quarta-feira, novembro 14, 2007

JACK BAUER - MATAR PELA PÁTRIA

Sou adicto ao 24 Hours e ao Prison Break; como fui do Polvo e dos Sopranos e vi as miniséries históricas brasileiras do tipo Desejo (vida e morte de Euclides da Cunha), JK (vida e obra de Juscelino Kubisheck), Agosto (do romance de Ruben Fonseca), Anos Dourados e Anos Rebeldes – o Rio no seu encanto e tragédia. Ou a também brasileira e fabulosa adaptação de Os Maias.
Mas 24 Horas e o seu protagonista – Jack Bauer - são outra coisa. Acabei a 6ª série. Para aqueles que não conhecem explico, simples e rápido. Trata-se de uma série em tempo real – o que quer dizer que o tempo do filme é o tempo dos acontecimentos. Com 20 ms. descontados por hora, pois os episódios têm 40 ms...
Jack Bauer é um operacional de uma agência federal americana – CTU – Counter-Terrorist Unit. Baseada em Los Angeles, a CTU tem por missão descobrir, combater e neutralizar os projectos macroterroristas contra os EUA e a sua população. Tem pano para mangas.
A época é hoje. Os ataques vêm de fanáticos islâmicos com armas de destruição maciça – bactereológicas, químicas, nucleares - dentro da América e com cúmplices americanos.
O Jack Bauer e a CTU, com miolos, tecnologia e força física, vão pondo em cheque estes atentados, capturando ou matando os seus autores. Ao mesmo tempo, há sempre uma intriga ou conspiração a nível da Casa Branca, envolvendo o Presidente ou alguns dos seus mais próximos colaboradores. Dos presidentes que apareceram já, destacam-se os Palmer, afro-americanos e irmãos. Os Vice-Presidentes têm saído mauzotes.
Bauer, personalizado por Kiefer Sutherland, é um solitário, com um itinerário trágico que o foi privando dos afectos próximos. Encarna a razão de Estado da emergência, tem que continuamente escolher, decidir, remediar, corrigir no terreno as decisões dos chefes. Às vezes tem que eliminar os próprios amigos e companheiros para proteger a missão. Tem uma energia e uma força inesgotáveis, mas é um homem marcado e torturado por uma saga de desgraças, de sacrifício silencioso, de quem queima as próprias saídas. Desta vez confronta-se, além dos terroristas do Médio Oriente, com um pai (o seu) paranóico e um irmão traidor, com um comando chinês que quer roubar componentes nucleares secretas, mais um general e um diplomata russos que se querem vingar da derrota da URSS na Guerra Fria. Chega para todos.
Vê-se uma lista completa de "inimigos" actuais ou potenciais dos EUA. Os personagens são bem recortados e os tipos da política actual bem transmitidos: neoconservadores maquiavélicos, liberais insensatos, realistas q.b.. E uma equipa de quadros da CTU, motivados e com espírito de corpo. Extraordinários na utilização da alta tecnologia informática – mas os "maus" não lhes ficam atrás – e na coordenação dos meios operacionais. E, dentro do exagero a que obriga pelo "tempo real" e permanente suspense, um bom retrato da guerra surda e suja do século XXI. Onde, como mostra o Jack Bauer, ainda é preciso morrer – e sobretudo matar – pela pátria!
Jaime Nogueira Pinto
Publicado no Expresso a 10 de Novembro de 2007

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