquilos. E morriam menos.

Mas, ao contrário da interpretação esquerdista, a democracia falhou no Iraque não por causa do método - a força. Na Alemanha e no Japão resultou. Eram nações.

O problema é que, antes da democracia é necessário haver um Estado nacional e não três "comunidades" - kurdos, shiitas e sunitas - num Estado só unido pela força; haver forças armadas e de segurança, disciplinadas e fiéis; e uma sociedade de base poliárquica, em que a propriedade e a religião são respeitadas, há "poderes" sociais e há uma tradição de direitos civis frente ao Estado.

Isto havia em Portugal e em Espanha nos anos 70. Nada disto havia ou há, no Iraque. Nem em vastas regiões do Médio Oriente, da Ásia e da África subsahariana. O poder hegemónico que pretenda subsistir e equilibrar, não pode impor modelos políticos, pois, nesse dia será um agressor por boas que sejam as suas intenções e credenciais. Está à vista, e como amigos dos Estados Unidos devemos dizê-lo.

Publicado no Semanário "Expresso" a 28.10.06

Domingo, Outubro 29, 2006

Nostalgias 2 :Julie Christie


A Julie Christie era fabulosa na volta dos anos 60-70:quando foi a Lara do Doutor Jivago(1965) e a heroína de Fahrenneit 451(1966), realizado pelo Truffaut , a partir da clássica "utopia negativa" de Ray Bradbury,contracenando com o Oskar Werner Sempre belíssima, e penso que nestes tempos de transição do romantismo para o realismo, na nossa geração,quase todos nos apaixonámos por ela. Outro dia vi-a em Tróia(the movie,of course...) Envelheceu bem, se bem que não tão bem como a Catherine Deneuve, que não envelheceu.Em Tróia, era , se não me engano, a Tétis,mãe do Aquiles...
Ao rever uma passagem do Jivago(ou Zhivago...) senti essa nostalgia dos anos 60, e de como eram belas as mulheres belas dos anos 6o,da nossa adolescência e da Julie Christie como um paradigma dessa beleza e desse tempo

Citações 15

"Marx concebeu também a desaparição do princípio nacional; deste modo, qualquer tendência para cultivar a separação nacional, ou a cultura particular da nação, deve considerar-se como resíduo do capitalismo."

Leszek Kolakowsky,The Main Currents of Marxism

Sábado, Outubro 28, 2006

Nostalgias 1



Aqui estão os personagens do tratado de Política que é "O Padrinho":D.Vito, o pai-fundador; Michael, filho pródigo,mais amado e herdeiro; Sonny,o primogénito,que fica pelo caminho; Kay Adams, uma Antígona mal sucedida perante a "razão de Estado" da "família".E os carros, os" soldados",os "capos" ,como o Clemenza e o Luca Brasi,os outros irmãos,o "consigliere" Tom Hagen-Robert Duval.E a cidade - Nova Iorque - capital de todas estas histórias e nostalgias.Grande e inesquecível filme!

Citações 14


"Nous partîmes pour notre dernier assault. Que de fois, ces dernières années, nous avions marché dans ce même état d 'âme vers le soleil couchant!Les Éparges, Guillemont, Saint-Pierre-Vaast, Langemarck, Passchendaele, Moeuvres, Vraucourt, Mory! Une nouvelle fête sanglante nous attendait."
Ernst Jünger , Orages d'acier

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Padrinhos


Este ano estou a dar no ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - uma Cadeira de Crime Transnacional. Para além da teorização dos factores - porque surge "o crime organizado", que mercados explora, quais são as conexões com as diásporas comerciais ou religiosas, quais os fundos que manipula - há outros aspectos interessantes. Dos "factores"de origem, em que aparecem a debilidade ou ausência do Estado - a mafia da Sicília é o caso mais conhecido -às "trust chains" logísticas, e aos rituais e códigos dos "marginais , o "crime organizado"tem uma história literária e cinematográfica riquíssima.

A começar pelos Padrinhos e por esses monumentos que são o I e o II filmes da saga. O III, não é tão bom, no seu update, mas vou-me habituando.

Na verdade, as primeiras cenas de O Padrinho, com o comerciante italo-americano bem sucedido que vem pedir justiça a D. Vito Corleone - Marlon Brando, em casa, no dia do casamento da filha do "Chefão", são um paradigma simbólico e explicativo de todo o mundo complexo dos poderes paralelos.

"I believe in America". Pois é. Mas na hora, a justiça americana falhou e o pai de família, com a filha desonrada e seviciada, pede justiça ao seu conterrâneo poderoso, contra os agressores, poupados pela justiça oficial.
E D. Vito dá-lhe essa justiça, depois de fazer sentir ao suplicante que, no passado, ele não teve actos de "amizade" e deferência, que a merecesse. Mas dá-lhe uma oportunidade e a mão a beijar. É uma "encomendação" feudal, a troca da obediência pela protecção, num gesto e pacto de lealdade.

O crime organizado e os grandes "chefes" do crime seduziram os americanos, também porque sendo os EUA uma República fundacional, nunca tinham conhecido o poder político absoluto - o poder de dar a morte e salvar a vida. Um poder que os reis têm nas sociedades tradicionais, mas nos EUA democráticos nunca existiu, legal e realmente no interior do país. Por isso D. Vito Corleone encarnou este "mistério" do poder. E os Padrinhos são tratados sobre o poder - que por ser assim se torna "político" - através de gang stories.

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Citações 13

"In thinking about abortion, it is necessary to adress two questions.Is abortion always the killing of a human being? If it is, is that killing done simply for convenience? I think there can be no doubt that the answer to the first question is yes; and the answer to the second is almost always.

Robert H. Bork ,Slouching Towards Gomorrah-Modern Liberalism and American Decline

Uma lusofonia com pouco fôlego

Recebemos de Cátia Miriam Costa, com o título acima, o comentário que reproduzimos a seguir, dado o seu interesse e a importância do tema:

Decorreram em Macau os I Jogos Olímpicos da Lusofonia, abertos com pompa e circunstância naquele antigo território sob administração portuguesa. Quem lá esteve pôde ver um espectáculo de abertura com qualidade estética e representando todos os países lusófonos através das músicas e das danças associadas a cada um deles. Juntaram-se oito estados e um território com estatuto especial (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Lorosae e Macau) todos partilhando o português como língua oficial e um passado comum: um regime colonial que os pusera em contacto com a cultura portuguesa.
Portugal, através do Secretário de Estado para o Desporto condecorou o Presidente da Comissão Organizadora do evento, Manuel Silvério, e pensa realizar os próximos Jogos Olímpicos da Lusofonia em território nacional. No entanto, nos meios de comunicação social quase nenhuma atenção foi dada a este evento, com excepção para a RTP África e RDP África e para notas breves na imprensa desportiva quando Portugal atingiu a 30.ª medalha. Assim, quase a totalidade dos portugueses desconhece que existiu uma iniciativa desportiva que custou milhões de euros e que reuniu povos de todos os continentes em torno de uma mesma língua, a portuguesa, que por acaso é a nossa língua. Apesar disso foi disponibilizada informação em língua portuguesa, chinesa e inglesa e a Eurovisão concedeu a utilização de 300 emissores para destaques diários de 50 minutos.
É estranho que assim seja, ainda mais quando Portugal decidiu atribuir uma condecoração que representa o conhecimento do Estado Português face a este evento e à personalidade que o conduziu. Ainda se torna mais paradoxal quando Portugal quer ser o próximo país responsável por esta realização. Parece que houve um total desinteresse em promover este evento junto dos media ou então este mostra-se perfeitamente dispensável para um imprensa ávida de notícias para vender e, certamente, a história ou a cultura portuguesa não vendem.
Contudo, outros países souberam explorar positivamente esta iniciativa, nomeadamente a República Popular da China que, com o seu pragmatismo, aproveitou para abordar São Tomé e Príncipe, país com o qual não tem relações diplomáticas (dado o relacionamento deste com Taiwan), acerca das questões económicas ligadas ao petróleo. Também, aproveitaram para mostrar o seu evento ao mundo como modo de afirmação internacional, junto de mercados que, actualmente, se vão tornando mais atractivos para uma expansão económica, iniciada a alguns anos atrás. Este também foi um ensaio para os Jogos Olímpicos que organizarão em 2008. E se alguns duvidaram que Macau seria uma placa giratória para que a República Popular da China penetrasse em força no mundo da lusofonia, enganaram-se, pois não teriam qualquer interesse em manter Macau como observador da Comunidade de Países de Língua Portuguesa não fora existir esse objectivo pragmático.
Quanto a Portugal mantém-se este desinteresse relativamente aos laços históricos que para o bem e para o mal o prendem àquilo que no presente quis chamar lusofonia e continua sem saber como aproveitar esse ponto de partida para chegar a resultados profícuos. Enquanto continuamos a consumir telenovelas brasileiras, produtos nas "lojas dos chineses" e músicas africanas, alguém aproveita para racionalizar contactos, estabelecer parcerias e mobilizar populações… Afinal, talvez a lusofonia não seja assim tão importante para Portugal…

Gillo Pontecorvo (1919-2006)

O Jaime lembra-me a morte de Gillo Pontecorvo, há poucos dias. Era um cineasta "político" - que foi mais notável e notado por isso do que por uma obra cinematográfica que mesmo a crítica mais simpática sempre tratou com certa condescendência. Não era evidentemente um Visconti - por falar em cineastas comunistas: Pontecorvo pertenceu ao PCI de 1941 a 1956. Uma dos seus últimos filmes foi dedicado ao atentado que matou Carrero Blanco ("Operação Ogro", 1980). A Batalha de Argel - de que quase toda agente se lembra quando pensa em Pontecorvo - foi uma interessante tentativa de ficção "documentária". Um dos seus filmes mais polémicos foi Kapo (1959), a propósito do qual - e quando Paris ainda contava no mundo da cultura - a palavra "abjecção" esteve na boca de muitos críticos e esteve muito na baila o célebre ditado de Godard de que "o travelling é uma questão de moral". Éramos assim em 1959: ainda se falava sem ironia de "moral" e de "política" e quase nada era "relativo". Uma das coisas que custou a engolir nesse filme foi o retrato pouco abonatório que ali se traçava do papel dos presos que foram também carcereiros no universo concentracionário.

O ensino da coragem


Morreu um dos meus autores preferidos: David Gemmell. Deixou interrompida a sua saga de Tróia, de que escreveu dois volumes. Todavia tinha um caderno de notas para o terceiro e último volume que certamente foi acabar para outro lado. Porteiro de boîtes nocturnas, homem de mil ofícios, aprendeu com a vida dura os valores essenciais de sempre que os gregos e romanos já tinham descoberto há séculos. Os homens estão condenados, segundo o poeta Hesíodo, na geração do ferro, a tentar descobrir a verdade, que lhes permanece vedada. Lutam uns com os outros por um lugar ao sol. Desprezam os velhos e querem sempre mudar o mundo através de utopias mobilizadoras, sem saber que a primeira idade - a do ouro - já passou. Gemmell é sem dúvida um escritor brilhante para quem a palavra escrita não tem mistérios. Os seus heróis assumem proporções gigantescas e os seus vilões também. A narrativa, sempre bem encadeada, é escaldante. Ele foi o herdeiro legítimo de uma tradição de escrita que percorre ainda Michael Moorcock (Elric), Feist ( a saga de Midkemia), David Eddings (várias trilogias) e mesmo as senhoras dos sonhos mais retesados como André Norton e Zimmer Bradley. Em vida, Gemmell não cessou de incitar, com as suas novelas bem arquitectadas, à coragem. Não uma coragem colectiva e informe de massas ululantes, mas à coragem individual, pensada, contida e mortalmente eficaz. Basta ler Druss- The Legend, Morningstar, Stormrider, Dark Moon, Waylander The Hawk Eternal, Sword in Storm, Winter Warriors, Troy, para nos darmos conta da sua capacidade para criar mitos, desenvolver e caracterizar personagens, fazer descrições brilhantes e a sua mestria em nos agarrar desde a primeira página. Enquanto em outros as primeiras vinte páginas convencem o leitor a não continuar e a colocar de lado a novela ou o ensaio, em Gemmell logo as primeiras páginas são ricas, intrigantes, incitando a explorar o mundo do autor e a acção rápida dos seus protagonistas. Não se pode querer mais de um autor reconhecido como um dos melhores, senão o melhor, de literatura fantástica. Os seus livros estão traduzidos em quase todas as línguas cultas da Europa, mesmo em português, pela Presença que também editou Ricardo Pinto, se bem que tudo tardiamente. Melhor e mais barato é ler em inglês os paperback. É uma enorme perda para a literatura e para os seus amigos distantes que nestes seus 57 anos de vida lhe acenam daqui, para lhe falar de quanto gostaram de tudo o que escreveu porque o que deixou é certamente um reviver de valores clássicos que ele decerto já verificou serem eternos. Pessoalmente, recomendaria a quem ler esta prosa, que busque na Amazon o seu nome. O seu site está em reformulação pela sua viúva que conta escrever como tributo ao marido, baseada nas suas notas, Troy III. Iremos certamente aguardar tal esforço com paciência.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Citações 12

"Continua ainda a decomposição nacional, apenas interrompida de um modo aparente pelas ideias revolucionárias e pela restauração das forças económicas fomentadas pelo utilitarismo universal? Ou presenciamos um fenómeno de obscura reconstituição, e sob a nossa indecisa fisionomia nacional, sob a nossa mudez patriótica, sob a desesperança que por toda a parte ri ou geme, crepitará latente e ignota a chama de um pensamento indefinido ainda?"

Oliveira Martins , História de Portugal

Mais "Memórias da Transição" - III: O clima cultural

Somos todos "hegelianos" nesta forma que temos de nos consolar com a "História acontecida", explicando à luz do seu encadeamento dos factos, a partir de certo momento, que o que foi não podia deixar de ter sido assim. Quero dizer que, por exemplo, em relação ao fim do anterior regime e à descolonização, acabamos por assumir explicações racionalizadas, objectivas, teorizando, ex post, o que se passou como inevitável.

Assim, regra geral, diz-se que não havia alternativa de continuidade a partir da saída de Salazar. Quer dizer, na época em que as potências europeias tinham renunciado às áreas imperiais - ou melhor, a permanecer nas áreas imperiais através de formas de dominação ou integração política - não era viável, um pequeno país, manter soberania nesses espaços. Também não era possível, desaparecido o criador do Estado Novo e o seu especial estatuto (recuso-me a usar "carisma", desde que a palavra se utiliza hoje para uma colecção de criaturas "festivas", políticos da "noite", futebolistas de revista "rosa", vedetas do nacional-cançonetismo ou do turbo-set), subsistir este como tal. Ou seja, não era possível "salazarismo sem Salazar" ou que o Império Português sobrevivesse ao fim do mundo eurocêntrico.
Na época, curiosamente, não nos dávamos muito conta destes problemas, que achávamos voluntaristicamente ultrapassáveis; ou fruto de uma vasta teia de interesses e pressões que pretendiam abalar a determinação nacional. E achávamos também que, se não lhes ligássemos muita importância, eles não a teriam.

Romantismo e voluntarismo

Éramos politicamente voluntaristas, isto é, românticos. É muito curioso constatar que os movimentos radicais ou totalitários do século XX, cujos chefes - estou a pensar em Lenine e Mussolini (Estaline e Hitler é mais complicado) - se reclamavam do realismo, do "politique d'abord", da lucidez estratégica no cálculo da acção - tenham fixado uma área forte de romantismo, não apenas a nível do discurso, da oratória, mas sobretudo na experiência e na sensibilidade dos quadros e militantes que lideraram.

Assim, os primeiros bolcheviques eram figuras de transição entre os revolucionários reais e apocalípticos do século XIX e figuras "literárias" de Dostoiewsky e Malraux, mais profissionais. Por sua vez, os primeiros quadros fascistas, recrutados nos "arditi", eram jovens ex-combatentes voluntários da Grande Guerra, muito mais sensíveis às frases radicais de Nietzsche e ao discurso de Marinetti sobre as máquinas que às razões de Hegel ou Gentile. Daqui não só o sentido da propaganda mas, sobretudo ao nível das gerações fundacionais, uma coerência existencial, assumindo um empenhamento em grandes projectos, um "viver heroicamente".

Este quadro de referências culturais é muito conhecido para a esquerda, e é o da esquerda revolucionária, romantizada por toda a esquerda, sobretudo a partir da França e da cultura francesa do pós-II Guerra - revivalismo da Revolução de Outubro e do Front Populaire, culto de Resistência - através do cinema de Eisenstein e Jean Renoir, da música de Brel, de Aznavour, de Léo Férré, da leitura de Sartre, de Simone de Beauvoir, e de Les Temps Modernes, do Le Monde, e do Nouvel Observateur, para o trivial em Lisboa, anos 60. E de uma "boémia" parisiense, que ia de Gérard Philippe à Greco e Saint-German des Prés.

Direitas unidas na acção

Na direita esta cultura também existiu, mas foi menos conhecida porque a cultura da "direita revolucionária", em país de direita autoritária e conservadora, não passava nem era partilhada pela direita tout court, que construíra outras "culturas" ou não tinha cultura nenhuma. Por outro lado, a esquerda dominava largamente, e não poucos "direitistas musculados" achavam a cultura - toda a cultura - "suspeita". Enquanto na esquerda, os "básicos" se reviam na correcção política da "cultura" do Le Monde.

A ofensiva da esquerda cultural e associativa, nos anos 60, determinou uma unidade de acção nas direitas, que teve os efeitos normais da acção: bipolarizar em amigos e inimigos o território. E aí, porque a novidade, o movimento, a cor, o protagonismo, perante uma esquerda que se radicalizava ideologicamente à volta do movimento estudantil e do "anticolonialismo" vinham deles, acabaram os "nacionalistas-revolucionários" por dominar. Em aliança táctica e estratégica com os conservadores e os "musculados" até porque, não havendo militantes em número suficiente para dar (a cabeça) e o corpo ao manifesto, quer nas ideias, quer no terreno a unidade era mesmo o único recurso.

Deste modo se explica que, em Lisboa e em Coimbra - e com menos intensidade no Porto, muito mais despolitizado ao tempo - se desse uma hegemonia dos "nacionalistas-revolucionários", quer em movimentos como o Jovem Portugal, quer no grupo do Combate, de Coimbra.

Uma história por fazer

Estes "mapas" estão por fazer, ou melhor por divulgar. Quem tem historiado, "de fora", estes movimentos têm sido académicos de esquerda, a quem, por muito esforço de isenção ou compreensão (que não há), falta o "ter estado lá", a vivência e a experiência de dentro. Era como se eu fosse fazer uma história do "Movimento Associativo", ou do MRPP. Não tem nada a ver. Falta-lhes o Zeitgeist vivido, o "espírito de tribo", as referências adolescentes, as memórias da luta. E não se libertaram do preconceito de "superioridade moral" - e sempre da arrogância intelectual - que a Esquerda tem em relação "à direita": que esta, a Direita, está intrinsecamente errada, ou porque é ignorante ou porque está de má fé. Infelizmente, no universo da direita há muita gente - a quem faltou militância e risco no tempo certo - que acata esta "ordem" da esquerda e age em conformidade ou dependente dela. Lá iremos.
(continua)

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Citações 11

"An "alliance of democracies" is a code for a new pro-democracy crusade. But the problem with crusades throughout history has not been that they were poorly organized on a tactical level, but rather, that they were
strategically unsound and morally flawed ."

Dimitri K. Simes, in "The National Interest", Summer 2004

Número 61, outra vez














Já tinhamos mostrado uma imagem da capa, que como se explicava, saiu com as cores alteradas. Fica então aqui a versão verdadeira, além do sumário deste novo número.

Citações 10

"A guerra civil espanhola é um dos poucos casos em que a história foi escrita pelos vencidos e não pelos vencedores."

Anthony Beevor, Financial Times, 21/22 de Outubro, 2006

Lido: SAS Na caça ao Tesouro



Leio os últimos "Malkos SAS", comprados no relais do Charles de Gaulle: Le trésor de Saddam - em dois volumes. É sempre a mesma receita: sobre um tema actual de política internacional, terrorismo, ou espionagem, há uma história de cover action em que o Príncipe Malko Linge, "contratado" da CIA, resolve ou tenta resolver, um problema complicado e difícil para o governo americano. Le trésor de Saddam assim é: estão em causa os mil milhões de dólares que Saddam Hussein teria retirado do Banco Central Iraquiano, nas vésperas da guerra e do ataque americano; e posto a salvo, em grande sigilo.

Anos depois - agora - esses milhões serviriam de caixa-forte para financiar a guerrilha sunita contra os americanos no Iraque.

Malko parte à descoberta do "tesouro", da Moldávia até Londres e depois no Líbano e na Síria. Gérard de Villiers põe sempre aos seus livros uma dose de aventura, de acção, de violência e de sexo, e um certo "clima" das cidades e dos lugares. E, para thrillers populares, um lado de Realpolitik que contrasta com as visões legalístico-boazinhas, em "bons" e "maus", a que estamos habituados..

Literatura B, pulp-fiction, mas divertida.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Citações 9

"Quanto a nós, confessamos ingenuamente que nada há pior, nem mais insuportável na sociedade, que o despotismo dos demagogos, particularmente quando se reforça com o despotismo dos jornalistas, e dos clubes, seus associados, terrível triunvirato, que não só em muitos casos constitui o seu invocado princípio da soberania popular, mas até torna impossível a existência dos verdadeiros governos parlamentares ..."

Luz Soriano,"História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal" (Lisboa, 1881)

Riefenstahl ou a arte sob regimes totalitários

O percurso da realizadora germânica, Leni Riefenstahl ilustra um modelo de vida artística em condições de ditadura monopartidária. Os soviéticos como Sergei Eisenstein, nascido em Riga em 1898, exemplificam o mesmo problema no espaço soviético. Mas também outros realizadores como Andrei Tarkovsky (1932-1986), os escritores mais apreciados, os músicos e os artistas em geral. Num sistema totalitário ou concentracionário quem quer fazer arte só tem duas vias: o exílio (se puder) ou a afirmação da sua estética dentro dos quadros aprovados pelo partido único e pelo seu sentido de beleza e arte, com os desvios que a censura permita. Na Alemanha entre 1933 e 1945 não foi só a cineasta que trabalhou no sistema. Arno Brecker fez escultura, Albert Speer fez arquitectura, Von Karajan fez música e o Alto Comando fez a guerra, que muitos autores consideram a maior arte. Tudo indica que a vontade de deixar um traço próprio num tempo já efectivamente marcado pela ideologia e o partido, supera de longe a ideia de preços a pagar no futuro. Leni, nascida em 1902, inclinou-se cedo para a pintura e dança e só um tropeço a fez encarar a via do cinema. A sua estética, assente na harmonia das formas, na admiração da grandeza e da força, na idolatria pela montanha, não desagradava ao Sistema. A Luz Azul, de 1932, mostra a continuidade dos filmes que celebram a montanha e a que assimilam uma pureza original, um idealismo não tocado pela mão humana. Seguiram-se os documentários encomendados pelos serviços do Estado: Sieg des Glaubens, 1933; Tag der Freiheit, 1935; O Triunfo da Vontade, 1936; Os Deuses do Estádio, 1938; Tiefland,1945. O documentário sobre o encontro do Partido, o conhecido documentário Triunfo da Vontade, revelou-se o mais polémico e talvez o mais sistémico filme do Partido Nacional Socialista, onde fora empregadas técnicas de filmagem notáveis e inventivas. E, em 45, a realizadora era capturada pelos franceses e colocada em campos de concentração. As acusações são sempre as mesmas: a ritual rotina dos julgamentos dos vencedores. Dava-se com Hitler, falava com Goebbels, circulava na elite política do Sistema. É certo, mas não fazia os filmes de propaganda que os cineastas de Goebbels realizaram com grande êxito para consumo interno. Leni era admirada e protegida enquanto grande artista. Os grandes artistas soviéticos circulavam junto da elite soviética enquanto Estaline procedia às purgas e matanças dos seus conterrâneos. Nunca ninguém quis saber disso. Mas, de Leni, ocuparam-se, até quase a anular. Promoveram Karajan, silenciaram Arno Brecker, deram um tempo de fama a Speer e aos físicos que colaboraram com o regime ofereceram todas as garantias e simpatias nos USA e na URSS para aquilo que queriam ver feito: uma bomba atómica. Falava-se então da corrida aos físicos e cientistas nazis que se encontravam na investigação de ponta, dentro dos segredos da água pesada nas estações da Noruega. Dois pesos: duas medidas. Repartidos pela URSS e pelos USA desenvolveram as ciências atómicas e deram a esses vitoriosos seres as armas que eles nem sequer eram capazes de sonhar. Vejamos com as palavras da própria Riefensthal, com ela encarou esse isolamento e condenação: «A minha vida tomou-se um tecido de rumores e acusações, pelo meio das quais tive que traçar um caminho. Todas se revelaram falsas, mas por vinte anos privaram-me de criar. Tentei escrever, mas o que eu queria era fazer filmes. Tentei fazer filmes, mas não pude. Tudo ficou reduzido a nada. Só restou a minha vocação. Sim. E nesse momento estava morta». Hoje celebram-na. Revêem o Triunfo da Vontade, revêem os Deuses do Estádio (muito mais fraco), folheiam os seus álbuns sobre África e talvez um dia possam perceber que foi um terrível erro assimilar Leni a Hitler, como seria outra imbecilidade assimilar Tarkovski ou Eisenstein a Estaline. Num caso ou noutro trata-se de vias estéticas próprias desenvolvidas em condições politicas ditatoriais. É urgente compreender estas coisas que vêm de longe e ficar de lado quando os fanático extremam as suas posições. É bom, sem país, voltar a ser grego, mas melhor voltar a ser um português à solta.

Citações 8

"É impensável que seja outorgada a uma minoria muçulmana a protecção civil da sua identidade e o reconhecimento cultural que o secularismo nascido da Ilustração Francesa se sente no direito de negar à maioria Cristã."
Roberto A.M. Bertacchini and Piersandro Vanzan S.J., conclusão de um longo estudo sobre "A questão islâmica" publicado na revista Studium, nº 1 de 2006

Para ler: Maurras, de novo




Charles Maurras (1868-1952), um dos pensadores "de direita" mais originais e influentes do século XX, não deixa de exercer o seu fascínio cíclico sobre amigos e inimigos.

Talvez porque, ao contrário de muitos dos seus "correligionários", foi um racionalista e um "empirista organizador"; talvez porque o seu nacionalismo integral, não sendo hostil, sempre olhou o fenómeno fascista, com diferença e não abdicou da velha hostilidade francesa à Alemanha; porque foi um polemista violento e virulento, mas também um poeta que, como poucos, contou o Sul, a Latinidade, a sua Provença e o seu Martigues natal; e porque, defensor da Catolicidade, liderando um movimento cujos militantes eram na sua maioria católicos praticantes, se manteve agnóstico até uma conversão de últimos tempos, marcada por um comovente sofrimento e testemunho também poético.

Porque influenciou as direitas nacionalistas - conservadoras e autoritárias em toda a Europa Latina e nas Américas, incluindo os integralistas e Salazar. E porque foi, acima de tudo, um lutador, um militante incansável das suas ideias, apesar de ser um esteta, um intelectual, um senhor, un homme du monde, que no seu tempo conheceu o sucesso junto das mulheres e da sociedade.

É este personagem que Stéphane Giocanti estudou na colecção "Grandes Biografias" da Flammarion. Obra que vamos ler e vamos falar no Futuro Presente, com detalhe.

Stéphane Giocanti, Charles Maurras, Le chaos et l'ordre, Flammarion, Paris, 2006 (575 pp., € 27)

Domingo, Outubro 22, 2006

Citações 7

"Com isto, terminei o que me tinha proposto expor neste Tratado. Só me resta advertir, expressamente, que não escrevi nele nada que não submeta com todo o gosto ao exame e à decisão dos supremos poderes da minha pátria. E se eles considerarem que algo do que eu disse, se opõe às leis pátrias ou constitui um obstáculo para o bem comum, quero que seja dado por não dito. Sei que sou homem e que posso ter-me enganado."

Espinosa, Tractatus theologico-politicus

Sábado, Outubro 21, 2006

Homenagens... - II

No dia em que se homenageia Vasco Gonçalves e em que me sinto triste e envergonhado como português, aqui ficam uns poemas de um dos maiores poetas lusos: António Manuel Couto Viana.

Tempo de trevas
Foi depois da traição
De quem lhe foi guerreiro e missionário
Que o ergueram no alto do calvário
Com um cravo de sangue em cada mão.

Ladeiam-no ladrões, o escárnio da escória
E um bando de soldados
Que lhe perdeu aos dados
Cinco séculos de História.

Tudo é treva em redor.
(Prouvesse a Deus que fosse nevoeiro!)
Chegou o instante derradeiro?
Chegou ao extremo o estertor?

Como é lenta a agonia!
Como ele morre devagar!
Quanto tempo teremos de esperar
Pelo terceiro dia?

* * *
Portugal
Este mendigo, outrora, era um menino d'oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!
* * *
De Profundis
Agora, o meu país são dois palmos de chão
Para uma cova estreita e resignada.
Tem o formato exacto de um caixão.
Agora, o meu país é pó, é cinza, é nada.
Reduziram-no assim para caber na mão
Fechada!
* * *
Identidade
Para Campos e Sousa
O que diz pátria mas não diz glória,
Com um silêncio de cobardia,
E ardendo em chamas chamou vitória
Ao medo e à morte daquele dia;
A esse eu quero negar-lhe a mão;
Negar-lhe o sangue da minha voz
Que foi ferida pela traição
E teve o nome de todos nós.
...................................................................
O que diz pátria, sem ter vergonha,
E faz a guerra pela verdade,
Que ama o futuro, constrói e sonha
Pão e poesia para a cidade;
A esse eu quero chamar irmão,
Sentir-lhe o ombro junto do meu,
Ir a caminho de um coração
Que foi de todos e se perdeu.
* * *
NOTA: Todos os poemas transcritos foram retirados da antologia poética Sou quem fui de António Manuel Couto Viana, publicada pela Ática em Maio de 2000.

Homenagens...

No outro dia estava a almoçar calmamente numa tasquinha, quando me senti incomodado com o barulho que vinha da mesa ao lado. Aí, uma dozena de operários recordava animadamente os bons velhos tempos. Depressa, por entre as suas gargalhadas e esgares bestiais, pude-me aperceber que falavam de 75, dos dias em que fizeram greves, plenários e piquetes, quando enfim puderam humilhar o patrão, insultá-lo e, finalmente (heróis!), saneá-lo!

Senti que estava, de novo, em 75. Não gostei.

* * *
Soube agora que, hoje, se homenageia Vasco Gonçalves. Que fique claro, considero-o um bandido. Mas há, de facto, muito para homenagear: as nacionalizações; as usurpações; os saneamentos; as prisões com mandatos de captura em branco; a censura; a proibição de partidos que não concordassem com o sistema; a crise financeira; as ocupações, etc.
Ainda hoje muita da crise é fruto desses tempos. No entanto, há gente para fazer estas homenagens. É bom que nos apercebamos que muita gente sente saudades de 75 e que, para eles, esses tempos ainda estão vivos.
Há dias em que é triste viver em Portugal.

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Citações 6

(...)Indispensable hallmarks of a conservative: First,firm belief in one,beneficient and omnipotent God. Second,absolute morality as the basis of public law. Third,strict limits on the size of the State. Fourth,respect for a multiplicity of traditional power centers. Fifth,restraint and selfrestraint in all things. Sixth,search for the right balance between the individual and the traditional "myths of society". Seventh,the use of force as a last resort."

Paul Johnson

Citações 5

"São em número de cinco os artifícios (sophisma) utilizados nos diferentes regimes para enganar o povo e ocorrem na assembleia, na magistratura, no tribunal, no porte de armas e no ginásio."

Aristóteles, POLÍTICA, Livro IV, 13

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Aborto (2) - mercado ibérico de IVG

A RTP1, ao noticiar a aprovação pelo Parlamento do novo referendo do aborto, anunciou também que várias "clínicas"(???) espanholas especializadas em abortar, desejavam ver as oportunidades de negócio e vir para Portugal, se o SIM ganhar o referendo. Serão para as "mulheres pobres" tão referidas pelos impulsionadores da "despenalização"?

Aborto (1) - repetir até sair a jeito

O Parlamento aprovou novo referendo para a legalização do aborto, na versão soft de "despenalização da "IVG" ( interrupção voluntária da gravidez). Sabe-se que estas linguagens técnico-legais, poupando os destinatários mais sensíveis à selvajaria da coisa, podem ajudar a fazê-la passar...

Um referendo com o mesmo conteúdo e objectivo realizou-se há poucos anos, com resultado favorável ao NÃO. Pelos vistos não valeu. E se tivesse sido ao contrário? Se tivesse ganho o SIM, alguém repetia?

Este é um claro caso de manipulação e monopolização da democracia pelos "democratas". Que para a esquerda festiva doméstica em Portugal são só eles próprios - os "antifascistas". A prática lembra aqueles referendos "europeus" que, quando ganha o NÃO, os partidários do SIM, sem qualquer pudor, declaram abertamente no dia seguinte que vão ver a melhor táctica e oportunidade de reparar o engano popular.

É um combate desigual, mas vamos a ele.

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Citações 4

"A fé na opinião pública tem as suas raízes num conceito que não aparece bem esclarecido na vasta literatura existente sobre a opinião pública nem sequer na famosa obra de Tönnies, Kritik der öffentlichen Meinung:é menos importante a opinião pública que o público da opinião."

Carl Schmitt, Die geistesgeschichliche Lage des heutigen Parlamentarismus, 1923.

Mitos fundacionais

Há uma constante nos mitemas, como analisou Gilbert Durand. Eles são temas que aparecem, desaparecem e voltam a aparecer na cultura, ao fim de gerações que pensaram ter acabado com a infraracionalidade, atirando tudo o que se não pode tocar para o caixote do lixo da história da cultura.
Na verdade, não é isso que nos aportam as disciplinas científicas e até mesmo positivistas. O que se tem provado em abundância é que os mitos fundacionais perduram e dão segurança a povos íntegros. E quem não os tem, inventa-os.
Veja-se, por exemplo, o mito do movimento de libertação, que engendra o mito do pai fundador (Nkrumah, Senghor, Mandela, Mugabe, Samora Machel e assim por diante), mas este mito da fundação da nossa parte tem como âncora o milagre efectuado ao pequeno Afonso Henriques, nas flores de Santa Isabel, na oração do Condestável antes da batalha, e depois em outras emoções da mesma altura que se encontrão na Restauração e em especiais momentos da nossa História.
Seria neste momento lembrar que a relação com o divino é uma das nossas especialidades. Ora bem: no século XX os acontecimentos são fantásticos porque é a Santa Sé, os Papas, que reconheceram pelo menos três dos actos mais simbólicos da Igreja Católica nos últimos tempos.
Admito que não sejam conhecidos, mas esquecidos nunca. Passo a enumerá-los porque creio que fazem parte integrante daquilo que eu chamaria o destino manifesto de Portugal
A Consagração da Rússia ao Coração de Maria. Encomendada à Irmã Lúcia e protagonizada com todo o ritual por João Paulo II
A Consagração do Mundo ao Coração de Maria pedida à jovem de Baltasar, Alexandrina Maria. Efectuada pelo Papado. A jovem está beatificada.
A Consagração do Mundo ao Coração de Jesus pedida à alemã Dröste zu Vishering, vivendo no Porto, no Convento de Arca de Água, uma irmã do Bom Pastor, que conseguiu fazer avançar o que entendia ser certo e que o Papa aceitou fazer, escrevendo a propósito desse acto solene uma Encíclica que se chama Aurietis Acquas ( Tirareis água das fontes do Redentor). A Irmã está beatificada e escreveu um Tratado da Verdadeira Devoção ao Coração de Jesus (não editado)
O grande interlocutor destes visionários foi o Papa Leão XIII (Lumen in cielo) e é por isso que a sombra do grande Leão XIII pairou pois sobre esta nação, cujo Anjo se revelou a Portugal de uma forma muito particular nestas ordens executadas e saídas daqui.
Pensam que um pequeno país, grande na sua dimensão espiritual, poderia fazer melhor? Os três maiores actos da Cristandade moderna partiram daqui, até porque na Basílica da Estrela está um quadro que nunca deveria ser pintado antes das autorizações legais, mas que a Rainha devota de Santa Margarida de Alacoque fez o Papa autorizar. Refiro-me ao retábulo central onde está para admiração pública, antes de qualquer outra pintura no mundo, o quadro do Coração de Jesus.
Não será este tema mais um dos mitos fundacionais de Portugal, integrado no grande mito do destino manifesto?

Para ler:

Na edição do Spectator (www.spectator.co.uk) de 14 de Outubro, um artigo de Rian Malan (um dos mais famosos escritores Afrikaner anti-apartheid dos anos 70-80, autor de My Traitor's Heart) sobre a situação na África do Sul. Título (edificante): "South Africa's future will not be civil war but sad decay".
Número especial de Le Magazine Litéraire (www.magazine-littéraire.com) sobre o tema do nihilismo, "Le nihillisme - la tentation du néant de Diogène à Michel Houellebecq". Trata-se de um número de "divulgação" com outros ensaios sobre grandes "nihilistas" ou aparentados, dos "clássicos" Sade e Nietzsche, aos modernos Ionesco e Beckett e ao muito contemporâneo Michel Houellebecq.


A biografia de Dean Acheson, Dean Acheson: A Life in the Cold War, de Robert L. Beisner, (Oxford University Press, 768 pp. 35 $US dólares). Acheson foi, com George Kennan e Truman o arquitecto da política de contenção norte-americana, no pós Segunda Guerra Mundial. Kennan foi o cérebro inspirador - com o famoso "longo telegrama de Moscovo" e Truman o decisor; mas entre o estratega conceptual e o poder, mediou o Secretário de Estado.
Acheson era um político vindo do establishment, da Costa Leste, advogado, rico, sempre bem vestido, com grande capacidade de relações públicas. Tinha andado pela Administração Roosevelt, como Sub-Secretário do Tesouro, mas contrariou uma decisão do Presidente que o demitiu acto contínuo.
Quando voltou ao Governo, com Truman, um self-made man, que também por não vir do establishment, nunca achou a Estaline a graça que lhe achava F.D. Roosevelt, Acheson cultivou cautelosamente a relação entre os dois. Na polémica "que fazer com os Soviéticos" de 1945-46, começou por alinhar com os doves; mas a tentativa de Estaline de se apoderar dos estreitos da Turquia decidiu-o. E foi ele o inspirador da política de contenção, a partir de 1947. Um fait-divers: Kennan é o autor da célebre expressão "He is a son of a bitch, but he is our son of a bitch". A circunstância foi a disc

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Citações 3

"Here was a new generation,(...)a new generation dedicated more than the last to the fear of poverty and the worship of success;grown up to find all Gods dead,all wars fought,all faiths in man shaken..."

F.Scott Fitzgerald, This Side of Paradise

Os proveitos da desgraça

O Financial Times faz-se eco de uma nova versão de uma bem velha queixa, num artigo intitulado Profits of doom (o trocadilho com "profetas da desgraça" é mais evidente em inglês), de Richard Tomkins. Em poucas palavras: "A globalização gera somas colossais que só beneficiam os muito ricos e os muito pobres. Não será altura de as classes médias do ocidente perguntarem porque é que têm de pagar a factura dos proveitos de todos os outros?". Sempre as pobres classes médias. Mas o asunto não é de interesse meramente académico ou "humano"; está na altura de tornarmos a publicar um artigo de Edward Luttwak sobre os efeitos sociais e políticos do "turbo-capitalismo" generalizado - e que se intitulava "Porque é que o fascismo é a vaga do futuro" (saiu no número 35 do Futuro Presente, em 1996).

Sendero-A luz das trevas

Foi condenado pelo Supremo Tribunal Peruano a prisão perpétua, Abimael Guzmán, o sinistro fundador e líder do movimento de esquerda terrorista peruano, Sendero Luminoso, criado nos anos 70, por estudantes da Universidade de Lima.

O Sendero pertenceu a esta categoria de movimentos da "nova esquerda", inspirados no maoísmo e numa exegese radical, em linguagem e acção, das máximas do marxismo-leninismo. No Ocidente, sobretudo nas universidades da Europa Latina - em Itália, em Espanha e em Portugal - antes e depois do 25 de Abril, muitos jovens da classe média e média alta aderiram a este tipo de organizações, com uma forte carga de paranóia político-social.


Por cá, fora umas estupidezes policopiadas, umas cabeças partidas e uns professores - como o Prof. Manuel Cavaleiro Ferreira - agredidos ou humilhados pelos jovens maoístas, não houve muito a assinalar. E a partir de 1975, com o impulso da "conexão" americana (aliás a RPC, a partir de Nixon na China, era um aliado...) a mobilização na grande frente anti-social-fascista. Estes movimentos foram mais uma peça do anedotário e os seus ex-dirigentes depressa ingressaram no mainstream político-académico.

Nos países do Terceiro Mundo, as coisas foram distintas. Na China, os "guardas vermelhos" foram o instrumento do terror maoísta. Em países como o Peru foi a catástrofe humana e social. Este Abimael Guzmán, agora condenado, e a sua organização, têm às costas cerca de 40 mil mortos, em massacres colectivos e assassinatos individuais, na sua maioria pobres camponeses do Altiplano, liquidados por estes bandos de fanáticos construtores de "um mundo perfeito".

Como os desgraçados 69 habitantes de Lucanamarca, 20 deles crianças, mortos à catanada. Guzmán foi condenado à prisão perpétua, mas as suas companheiras e companheiros da "cúpula" senderista - Laura Zambrano, Maria Pantoja, Angélica Salas, Margie Clavo, Martha Huatay, Margot Liendo, Victoria Trujillo, Victor Zavala, e Osmán Morote - levaram sentenças entre 25 e 35 anos. Núcleos do Sendero, cuja história inspirou um excelente romance de Mário Vargas Llosa, Lituma en los Andes, sobrevivem no interior do país, associados ao narcotráfico, isto é (re)convertidos ao mercado.

John McCain


John McCain (n. 1936), Senador pelo Arizona, é um dos mais bem colocados "presidenciáveis" do Partido Republicano. Em primeiro lugar é um herói de guerra, que mostrou, na adversidade, um patriotismo testado na capacidade de sacrifício e coragem moral e física. McCain, filho e neto de militares, foi derrubado sobre o Vietname em 1965 e passou cinco anos e meio naquela que o sentido de humor dos seus ocupantes chamou Hanoi Hilton, a célebre prisão da capital comunista para os prisioneiros de guerra americanos. Ali foi torturado e sofreu tentativas de corrupção e aliciamento, nomeadamente de ser libertado antes dos seus camaradas, caso aceitasse criticar o governo americano. McCain manteve-se resistente e obedeceu ao código militar, first in, first out, recusando qualquer vantagem ou privilégio.

Trata-se pois de um homem que deu provas no terreno, pelo que não tem de demonstrar quase nada. Quanto às suas ideias têm tido alguma evolução e distanciam-no hoje da "direita religiosa", já que o Senador tem posições mais liberais nas social issues. Também em política externa, deixou o patriotismo realista - dos anos 90, em que se aproximou das teses da Doutrina Powell, para se aproximar de algumas formas de intervencionismo wilsoniano. Mas, para já, o Senador é (com o antigo Mayor de Nova Iorque, Rudi Giuliani e com posições algo paralelas) uma das hipóteses seguras dos Republicanos. Estes estão num momento difícil pelo escândalo do gay e pedófilo representante Jack Foley, que assediava os "pagens" do Congresso. É que nos EUA podem ter muitos defeitos mas o eleitorado espera que os políticos vivam de acordo com os valores que defendem, e o partido da "maioria moral" não pode proteger as suas "ovelhas negras". Fazê-lo, como parece ter sido a orientação do líder da maioria no Congresso, Dennis Hastest, não caiu nada bem no rank and file republicano e além de condenável pode custar votos.

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

Citações 2

Ainda sobre os ateus, que como dizia o Burke andam "activos" e - digo eu - arrogantes, como"se tivessem Deus na barriga" (Deus me perdoe...), não resisto a citar o Paul Johnson na sua última crónica na SPECTATOR :

"...For if it is difficult, even strictly speaking impossible, to prove the existence of God, in the sense in which we prove a theorem in geometry or the second law of thermodinamics, it is much more difficult to prove that He does not exist"

in THE SPECTATOR, 14 October 2006, p.30 (www.spectator.co.uk)

Citações 1

"Boldness formerly was not the character of atheists as such. They were even of a character nearly the reverse; they were formerly like the old Epicureans , rather an unenterprising race. But of late they are grown active, designing, turbulent and seditious"

Edmund Burke, Thoughts on French Affairs

Sobre a Identidade Nacional (2): A crise de identidade?

Sempre soubemos conviver com ela a mal e a bem, com espadas e com poemas, com agruras e espinhos, com festas do Espírito Santo e romarias a Fátima para os milagres na devida altura do desespero. Com profetas e visionários, mas também com dirigentes realistas que souberam interpretar o interesse do país. Não é desta vez que as coisas serão diferentes. Mais dificuldades aguçam o engenho e se o engenho não for pequeno, tal como a alma, o país encontrará o seu caminho novo, traçado sobre o ferro de velhas verdades. Se os desafios se colocam como intransponíveis, tanto melhor! Já dizia Jorge Dias que os portugueses sem desafios à sua altura definham e tornam-se macilentos, desinteressados. Portugueses à solta foi o que ficou no Brasil; o que nos restou aqui, neste tempo baixo, de zumbaias e subserviências, são alguns Fernão Mendes Pinto que empreendem as suas Peregrinações pessoais, introspectivas, ou outros que se adentram pelo passo as floresta, numa caminhada de companheiros dos Wandervogel. Quem se despede? Penso que ninguém está disposto a desligar a electricidade depois do último voo da Passarola. Espera-se. Mas o esperismo é revolucionário, como demonstrou toda a história do sebastianismo nos seus episódios de revoltas e enforcamentos de renitentes à colonização castelhana. Esperar não é tardar, nem doença dos nervos. É uma atitude do saber antigo, dos temas de Heráclito e de Platão, dos temas estratégicos de Tucídedes, enfim, do sumo clássico que também Portugal bebeu da filosofia grega. Penso, na verdade, que na dinâmica a que estamos submetidos - já não somos senhores de nós próprios, mas arrendatários de um feudo. E esta posição exige respostas. Uma delas, no meu entender, é voltar a repensar, na velha sabedoria, quem somos, o que queremos e encontrar os novos rumos para uma identidade que não se esboroa e antes se reforça com os desafios mais difíceis. Não há uma crise de identidade. O que existe é uma crise de valores em que assenta a cidadania. Mas quem contribuiu para a sua erosão admira-se e escandaliza-se agora com o resultado. O mundo parece feito de tolos. Mas, atenção, isso só é válido para os outros tolos. Se não cuidamos da protecção da nossa identidade, sem os sentimentos ridículos de ter copyright, podem ter a certeza que ninguém irá fazê-lo. Os grandes povos andam há muito tempo numa campanha a que se pode chamar a campanha da obnubilação dos povos dispensáveis, dos condenados da terra como dizia Frantz Fanon. E a obnubilação é uma possibilidade da história If (se). Uma História que se tornou famosa por narrar aquilo que nunca se passou na nossa dimensão espacial. Para não ser sujeitos da IF é preciso ser responsáveis na história factual do presente. E é essa via que temos de descobrir tal como os nossos antepassados se meteram por esse mar fora à procura de mais terra. Porque já tinham terra e o mar era um desafio.

Lo que las ciencias adelantan

"Estudo: A profissão de polícia é uma das que estão sujeitas a maior stress"

Objectividade 2

Só para ver a "objectividade" das "bios" dos "grandes portugueses" para o concurso da RTP.

Assim reza o texto de apresentação dos candidatos Cunhal e Salazar:

ÁLVARO CUNHAL
"É o símbolo da luta contra o salazarismo. Com um inflexível código de honra iniciou a actividade revolucionária (...) Cunhal era um expoente de inteligência e astúcia. Por nascimento e educação nunca deixou de ser um aristocrata, mas abdicou de tudo em prol de um ideal"

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR
"Dirigiu de forma ditatorial os destinos do País durante quatro décadas (...) Afastou todos os que tentaram destitui-lo do cargo. Instituiu de forma brutal a censura e a polícia política. (...) Figura controversa, marcou sem dúvida a história do País".

O que é curioso, na análise destas duas figuras determinantes da História portuguesa do século xx, é o paralelismo de algumas das suas características humanas, divergindo radicalmente as suas convicções. Embora ambos sentissem completa indiferença ou mesmo desprezo pelo pluralismo democrático e partidário e pelas liberdades políticas, enquanto obstáculos aos seus ideais absolutos - para Salazar a razão de Estado da nação portuguesa - para Cunhal a revolução comunista. Só que os "biógrafos" da RTP, que ou são da "corda" ou de pouco entendimento, não deram por isso e fazem estas "encomendas"de "bons" e "maus" à lista do p.c. (politicamente correcto). Assim, no seu facciosismo, não perceberam que elogiaram num o que precisamente condenaram no outro; e vice-versa.

Veja-se, como as "biografias" trocadas fazem sentido, trocando só algumas palavras:

SALAZAR
"É o símbolo da luta contra o comunismo.
Com um inflexível código de honra iniciou a actividade governativa(...) Salazar era um um expoente de inteligência e astúcia. Por nascimento e educação nunca deixou de ser um aristocrata, mas abdicou de tudo em prol de um ideal". Seriam ambos "aristocratas "de educação, pois não sei em que"Gothas" encontraramos mestres historiadores de Maria Elisa, a "aristocracia" de nascimento do Dr.Cunhal.

CUNHAL
"Dirigiu de forma ditatorial os destinos do Partido Comunista durante cinco décadas (...) Afastou todos os que tentaram destitui-lo do cargo. Instituiu de forma brutal, a censura e a polícia política no controlo do PCP. Figura controversa, marcou sem dúvida a história do País.

Domingo, Outubro 15, 2006

Língua Portuguesa

O Miguel, num post recente, refere-se aos constantes atentados à Língua Portuguesa, ao mesmo tempo em que parece estar na moda a defesa do português e da sua correcta utilização.

O Expresso desta semana dá a notícia de que, um pouco por todo o mundo, com algumas escassas excepções, as aulas de português estão a começar com «atrasos assinaláveis», o que é acompanhado pela crónica falta de apoios, sobretudo nos países fora da Europa.

Confesso que se trata de um assunto que não conheço em profundidade e, portanto, não quero fazer considerações que se possam revelar injustas ou menos correctas. Em todo o caso, dado que contactei já directamente com algumas destas situações, tenho que manifestar aqui a minha preocupação com o tema. Trata-se, de facto, de um assunto da maior importância para um país em que uma das suas maiores riquezas é precisamente o de ser a origem de uma das línguas mais faladas no mundo. Isso traz-nos responsabilidades que não são pequenas.

Independentemente de os países que falam português poderem porventura precisar de algum apoio no ensino e divulgação da Língua, há também que ter em conta a realidade de um crescente e muito grande número de estudantes estrangeiros que procuram aprender o português. Igualmente, há que olhar com maior atenção para uma considerável quantidade de institutos e associações estrangeiros que promovem o seu ensino, que estudam e divulgam a nossa cultura, que publicam revistas e fazem conferências sobre a nossa História e presença no mundo. Entre os que a nossa sociedade menos conhece estão certamente os existentes nos antigos «países do Leste», como a Hungria, a Polónia, a Bulgária ou a Rússia, onde alguns amigos de Portugal têm feito uma obra assinalável, apesar de diáriamente se confrontarem com a falta de meios para divulgarem a sua paixão pelo nosso País.

Também noutras regiões, consideradas prioritárias para a nossa política externa, como África, é constantemente requerido o apoio para o ensino da nossa Língua, por forma a que estudantes seus possam frequentar as nossas escolas, as nossas academias militares, as nossas universidades.

Se Portugal, um país pequeno em termos geográficos, mas grande se considerarmos a sua História e a sua Cultura, quiser ter um lugar de relevo no mundo actual, tem de ser capaz de tratar de problemas tão fundamentais como este. Tem de ter uma política cultural que seja uma aliada da sua política externa; tem de ter consciência de que a defesa e promoção da Língua é uma prioridade, pelo que deverá apoiar todas estas iniciativas e dotar o Instituto Camões dos meios necessários a uma acção verdadeiramente eficaz. Não pode haver economias quando estamos a falar do essencial.

Objectividade 1

Quem é o autor das "bios" dos "Grandes Portugueses"? Na malograda e saudosa URSS ganhava de certeza um Prémio Estaline da História, dado o carinho com que trata os "antifascistas" e o rigor que aplica aos "fascistas", maxime a Salazar, mas também a outras personalidades, como D. Afonso Henriques e até ao "belicista" D. Sebastião, ambos de duvidosas convicções democráticas. Não vá o povo enganar-se ...

Sábado, Outubro 14, 2006

HANNAH ARENDT - OS CEM ANOS DA POLÍTICA



São conhecidas as (pouco politicamente correctas) observações de Robert Ardrey sobre a desigualdade dos géneros em três áreas da cultura - na Filosofia, na Música (significando a alta composição musical) e no Teatro (referindo-se também à criação dramática a nível de um Ésquilo ou de um Shakespeare). Fora disto, as "nossas irmãs" do género feminino têm dado todas as provas nas ciências, artes e humanidades de serem iguais ou melhores que nós, os homens.

Perante esta "exclusão", que vejo irritar algumas das minhas amigas e interlocutoras, embora não encontrem exemplos contraditórios à tese de Ardrey, eu seria tentado a avançar uma excepção pelo menos na filosofia política: embora a própria negasse sê-lo, Hannah Arendt é o que mais se aproxima de uma grande pensadora política. Não uma pensadora "sistémica", mas uma pensadora dialéctica, uma pensadora da crise, com particular engenho e força, no estudo de alguns dos grandes capítulos da História Política da Modernidade, como a análise e teorização do Totalitarismo e da Revolução, ou das "revoluções" continental e atlântica.

Nascida em 14 de Outubro de 1906, em Hanover, estudou em Marburgo, onde teve um "romance" com Martin Heidegger, já casado, seu professor e mais velho 17 anos. Arendt doutorou-se com uma tese sobre Santo Agostinho. Mais tarde seguiu o itinerário de muitos académicos e intelectuais judeus na Alemanha dos anos 30: emigração para França e, depois, para os Estados Unidos. Aqui, em 1951, publicou As Origens do Totalitarismo, edição definitiva em 1958. Neste tempo, fazer o paralelo entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Estaline era contra a "correcção política" dominante, que considerava a primeira uma Abominação e a segunda um Paraíso, apenas à espera de alguns retoques. Arendt publicou, até à morte em 1975, em Nova Iorque, toda uma série de ensaios e estudos, de teoria política e História das Ideias, reflectindo com grande liberdade de espírito e fundamentação erudita, e às vezes a contra corrente da sua própria tribo - os intelectuais judaico-atlânticos da diáspora americana - sobre os grandes temas da polis na modernidade.

Vamos, aqui na Futuro Presente, falar da sua vida e da sua obra em edição próxima.

Manuel Maria Múrias

No passado dia 10 de Outubro passou mais um aniversário do falecimento de um dos maiores portugueses que conheci: Manuel Maria Múrias.

Manuel Múrias foi um exemplo para toda a minha geração. Foi-o, antes de mais, pelo seu portuguesismo, pelo bem que escrevia e, sobretudo, pela sua imensa coragem. Lembro-me bem - nunca o esquecerei - quando, estudante no Liceu Garcia de Orta, no Porto, recebi a notícia da prisão do Director de A RUA por dizer apenas aquilo que pensava uma grande parte da sociedade portuguesa. Imediatamente promovemos um abaixo-assinado para lhe manifestarmos a nossa solidariedade e pedirmos a sua libertação. Os nossos nomes foram publicados n'A RUA e recebemos umas palavras simpáticas desde as prisões da liberdade. Aprendemos uma lição e recebemos um exemplo: o exemplo de dignidade de um Português injustamento preso, a lição de que não havia liberdade de expressão no país em que vivíamos.

* * *
Não se pode falar em Manuel Maria Múrias sem se falar em jornalismo e sem mencionar A RUA que, nesses tempos difíceis, ousava enfrentar a intelligentzia marxista que nos desgovernava.
Ainda hoje somos muitos os que nos lembramos da alegria, do entusiasmo com que comprávamos cada semana mais um número de A RUA, onde colaborava grande parte da intelectualidade Nacional. Como lamentamos hoje que ela tenha desaparecido. Convém que nos lembremos, no entanto, que desapareceu porque não a soubemos manter. É importante que aprendamos mais esta lição e lutemos para apoiar os nossos blogues, as nossas revistas, os nossos autores, as diversas iniciativas da nossa área política.
* * *
Um grande abraço ao Francisco Múrias, que não tenho o prazer de conhecer, e muitos parabéns pelo seu excelente blogue O POVO.

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Sobre a Identidade Nacional

O tema não é novo. Há registo destas matérias desde os escritores da Bíblia que argutamente se perguntavam, numa matriz normalmente teológica, quem eram os israelitas. A confusão agudizou-se com a conquista da Palestina, com a passagem de um governo de profetas e juizes a um governo monárquico, que depressa adoptou outros deuses, fazendo altares às divindades das suas esposas importadas . Bem protestaram os profetas, mas os Reis mais sábios não resistiram como David e Salomão. O problema da identidade foi, de facto, neste caso único, assegurado por uma única instituição: Os Livros Sagrados na leitura da Sinagoga; e a religião revelada desde Abraão manteve-se nas suas diversas facetas tecendo a teia da identidade, que vai desde os instalados no país como os sabras até aos judeus espalhados pelo mundo e reunidos à volta da sua Sinagoga, funcionando em rede desde há milénios. Mas nos países não hebreus o problema foi outro. A Divindade não conferia uma identidade que sobrepujasse a tribo, o clã, a etnia, o grupo familiar. Foi necessário construi-la de raiz num amassar de tradições díspares até atingir uma plataforma reconhecida. O tempo ditou as sentenças habituais. A situação geográfica também. Diz-se isto porque o tempo consolida o construído e dá corpo inteiro a tradições veneráveis e ilógicas. Mas Vilfredo Pareto explicou isso e não adianta aprofundar mais que ele. O tempo como grande regulador ganhou um novo significado nesta matéria, pois também pode jogar ao contrário: destruir identidades. E porquê invocar a Geografia? As sociedades com múltiplas fronteiras, situadas no centro de grandes interesses têm grandes dificuldades em se afirmarem e regra geral só o combate vitorioso nas diversas frentes lhes assegura a sobrevivência. O fraco desaparece. No ambiente conturbado do nosso tempo acossado por males insuportáveis o mesmo problema se revela. E é por isso que quando a Fundação Gulbenkian faz uma longa conferência sobre "Que valores para este tempo?" com especialistas e filósofos das sete partidas do mundo é por algo também lhes tocou, nomeadamente a Fernando Gil e a Rui Vilar. Não penso que a erosão do sujeito, da racionalidade, da beleza, da história (que Robert Kagan irá explicar), do verdadeiro e do bem, estejam em causa, por enquanto. Mas quando se começa hoje a perguntar pela identidade é porque algo anda mal. Em Portugal, por essa altura, começa outra vez a ser popular ler Luis Vaz, e perguntar-lhe o que é isso de ser português. O cronista medieval Fernão Lopes, e outros como Zurara, o sapateiro de Trancoso, o Padre António Vieira, José Régio, António Quadros, Agostinho da Silva, Lima de Freitas, Pinharanda Gomes e muitos outros autores que até passam por antepassados socialistas, tentaram explicar o que isso era. Foi um modo de explicitar ou até de acalmar esta ansiedade feita de saudades de Teixeira de Pascoais, das inquietações de Fernando Pessoa, do terrunho de Miguel Torga, da brutalidade de Aquilino Ribeiro, das suavidade mansas dos poetas da pátria, que falaram dela como uma entidade com identidade própria e não vegetativa. E tudo foi contribuindo para o que nós chamamos identidade: a língua, a geografia do espaço muito maritimizado, a teia histórica tecida desde as cantigas de amor, e teia de sangue tecida pelas batalhas da identidade sobrevivente. Mesmo também uma teia espessa de informações, verificadas, míticas, imaginadas pelos monges de Alcobaça nas suas noites de insónia, Fernão Lopes e Castanheda, os Roteiros de Dom João de Castro e as narrativas da guerra que nos chegam pelas mãos hábeis de escritores antigos que nos falam de pelejas longínquas e de narradores modernos como Rui Teixeira que testemunham que o país esta a reagir positivamente a uma longa guerra, a última, travada em África .Tudo isto faz parte de um todo que somos nós, que vivemos num período decifrado como um tempo de insegurança e orfandade, nos confins extremos da periferia europeia, mas numa ponte marítima para a América. Por ignorância contumaz, somos culpados de passividade imbecil, mestres do nada fazer, senhores do vinho e do sonho, homens e mulheres que não correspondem ao que Jorge Luis Borges escreveu sobre nós, ao retratar-nos no seu livro de poesia no menino rei que se perdeu no areal de Marrocos.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Sem cura possível?

Toda a gente afecta, agora, preocupar-se com a língua portuguesa – até a RTP tem um programa com Diogo Infante. Há modas que vêm por bem. Os resultados, no entanto, não são visíveis, pelo menos para já, e talvez fosse mais profícuo pregar com o exemplo. Uma forma cada vez mais frequente de atentar contra o português – e das mais subtis – é o uso errado de expressões ou locuções, e mesmo a incapacidade de as reproduzir correctamente, uma forma subtil de "iliteracia" que indicia uma espécie de cancro episódico da memória colectiva, pois muitas vezes custa atribui-lo à pura e simples ignorância: assim, é de crer que um cronista nosso amigo saiba melhor do que ninguém que o terrorismo dos anarquistas do século XIX era considerado por eles uma "propaganda pelos actos", não "propaganda pelo exemplo" (embora, como acima se pode ver, se use "pregar com o exemplo", mas quer dizer uma coisa muito diferente de pregar à bomba). Há bem pouco tempo, na RTP que nos manda ter "Cuidado com a língua!", (bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz), o apresentador de um concurso citou a conhecida expressão "tudo como dantes, quartel general em Abrantes" na versão errada e pouco menos que sem nexo de "nada será como dantes no quartel general em Abrantes"; nesse mesmo programa, foi dado como provérbio "barriga cheia, companhia desfeita" que, como toda gente costumava saber é, na realidade, "comida feita, companhia desfeita", que soa melhor e é um bocadinho menos alarve. Até um literato como EPC escreveu outro dia "cada pedra uma minhoca" quando queria dizer, suponho, "cada cavadela, sua minhoca". Tanta asneira faz do mais despreocupado de nós um pedante.

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Argélia I

Viajei para Argel, em 4 de Outubro, via Toulouse, pois, não havendo voo directo, tem que se fazer um stop e uma conexão. Há várias possibilidades por Espanha, França ou Itália, de Barcelona e Paris a Roma e Milão. Escolhi Toulouse porque é uma dessas cidades "secundárias" da França, e as cidades secundária da Europa Ocidental são geralmente encantadoras. Tem História e histórias, com ruínas romanas, castelos feudais, catedrais góticas, praças barrocas e, além disso, muitas livrarias à volta da Place du Capitol.

Na quinta-feira, 5 de Outubro, desembaramos em Argel, no brand-new Aeroporto Boumedienne, num dia quente e solarengo. A minha primeira memória da Argélia é a da Guerra da Argélia, entre 1954 e 1961-62: uma história que começou com a insurreição do FLN, no dia de Todos os Santos de 1 de Novembro de 1954 (já tinha havido uma insurreição/repressão em 1945), e seguiu com a guerra, "militarmente" quase ganha pelos franceses.

Algérie française

Depois foi a Argélia Francesa. Nos meus primeiros passos políticos, no "JP", fundado pelo Zarco Moniz Ferreira, esta "causa" estava inscrita no topo da agenda; havia uns autocolantes Algérie Française e "L'OAS vaincra", para colar nos carros dos turistas franceses que começavam a chegar a Portugal, em força, naquele Verão de 1961, com os seus Renaults e Peugeots utilitários.

A história próxima estava fresca: em 13 de Maio de 1958, Argel em revolta, conduzida por uma frente "pró-Argélia francesa", inspirada e encabeçada por Jacques Soustelle, pelos generais Salan e Massu e por núcleos políticos que iam desde a direita nacionalista revolucionária (fascistas) - com Pierre Lagaillarde e Joseph Ortiz (das "Barricadas") - até aos gaullistas, reunida num "Comité de Salut Public", derrubava a Quarta República e forçava o Presidente Coty a chamar ao poder o General De Gaulle.

Todas estas multidões de "pieds-noirs" - os franceses da Argélia, os "colonos" - e de muçulmanos pró-franceses, convergiram para o Forum, assim se chamava a sede do Governo Geral, no Plateau, naquela linha que a França, desde Napoleão e da sua ressurreição "imperial romana" de quem procurava pontas e sínteses entre passado e futuro, tinha adoptado nas suas instituições.

Mas De Gaulle tinha outros planos; ou passou a tê-los. Levado ao poder pelos partidários da "Argélia Francesa", ia criar as condições em França para o fim do Império colonial da África do Norte, reprimindo implacavelmente os seus aliados da véspera. Uma parte do exército, alguns tradicionalistas românticos e católicos como Denoix de Saint-Marc, que comandava o famosíssimo 1 Régiment Étranger de Parachutistes, 1 REP, a ponta de lança do putsch dos generais, ou Jean-Marie Bastien-Thiry, que organizou o atentado de Petit Clamart e foi fuzilado em consequência, mais os "soldados perdidos" da Legião Estrangeira e das "forças especiais", resistiram ou passaram à clandestinidade, na que seria a "batalha da OAS", pondo a Argélia - e Argel - a ferro e fogo, numa política de "terra queimada". Mas a maioria do Exército francês "la grande muette", contrariada ou não, seguiu o caminho da "legalidade", obedecendo ao governo de De Gaulle.

Centuriões e Chacal

Destes anos confusos, ficam leituras e momentos que marcaram a nossa geração, como os romances de Jean Lartéguy, Les Centurions e Les Prétoriens; foi o Zarco quem me aconselhou a ler Les Centurions, no Verão de 1961, na edição da Bertrand. Mais tarde, em 1966, saiu o filme de Marc Robson (The Last Comando), que a Censura proibiu em Portugal (contar-me-ia o Rui Alvim, na ocasião, por levantar o problema da legitimidade da desobediência militar contra orientações do governo), com uma série de actores famosos encarnando os oficiais paraquedistas que eram os "heróis" de Lartéguy: Anthony Quinn fazia o Coronel Raspéguy, Alain Delon o Capitão Esclavier e - lembrei-me bruscamente há dias enquanto falava com o Chico Menezes deste livro e filme - o Maurice Ronet fazia de Boisfeuras. O Georges Segal interpretava um oficial argelino do Exército francês, primeiro com os seus camaradas e amigos do regimento, mas que, mais tarde, partiria para o outro lado, a juntar-se aos rebeldes do FLN. Quanto às mulheres eram a "clássica" Michelle Morgan, que encarnava uma socialite do jet-set argelino, que caía pelo Raspéguy (personagem ausente no livro) e a lindíssima Claudia Cardinale, que no livro tinha um romance com o Cap. Glatigny, mas no filme ficava com o Alain Delon. No nosso bando distribuímos papéis e eu, por percepção dos outros, era o Boisfeuras - o homem da agit prop e uma espécie de nacional-leninista obcecado pela acção. Havia também o Glatigny, que era nobre, tradicionalista, oriundo da Cavalaria, e um médico negro que encarnava o bom e sábio "primitivo", personagem que recomeçava a estar em voga na época (Chamo a atenção da Inês).

Outro ícone da Argélia-OAS foi o Chacal, primeiro no livro de Frederick Forsyth e depois no filme de Fred Zinnemman, com o Edward Fox no protagonista representando uma "ética profissional" do mercenário no seu duelo com Michael Lonsdale. Grande filme, grandes tempos, numa França dos anos sessenta, tão bem revisitada na rota mortífera e implacável de Fox-Chacal. Até ao fim.

(continua)

Azn(ar)ices


José Maria Aznar, com novo visual, entre o playboy sul-americano e o cantador de estudantinas de Salamanca ou das "cuevas" de Madrid. Depois de ter executado vários pasos dobles (e triples) aos notáveis lusos no Prós e Contras, continua a doutrinar os periféricos como missionário "neo-conservador", denunciando agora no Peru, o "islamo-fascismo" dos terroristas árabes.

Desta vez causou alguma celeuma (palavra que uso com alguma celeuma e maior desgosto...) com esse "islamo-fascismo", no ex-Director Geral da Unesco, Frederico Mayor Saragoza, que achou o epíteto "fascistas", inadequado e ofensivo para estes combatentes da Jihad internacionalista! Para ele, segundo disse, os fascistas são George W. Bush, Rumsfeld e Companhia. Os bombistas apocalípticos devem merecer, para Mayor Saragoza, um tratamento mais politicamente correcto! Talvez centristas radicais!

De qualquer modo, Aznar tinha obrigação, como neto de um colaborador e biógrafo próximo de Franco, de ter mais rigor na utilização dos termos, compreensíveis na linguagem propagandística dos ex-trotzkistas convertidos ao "poder americano", mas não num espanhol da sua geração, ex-primeiro ministro e presidente de uma Fundação como a FAES.

Budapeste foi (já) há 50 anos


Vêm aí os 50 anos da insurreição anticomunista e anti-soviética de Budapeste, ocasião de uma das muitas histórias sangrentas da História sangrenta, que foi a História do Comunismo no século XX. André Farkas, então com 22 anos, testemunhou na linha de fogo os acontecimentos. Agora, ao aproximar-se a data precisa da efeméride, conta esses quinze dias que abalaram o mundo, em 1956, entre 22 de Outubro - data das primeiras reuniões dos estudantes no Círculo Petöfi - e 6 de Novembro, quando Janos Kádar, voltou a Budapeste com os tanques soviéticos que recolocaram os comunistas húngaros no poder.

André Farkas,
Budapest 1956 - La tragédie telle que je l'ai vu et vécu,
Tallandier, Paris, 2006, 287 pgs. (€21,00).

Número 61

O número 61 doa revista está para sair. Deixamos aqui uma antevisão da nova capa. Este número, dedicado ao tema "fronteiras", apresenta uma capa renovada em termos gráficos (embora por "motivos técnicos" as cores não tenham ficado bem reproduzidas nesta imagem). Esperamos que seja do gosto dos leitores.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

Aborto

"O aborto é uma coisa de Jack, o Estripador." (Nelson Rodrigues)

Medir forças

Numa colecção de Estudos sobre Relações Internacionais da Universidade de Cambridge foi publicado How the Weak Win Wars (Como os fracos ganham guerras) que é uma interessante "teoria do conflito assimétrico" da autoria de Ivan Arreguín-Toft. É um trabalho muito académico no sentido de que aspira e se esforça por considerar o tema de uma maneira muito científica, com a linguagem própria do género, copiosa bibliografia e dezenas de notas. Inclui uma interessante tentativa de "quantificação" do que é "a força" das partes num conflito e a preocupação de definir bem os termos do que se discute. Voltaremos a ele. Para já, traduzimos seguidamente um magistral parágrafo do magnífico escritor T. E. Lawrence, mais conhecido por Lawrence da Arábia, que serve de epígrafe a um dos capítulos (ao lado de umas palavras de Muhammad Ali, antes conhecido por Cassius Clay):
"Olhando em termos práticos a área que queríamos libertar ...comecei a calcular mais ou menos quantas milhas quadradas seriam: sessenta; oitenta; cem; talvez cento e quarenta mil milhas quadradas. E como iria o Turco defender aquilo tudo? Sem dúvida por meio de uma linha de trincheiras ao longo da extrema inferior da área, se lhe aparecêssemos sob a forma de um exército de bandeiras desfraldadas; mas suponha-se que éramos (como bem podíamos ser) uma influência, uma ideia, uma coisa intangível, invulnerável, sem frente ou retaguarda, deslizando por todo o lado como um gás? Os exércitos eram como plantas, imóveis, bem presas pelas raízes, alimentadas por longos caules ligados à cabeça. Nós podíamos ser um vapor, soprando onde quiséssemos. Os nossos reinos estavam na imaginação de cada um dos nossos homens; e como não carecíamos de nada de material de que viver, também nada de material ofereceríamos para a matança."

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Anjo de Portugal

Anjo de Portugal, do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, de Diogo Pires-o-Moço
Nestes momentos de desânimo, é importante que nos lembremos do Anjo de Portugal, pedindo-lhe a sua protecção para o País.
Notícia histórica
"A pedido do rei Dom Manuel e dos bispos portugueses, o Papa Leão X instituiu em 1504 a festa do «Anjo Custódio do Reino» cujo culto já era antigo em Portugal.
Oficializada a celebração tradicional, Dom Manuel expediu alvarás às Câmaras Municipais a determinar que essas festas em honra do nosso Anjo da Guarda fossem celebradas com a maior solenidade. Na festa do Anjo de Portugal deveriam participar as autoridades e instituições das cidades e vilas além de todo o povo.
Esta celebração manteve o seu esplendor durante os séculos XVI, XVII e XVIII em que Portugal também manteve o seu esplendor e decaiu no século XIX em que Portugal também decaiu.
Por determinação das Ordenações Manuelinas a festa do Anjo de Portugal era equiparada à festa do Corpo de Deus, já então a maior festa religiosa de Portugal, em que toda a nação afirma a sua Fé na presença real de Cristo na eucaristia.
De acordo com o testemunho dos Pastorinhos de Fátima, em 1915 e 1916 o Anjo de Portugal apareceu por diversas vezes a anunciar as aparições de Nossa Senhora nesta sua Terra de Santa Maria e deu aos Pastorinhos a comunhão com o «preciosíssimo corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo» como ele próprio declarou.
O culto do Anjo de Portugal teve o seu maior brilho nas cidades de Braga, Coimbra e Évora, e manteve-se na diocese de Braga onde se celebrava a 9 de Julho.
No tempo de Pio XII a festa do Anjo de Portugal foi restaurada para todo o País e transladada para o dia 10 de Junho a fim de que o Dia de Portugal fosse também o Dia do Anjo de Portugal.
Da generalizada devoção ao Anjo de Portugal dão fé muitas representações, sendo especialmente notáveis as imagens do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e da charola do convento de Cristo, em Tomar, a pintura da Misericórdia de Évora e a iluminura do «Livro de Horas de Dom Manuel».
O Anjo de Portugal é, até hoje, o único Anjo da Guarda de um país com culto público oficializado e foi o único Anjo da Guarda de uma nação que apareceu aos homens."
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Vinde, Anjo de Portugal, livrar a Pátria e os portugueses de todo o mal.
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Vinde, Anjo de Portugal, afastar da Pátria a vós confiada os males espirituais assim como tudo o que puder perturbar a paz dos portugueses.
(Do hino II Vésperas da Festa aos Anjos)
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Deus eterno e ominipotente, que destinaste a cada nação o seu Anjo da Guarda, concedei que, pela intercessão e patrocínio do Anjo de Portugal, sejamos livres de todos os adversários. Por nosso Senhor.
(Das Vésperas do Dia do Santo Anjo da Guarda de Portugal)
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NOTA: Este post reproduz uma pagela distribuída, nos anos 80, nas Igrejas de Portugal. Iniciativa a repetir!

Cuba sí

Gullermo Cabrera Infante, um excelente crítico de cinema e escritor cubano, assina o argumento de um recente filme de Andy Garcia –Havana, A Cidade Perdida – que com todos os seus defeitos vale a pena ver: é um retrato pouco habitual de La Habana prima della rivoluzione; só a música merece o desvio, bem como alguns "números" interpretativos (Dustin Hoffman, no papel de Meyer Lansky, Bill Murray, no papel de ?); os figurinos e cenários são de um bom gosto inexcedível e há um verdadeiro portfolio de Inés Sastre, que Andy Garcia não se cansou de fotografar sob todos os ângulos. O retrato de Batista e da queda do seu regime é um dos aspectos menos conseguidos do filme (compare-se com "O Padrinho", por exemplo, que neste aspecto lhe dá dez a zero). Em compensação, o filme chama a atenção para o papel dos movimentos urbanos de contestação do regime pré-castrista, que o triunfo dos "barbudos" abafou e o regime "fidelista" liquidou ou absorveu. É uma história que alguns livros recentes contam com todos os pormenores sórdidos. É também excelente o retrato de Guevara, um dos mais odiosos personagens daquela história e ainda venerado nos altares de muito boa gente. Mas passaram os dias de glória do velho e alquebrado regime cubano: ainda agora vimos que José Latour, cubano da geração de 40, que vive no Canadá e escreve romances policiais em que o regime castrista sai sempre mal parado (os últimos que tem publicado já são escritos directamente em inglês) foi um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paratí... É vice-presidente da secção latino-americana da International Association of Crime Writers. Só li dele um romance chamado em inglês Comrades in Miami, que não é mau.

O futuro, presente

Está finalmente a sair da forja o número 61 da revista: "Fronteiras". Estamos a preparar os próximos: o 62 será, entre outras coisas, dedicado - noblesse oblige? - a alguns aspectos da irritante questão das "direitas" - um desafio a que nunca somos capazes de resistir...Haverá a seguir um número "literário": John Fowles, Tintin e Céline, a entrevista com Ricardo Pinto que já anunciámos, talvez Brasillach, talvez a política em Pessoa revisitada (se o Nuno Rogeiro cumprir a promessa), etc. O numero 63 dedicará especial atenção ao tema do aborto.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

A transição (II): Os Candidatos

A Censura tinha instruções para não deixar passar notícias sobre o tema da escolha do sucessor de Salazar, sobre o processo de decisão em que o PR Américo Thomaz ia ouvindo os "notáveis" que entendia. Tudo "institucional", constitucional, legal, nas regras do jogo da Constituição de 33, pensada, praticada e completamente assente num homem que agora estava fora de jogo.
À portuguesa, e à portuguesa "direitinha", sem causar ondas, os Conselheiros de Estado e outras figuras gradas do Regime foram dizendo de sua justiça, tratando mais de perfis do que de pessoas.
Os "papabili" eram os barões considerados "operacionais" para esta função executiva: Marcello Caetano - na dupla condição de "jurista da coroa" e político "executivo" - tinha pensado e discutido teoricamente o regime no seu "Curso de Ciência Política e Direito Constitucional" e reflectira sobre a sua problemática e viabilidade, em múltiplas conferências e ensaios. Tinha sido militante nacionalista, "anti-democrata" confesso, nos tempos da Ordem Nova; era integralista da segunda geração; Comissário Nacional da MP, aparecendo então fardado "à fascista", ao gosto da época; depois Ministro das Colónias; e nos anos 50, depois de João Lumbrales e Pedro Theotónio Pereira, Ministro da Presidência, um cargo visto como "indicativo" de sucessor.
Demitira-se, em nome da "autonomia universitária", na crise académica de 1962. E ficara, depois, na reserva da República, dando aulas. (Foi meu professor, aliás excelente pedagogicamente, quer oral, quer por escrito, tornando "digerível até o Direito Administrativo"!). Era um conservador autoritário, oscilando entre o liberalismo aristocrático-atlântico e a percepção de uma mudança inevitável num mundo que deixara de ser eurocêntrico. Pessimista, auto-disciplinado,
Os outros candidatos, ou melhor os outros mencionados possíveis sucessores, eram Franco Nogueira, Antunes Varela, Adriano Moreira e Kaúlza de Arriaga. Franco Nogueira vinha do republicanismo histórico, fizera uma brilhante carreira na Diplomacia e como Director Geral dos Negócios Políticos, no tempo de Paulo Cunha e Marcelo Mathias, fora notado por Salazar e chamado para Ministro na solução da crise de 1961, em que o líder do Estado Novo apostara numa renovação geracional com pessoas como José Gonçalo Correia de Oliveira, Luís Maria Teixeira Pinto e Adriano Moreira.
Tornara-se notado pela visibilidade nas Nações Unidas. E era um realista radical, ao modo de Morgenthau, anglófilo e espanófobo. Andara pelos núcleos culturais da esquerda nos anos 40, crítico literário em O Diabo. A direita "dura" não gostava dele. Socialmente, sendo de uma honestidade e austeridade a toda a prova, tinha estabelecido boas relações com o establishement. Manuel Espírito-Santo Silva e Jorge de Mello, que eram as figuras líderes da Banca, da Indústria e da sociedade portuguesa, tornaram-se seus amigos, respeitavam-no e ouviam-no.
Antunes Varela representava o núcleo católico-social, a linha de influência conimbricense, que vinha de Pires de Lima. Era um jurista de grande reputação, um trabalhador incansável, mas não se lhe reconhecia grande sensibilidade política. Adriano Moreira, como Franco Nogueira, não vinha do regime. A carreira jurídica e o interesse pelos temas internacionais e os estudos africanos, tinham-no levado ao governo como Secretário de Estado do Ministério do Ultramar, com o Almirante Lopes Alves. Também na crise de 1961 - onde estivera com Kaúlza de Arriaga, contra os "conspiradores" - escolhera o "lugar certo". Era um académico, tinha um excelente estilo literário e ficara associado, no imaginário popular, a Angola 1961, à resistência; as mangas de camisa, o cigarro ao canto da boca, o chapéu atirado para trás. Uma imagem à Bogart... A "guerra" com o General Deslandes, Governador Geral de Angola e com "peso" na área militar, que Adriano demitira, levara Salazar a afastá-lo. Era também inimigo declarado de Marcello Caetano.
Kaúlza de Arriaga era um general político. Inteligente, articulado, executivo, tinha criado as tropas paraquedistas, fora responsável pela renovação das infraestruturas da Força Aérea no Ultramar; e em 1961 fora a chave e o condutor visível do "contra-golpe". Mas era "impulsivo" - o que não caía bem nas regras do tempo e a ideia de uma "remilitarização" do regime estava afastada. Os principais militares eram os primeiros a não querer um deles como chefe do Governo.
Assim postas, "informalmente", nos mentideros, as candidaturas entraram no puzzle de um regime fechado, de uma sociedade autoritária não totalitária, sem liberdade política, mas com liberdade civil, com grupos sociais autónomos e alguns jornais e revistas críticas do sistema como a República e a Seara Nova.
Marcello Caetano tinha "homens seus", na comunicação social oficial de então; além disso parece ter sido o único que, activamente por si, ou pelos seus, se mexeu pelo poder. Os outros mexeram-se contra ele, com cautela aliás, mas não por si. Deste modo, activou ou activaram por ele, o seu núcleo nos "media" - César Moreira Baptista, no SNI - Secretariado Nacional de Informação, Dutra Faria, director da ANI - Agência Nacional de Informação e Barradas de Oliveira, Director do Diário da Manhã.
Como os jornais portugueses não podiam reportar sobre o tema - começaram a publicar alguns textos autorizados da imprensa estrangeira - jornais ingleses e franceses - da área conservadora, citando os seus correspondentes em Lisboa. Os correspondentes em Lisboa falavam, precisamente, com o SNI e a ANI. E o nome de Marcello Caetano era citado como a mais provável escolha.
Aliás, com aquele espírito de reverência acrítica pelas decisões hierarquicamente superiores - um dos preços da estabilidade autoritária - ao nível dos quadros superiores e médios da burocracia, e como os "rivais" não fizerem nada por isso, uma solução a solução Marcello Caetano apareceu como a "solução". Pelo que ninguém se espantou nem se mostrou contrariado no dia 27 de Setembro, quando foram anunciadas por Américo Thomaz, a demissão de Salazar e a nomeação de Marcello Caetano.

O Passo da Floresta

As sociedades desenvolvidas do Ocidente têm causado uma certa náusea aos mais penetrantes observadores. O culto do deformado, do feio, da mentira, a vulgarização de todas as formas de depravação sob o largo manto de cultura de massa nunca deixou de irritar intelectuais cultos em todos os continentes. Salvo os intelectuais que promoviam as aberrações e que as consideravam um alto exercício de cultura vanguardista, nas fronteiras da imbecilidade para os públicos que as observavam com espanto entendendo-as como formas de audácia criativa. Alguns buscaram responder a este assalto de uma cultura de divertimento e laxismo, estruturada em superficialidades, relativismo, culto do eu e do corpo, da hipocrisia e da tolerância, potencializante do desenvolvimento dos sentidos humanos mais brutais com distopias aterradoras. Entre eles cumpre destacar Aldous Huxley, quer no seu livro de marca (Brave New World), quer no menos conhecido The Island, que faz o processo dessas culturas escabrosas, mas ele já era um homem convertido a Vilfredo Pareto, o italiano útil. Mas outros seguiram os seus passos. Os mundos tenebrosos e maléficos sucederam-se em catadupas no século XX com os livros de Ray Bradbury, de Phlipp K. Dick, de Stanislas Lem e do outro lado da Cortina com os trabalhos bem elaborados de Kir Bolichev e dos irmãos Strutgatsky, que fizeram o que puderam para demonstrar, sem régua ou esquadro, que aquele mundo alternativo tinha chegado ao fim e o que restava era a distopia, que eles retratavam em contos e novelas de fina imaginação, mas que o regime cego a tudo o mais que a sua certeza, editava. E isso já era um sinal da sua debilidade. Os autores ditos nobres como Ernst Jünger deveriam assentar um golpe fatal: a sua experiência de guerreiro e homem solitário deram-lhe o distanciamento devido para atacar de frente o monstro, denunciando sobretudo a banalidade e a opressão da máquina estatal sempre em crescimento. Ele sugeriu que era possível neste tempo ainda salvaguardar uns quantos homens dispersos com capacidade de passar à floresta: isto é, um processo pelo qual uma pessoa se auto-revela e se auto-selecciona pelo sofrimento e pela alegria, mas nunca pela dor e pelo prazer, porque esse é o alimento dos animais. Falésias de Mármore, As Abelhas de Cristal, Heliopolis, Ewmeswille, são obras decisivas que desenham o modo de selecção: o homem verdadeiro retira-se do jogo banal, que se lhe torna indiferente. Numa postura estética, o homem passa à invisibilidade no mundo dos homens, passa a número que não é contado, e na novela perde-se na floresta, que é o modo germânico de ver as coisas. Parece que nunca como hoje, nas sociedades ocidentais, escravizadas pela cultura dominante do divertimento, obcecadas por ver e espiar pelo buraco da fechadura (a televisão), ver as intimidades de cada um que lhes são fornecida por diversas novelas, dominadas por uma baixa intelectualidade que se põe em bicos de pés para ser vista, se torna necessário dar esse passo. Passar à invisibilidade, integrar a hoste da floresta, que ao contrário do que se deveria esperar já não abriga bárbaros, mas pessoas cultas e que em vez de se refugiar como um resto na floresta, se deixam ficar calmamente na cidade a observar o espectáculo que lhes é fornecido. Curiosamente as sociedades ocidentais estão a desenvolver um proletariado interno, não no sentido marxista (os operários), mas no sentido de uma massa de não integrados em ordens ou estratos ou classes, deserdados, indigentes, desempregados, imigrados, pobres, que tenta esconder ou subalimentar. Por outro lado, esta sociedade abundante está rodeada por um proletariado externo que vê nela o seu paraíso na terra. Este proletariado externo para a Europa é constituído sobretudo pelo mundo islâmico, que iniciou a sua entrada pacífica. Na verdade, o fim, no sentido que lhe deu o historiador inglês Arnold Toynbee, esta à vista se não se inverterem determinadas megatendências. O proletariado externo e o proletariado interno não se contentarão com a comida de Soylent Green, de Harry Harrison. Quererão coisas mais substanciais como espaço, etnicidade reconhecida, religião confirmada e livre, e depois tudo o que se possa obter sem violência manifesta. De seguida serão o exército, como em Roma na decadência. E o tempo da floresta também passará.

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Releitura de Les Justes



Camus, Albert Camus, nascido na Argélia, resistente, Prémio Nobel da Literatura, foi um dos autores mais lidos na minha adolescência, no princípio dos anos sessenta, graças à colecção "Miniatura" que traduziu e editou a preços acessíveis algumas das suas obras mais importantes: O Estrangeiro, A Peste, Calígula, O Exílio e o Reino. Líamos também as edições em francês, nos Livre de Poche. E tínhamos ecos da sua linha política, da Resistência, da polémica com Sartre nos anos 50, dos cafés do Quartier Latin e dos e das "existencialistas" - da Juliette Greco, sobretudo.

Mais tarde, na Faculdade de Direito, no 1º ano, encontrei um colega e amigo que era um "camusiano" entusiasta - o Manuel Jorge Magalhães e Silva - e que fez o meu upgrading no mundo de Camus, no seu humanismo laico.

É interessante reler Les Justes para ver os "anos-luz" que regredimos em matéria de preocupação filosófica. Camus, como antes dele os grandes escritores russos, Dostoievski à cabeça, preocupava-se com a "ética" da acção. Os personagens de Les Justes são um grupo - um comando diríamos hoje - de sociais-revolucionários russos que se preparam para atacar à bomba e assassinar o Grão-Duque Sérgio, tio do Czar Nicolau II. Entre eles há linhas, sensibilidades: desde Kalyev (Serge Reggiani) que no momento do atentado não lança a bomba por haver crianças na carruagem - os sobrinhos do Grão-Duque - até ao radical Stepan que encarna uma linha de leninismo finalista em que os fins (bons) justificam todos os meios. E a Dora (interpretada na première por Maria Casarés, outro ícone do tempo) e Annenkov, que é o chefe.

Hoje, com o terrorismo "macro", apocalíptico, suicida (mas estes russos também eram suicidas, como o Buiça e o Costa que assassinaram D. Carlos e D. Luís Filipe, pois sabiam que seriam capturados ou mortos) podem parecer "filosóficos" ou "florentinos" estes problemas éticos. Que eram os nossos - à direita e à esquerda.

Agora na sociedade unidimensional democrática e de mercado, "boa" e a globalizar, uma única preocupação: a eficácia dentro da legalidade formal. E a reacção da opinião pública.

Os islamo-leninistas, novos iluminados, são também assim.

Le Carré no coração das trevas

O novo romance de John le Carré, The Mission Song, leva-nos à África de hoje, recriada no lugar imaginário e inspirado de outros grandes escritores em loci africani - como o Conrad de Heart of Darkness e o V.S. Naipaul de A Bend on the River.

Mantenho a minha opinião, de "longa duração", de que John le Carré é além de um dos responsáveis pela passagem da spy novel à categoria de "literatura" tout court, um dos seus mestres. Mas o seu talento está ligado aos tempos da "guerra fria", em cidades como Londres, Berlim, Bona, Praga. Isto é no ciclo de Karla versus Smiley, com os snobs e os plebeus do "Circo", os aparatchiques do Leste, os "dragões britânicos", os "primos" da CIA. As suas incursões nos trópicos e mesmo no Médio Oriente - como The little drummer girl - nunca me convenceram.

Depois as suas obcessões de fazer "vilões" ex-aequo com os soviéticos - a elite britânica, os seus clubes, os seus funcionários de Whitehall, os americanos, sobretudo os quadros de Langley - às vezes tocam a correcção política, numa equivalência moral que em fim de contas é falsa.

Mas a RDC-Congo tem potencial para reviver essas novas epopeias "africanas" do tempo das Quimeras Negras de Lartéguy ou dos Dogs of War do Forsyth. Naquele quadro David-Golias - um herói alegre, bravo, atirado para a frente - (Smiley era bravo e determinado, mas é difícil imaginar alguém mais triste) contra a "liga dos malvados". Aqui espiões e mercenários ocidentais, capitalistas dos recursos, warlords e políticos locais: tudo perverso, maquiavélico; todos ávidos, corruptos, sem escrúpulos. Vamos ler e depois damos notícia.

Mais “Polvo”


Um SMS da Graça informou-me ontem da saída cá da Série 5 de O Polvo, a edição portuguesa da magnífica história italiana sobre a Mafia contemporânea.

"O Polvo" é uma série de qualidade, com um excelente roteiro, banda sonora nostálgica e dramática, belíssimas paisagens das ruas de Milão e Roma ao interior ou às praias da Sicília ou aos lagos da Itália do Norte.

Tem um certo niilismo, pois sabemos que os "bons" - o Inspector Catanni, representado por Michel Placido, ou a juíza Silvia Conti - têm sobre eles, sempre, a sombra da morte, para eles ou para os seus mais próximos. O "dinheiro sujo" multiplica as dependências e tentáculos do "polvo", os seus sicários e serventuários. Os tenebrosos chefes dos chefes mafiosos, como Antonio Espinosa, encarnado por Bruno Crémer, que noutras séries faz de Maigret, e que um dia encontrei num restaurante em Havana, (o Crémer, esclareço, não vá algum "controleiro" mais ignorante, achar que é o Espinosa)...

São cinco episódios. Vamos revê-los.

Anders e os Holbein

Entre a infernal máquina de produção livreira a ASA proporcionou-nos uma saga de quatro livros caros sem avisar que o texto não presta. O texto dos Holbein é mesmo à alemã: chato, descritivo, com um personagem embirrento, obtuso que durante três livros só faz asneiras. Tem que se ser curioso para verificar como os autores vão resolver o problema que andaram a construir em três livros. Mas a desilusão não tarda. O livro é o pior dos quatro. A solução que Holbein encontra é risível no seu melhor. Não é uma obra fantástica, mas sim um fantástico erro. Espera-se muito do primeiro tomo, mas logo nos outros vamos descobrindo que as coisas não colam. Se os Holbein são grandes escritores na Alemanha não o são para quem tiver lido Gemmel, Feist, Stanislas Lem, Isaac Asimov, John Windham ou até mesmo Herbert George Wells. Há um ritmo que tem de ser preservado e que nos Holbein não existe. Há uma história que tem de ser bem contada e eles não sabem contar. A história imagínária ter que ser fechada magistralmente com um fim surpreendente ou com uma forte chave lógica, dentro do enredo desenvolvido. Os Holbein não sabem o que isso é. Fecham o seu enredo descritivo e chato com uma solução caída do Céu, que verdadeiramente é uma obtusidade. Se gosta de literatura fantástica não leia os Holbein porque perderá dinheiro e tempo.

O rapaz do trapézio voador

A RTP2 passou mais um filme potuguês, O Rapaz do Trapézio Voador, de Fernando Matos Silva, que salvo erro foi um dos meus colegas num Curso de Cinema da Mocidade Portuguesa. Segundo um dos resumos dos jornais, a história resume-se assim: "Adriano sente-se deprimido, cercado, incapaz de fugir ao seu destino. Na iminência de ver a sua aldeia alentejana engolida por uma barragem, suicida-se". Não sei (não vi o filme) o que o filme tem a ver com a velha cantilena, a não ser também acabar mal: O circo desceu à cidade/Numa tarde de imenso calor/Com ele vinha também o rapaz do trapézio voador (...) E ao rufar dum enorme tambor/Deu com a pinha no chão/O rapaz do trapézio voador. Por alguma razão um romancista espanhol diz num dos seus livros, a propósito de qualquer coisa, que era "triste como um fita portuguesa". É matéria que merece ser tratada na revista.

A transição (Apontamentos quase pessoais) I


Salazar (1889-1970) . Marcelo Caetano (1906- 1980)



Estava um tempo de Outono "clássico", com dias amenos, solarentos, típicos da estação, naquele Setembro de 1968: manhãs claras, de ar fino; meios-dias mais quentes, tardes de luz de Lisboa, a acabarem e esfriarem em crepúsculos longos. Um Outono antigo...

Eu tinha cadeiras de 2ª época em Direito, duas, para passar para o quinto ano; nos intervalos de estudo intensíssimo, seguia, como os portugueses na idade da razão política, as vicissitudes da crise e da substituição de Salazar, em coma desde o princípio de Setembro. Trabalhava, também, no Telejornal da RTP, como redactor. Éramos aí cerca de 20 pessoas, contando com o "trio" do desporto.

Salazar era para nós , e para todos os portugueses nascidos depois da Grande Guerra o detentor e símbolo do poder, onde estava há 40 anos. Um poder patriótico, paternalista, benigno, pedagógico, tranquilizante, para uns; opressivo, ditatorial, injusto, irracional para outros. E talvez indiferente para a maioria. Tínhamos o seu retrato nas paredes das salas de aulada escola primária; na minha, no Colégio do Campo da Regeneração no Porto, estava jovem, de perfil, ao lado um Carmona com excelente aspecto de general inglês- magro, pequeno, de bigode; o Salazar dessas fotos, em fundo sépia, tinha perfil do "homem forte" dos anos trinta.Quanto a Carmona já tinha morrido,mas o director e proprietário do colégio,o professor Alberto Dias Neto Guimarães,nunca o tirou.Não por fé política,pois,como repetia, “não era da Situação”...Talvez para poupar.

Salazar chegara ao poder, chamado pelos militares, para resolver o problema crónico das Finanças Públicas. Tinha-o resolvido, graças à base de estabilidade autoritária e a uma disciplina orçamental em tempo de Estado pequeno; e também com o dinheiro emigrado para Londres a regressar, atraído pela estabilidade e ordem que o novo regime garantia.

Resolvido o problema financeiro e porque entretanto fizera por isso, Salazar impuzera-se como "o político" da Ditadura Militar e o civil que ia preparar a transição para o novo Estado; em 1932 sucedera ao Gen. Domingos de Oliveira, como chefe do Governo; em 1933 era referendada a Constituição nacional-autoritária e corporativa que tinha congeminado.

Depois, o país ia viver quase sempre em estado de excepção exterior, apesar da estabilidade interna: de 1936 a 1939 foi a Guerra de Espanha, o apoio aos nacionalistas, o equilíbrio entre os britânicos e os poderes fascistas aliados de Franco no conflito; e na sequência a II Guerra Mundial em que Salazar optou e conseguiu uma neutralidade, primeiro "neutra", depois "colaborante", bem articulada com Franco. Salazar convenceu os ingleses a não intervirem em Portugal e nos Açores, garantindo-lhes a neutralidade de Franco; Franco fizera promessas a Hitler, guardando a reserva ardilosa das contra-partidas impossíveis e enviando, como penhor, a Divisão Azul para a Frente Russa, divisão sucessivamente comandada por Muñoz Grandes e Esteban Infantes. Assim cumprira, no capítulo do esforço anti-comunista, em que era sincero, e livrara-se, em Espanha, dos mais ardentes pró-alemães, voluntários para um expedição duríssima, em que muitos ficaram. José Maria Gironella fala disso, no 3º volume da sua trilogia da Guerra de Espanha, memorável mas hoje esquecida - Ha estallado la Paz.

Acabada a guerra mundial, Salazar e Franco foram "salvos" da globalização democrática, pelo começo da Guerra Fria. O "establishment" norte-americano, com Truman, democrático mas realista, percebia a vantagem dos regimes peninsulares, no novo quadro. E sabia que em Portugal e em Espanha, não havia condições de fundo para uma democracia liberal estabilizada, que as oposições seriam hegemonizadas pelos comunistas. E que, além disso, os líderes peninsulares contavam ainda com o apoio das classes médiasnascentes, da Igrejae dos militares. Seriam as condições de fundo criadas nos trinta anos seguintes, com o desenvolvimento económico-social e o empowerment político das classes médias, resultantes da estabilidade dos autoritarismos,que trariam a base social de apoio para as transições democráticas.

Nos anos cinquenta, Salazar era a coqueluche dos conservadores franceses e dos católicos tradicionais de toda a Europa. Mas não só. Se uns lhe chamavam "Le sage de l'Occident" para os conservadores americanos era um ditador moderno,incorruptível com ar de businessman ou banqueiro .. "Salazar forte e modesto" era o título de um artigo que lhe dedicava as Selecções do Reader's Digest, a popularíssima colectânea nos anos cinquenta.

A seguir continuaram as crises internacionais e nacionais: da Índia Portuguesa, em 1954; a candidatura de Delgado, outro "general" - antes de Botelho Moniz, Costa Gomes e Spínola - a desafiar o regime, em 1958.

E a partir de 1961, a ofensiva globalizada contra o Império português na diplomacia, no terreno, na opinião - e também entre os portugueses- marcaria a agenda e o destino de tudo.

E era o homem que protagonizara tudo isto, que ficava ali, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha, em Benfica, esquecido depois da nomeação do seu sucessor pelo Presidente da República, contrastando com as visitas dos notáveis até então. Em coma, mais morto que vivo, nesse princípio do Outono de 1968. Há 38 anos,em 27 de Setembro de 1968.

(continua)


Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Roger Scruton

Há livros cuja publicação não devemos deixar passar em claro. É esse, certamente, o caso de O Ocidente e o Resto de Roger Scruton, que a Editora Guerra & Paz acaba de publicar entre nós, com prefácio de João Pereira Coutinho.

A obra de Roger Scruton, infelizmente, é ainda pouco conhecida no nosso País, apesar da fama internacional deste cidadão britânico que se define a si próprio como "filósofo, e jornalista, e escritor, e compositor. E editor. E caçador." Nada politicamente correcto. Como nós gostamos.

Neste ensaio, escrito já depois do 11 de Setembro, o autor coloca questões importantes para a sobrevivência do Ocidente, face à nova ameaça do terrorismo internacional e perante os novos desafios da globalização. Estaremos nós dispostos a abdicar dos nossos princípios, da nossa civilização, perante um Islão radical que apela à Guerra Santa e à conquista da Europa? Vamos continuar a desvalorizar o Estado-nação, que esteve na base da nossa sociedade tal como a conhecemos e que foi o garante da nossa segurança e desenvolvimento?

O mundo, de facto, nunca esteve tão perigoso. Uma leitura obrigatória!