segunda-feira, março 19, 2007

TEMPESTADES SOBRE WASHINGTON

Washington é esta cidade racionalista, neo-clássica, nas margens do Potomac, capital da República Imperial americana. É uma cidade que conheço bem há 30 anos.

Tem o Mall com as sedes e símbolos do poder – o Capitólio, a Casa Branca, os "executive buildings"; Georgetown, boémia, académica tipo "rive gauche"; e Dupont Circle, também boémio, ao lado da zona residencial de luxo, Embassy Row; e uma "baixa" com os escritórios dos "lobbies", dos "think-tanks", das Fundações, das revistas políticas. E os três clubes importantes: o Metropolitan, desta tão especial gentry americana que fascinou, acolheu, e liquidou o Jay Gatsby – Scott Fitzgerald; o Cosmos, dos políticos e dos académicos, onde fico sempre; o Army and Navy, dos militares. "Metropolitan is money; Cosmos, brains; no money no brains, Army and Navy". É uma graça anti-militarista de Washington.
Sobre esta, pairam um fantasma e uma incógnita: o fantasma é o Iraque; a incógnita, as presidenciais.

O fantasma, que assombrava o Executivo, passou também para o Congresso, desde que os democratas são a maioria. Na Administração, já toda a gente entendeu que os neo-conservadores, neo-wilsonianos e ex-esquerdistas do "democracia já e em toda a parte", arrastaram o país para outro Vietname. Os realistas tomaram agora conta do State Department e, com Robert Gates, do Pentágono. A política vai ser mais bipartidária e vai concentrar-se no "honorable way out", sem que os estragos sejam (muito) visíveis. As esperanças voltam-se para o General Petraeus um dos artífices da vitória militar de 2003, um peso pesado. Ele e Gates, um expert na área da intelligence, devem pôr de pé uma estratégia de contra-insurreição, inspirada na linha de Jacques Massu na Batalha de Argel. Mas que só funcionará se fôr suspenso o "Estado de direito" imposto pela correcção política – com juizes iraquianos, a julgarem terroristas, (que absolvem sempre, é claro!). Assim, não há forças iraquianas, militares ou policiais, para os combater.

O outro tema são as presidenciais. Há dois candidatos "fortes" republicanos - Rudi Giuliani e John McCain – que têm dificuldade por vidas e opiniões, com a base evangélica do partido, isto é para a nomeação. E dois – Hillary Clinton e Barack Obama – nos democratas. Hillary tem dinheiro, fama, e sabe manipular as convicções à mercê do interesse imediato. É detestada pelos evangélicos, para quem simboliza o pior. Obama tem simpatia, originalidade, uma mulher (muito) bonita e os media puxam por ele. Mas não tem dinheiro, numa nomeação que se vai decidir, com o calendário de primárias previsto, até Maio de 2008. O que quer dizer, ter pelo menos 100 milhões de dólares cash, em Dezembro de 2007, para ser um candidato a sério.

Ora se a candidata democrática for Hillary, os evangélicos – que são religiosos, mas não são estúpidos – irão votar contra ela, seja quem fôr o seu opositor. Até Giuliani, casado pela terceira vez e com opiniões tolerantes sobre questões de moral e costumes. E, segundo as "sondagens", Hillary perde contra Giuliani, e até contra McCain, desde que os evangélicos não fiquem em casa! Interessante.

Jaime Nogueira Pinto
Artigo publicado no Expresso a 17 de Março de 2007.

3 Comentários:

Blogger Sérgio Alves disse...

Jaime,
Gostei muito da descrição pessoal de Washington.
Deve valer a pena conhecer, passear e visitar locais míticos da história dos Estados Unidos da América e da história universal.
Cumprimentos
Sérgio

segunda-feira, março 19, 2007 7:22:00 da tarde  
Blogger Vitório Rosário Cardoso disse...

Caríssimo Prof. JNP,

Alguns jovens universitários naturais do Minho a Macau (e provalmente a Timor), essencialmente de todo o antigo Ultramar, têm grande interesse em assistir ao último debate do concurso dos grandes portugueses, ainda se vai a tempo?
Encontrei hoje o Rui (amigo e colega da Teresa na UCP) e falou-me da possibilidade em poder-se assistir.

Saudações,
Vitório Cardoso

Post scriptum - Porque é que não se insurgiu sobre a manipulação que houve com os cartazes de "campanha" de rua para a votação para o grande português? (A questão da ordem trocada dos "cognomes" - Cunhal, «"S"olidário ou "t"otalitário?» e para Salazar, «"D"itador ou "s"alvador?"»? Estive a auscultar alguns académicos, um deles que teve funções governativas com Guterres, ambos admitiram a possibilidade de manipulação, o primeiro explicando a possibilidade de "auto-censura" que é pior do que a censura, pois não deixa "marcas das ordens de comando" e o segundo (socialista) apenas desvalorizou a questão, dizendo que Portugal tem assuntos mais importantes com que se preocupar. Não esteve foi à espera da resposta, que se uma empresa pública, que está sob alçada do Governo, faz uma "brincadeira/manipulação" tão flagrante, o que não fará sobre os assuntos de Estado mais importantes e difíceis.

segunda-feira, março 19, 2007 8:54:00 da tarde  
Blogger Paulo Cunha Porto disse...

A questão parece ser se McCain pode bater Giuliani na primária Republicana. E acho que pode, pois os grupos religiosos já não sentem a ameaça do espantalho da reforma de financiamento que ele propunha (com Feingold) aquando da primeira eleição de Bush. Sente-se que por esse lado o mal que havia a fazer está feito e tem a vantagem sobre o novaiorquino de ser "pro life". Contra tem a História - os americanos não gostam de eleger senadores directamente para a Casa branca, só Kennedy e Harding foram excepções. E o 11 de Setembro criou o mito do "Mayor da América". Na volta um ainda vai acabar em VP do outro...

sexta-feira, março 23, 2007 7:28:00 da tarde  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial