sábado, setembro 15, 2007

MAIS BULGAKOV

Dado o interesse à volta de Bulgakov e de "O Mestre e Margarida"transcrevo aqui este artigo de Rubens Figueiredo:

"BULGAKOV,O SEM PARTIDO"

Como o stalinismo atormentou um dos
maiores escritores russos do século XX

Rubens Figueiredo*



"Os manuscritos não ardem em chamas" foi uma frase muito repetida pelos russos, sob o regime comunista. Extraída do romance O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891-1940), ela representava um desafio à censura, vigente no país até a década de 1980. O que ninguém poderia prever era o teor profético que essas palavras assumiriam em relação ao próprio Bulgákov, um dos maiores autores russos do século passado. Em 1926, a polícia deu uma busca em sua casa e confiscou vários diários e anotações. O escritor tentou reavê-los durante anos, apelando a quem podia. Enfim, recuperou os papéis – apenas para lançá-los ao fogo assim que chegou em casa, pensando em livrar-se de futuros aborrecimentos. Dados como perdidos, os ricos diários de Bulgákov sobreviveram, no entanto. Na década de 1990, quando os arquivos da polícia política soviética foram abertos, lá estava uma cópia deles, cuidadosamente datilografada pelos burocratas.

Esse episódio dá uma idéia das agruras dos intelectuais sob o regime de Josef Stalin, que durou de 1924 a 1953. Sobretudo de intelectuais como Bulgákov, que tentavam criar sem a ingerência de um governo detentor de todos os meios de comunicação. A sina desse escritor que, em pleno domínio do realismo-socialista, fundia o fantástico à sátira, pondo para dançar na mesma roda bruxas, diabos, espiões e burocratas, é retratada no livro O Diabo Solto em Moscou (Edusp; 584 páginas; 42 reais). Trata-se de uma biografia de Bulgákov, assinada pelo estudioso da literatura russa Homero Freitas de Andrade, além de uma ótima seleção de contos.

Um dos méritos do livro é mostrar como Bulgákov reelaborou, em forma de ficção, os fatos de sua vida. Depois de ter presenciado o suicídio de um amigo apavorado com o recrutamento militar, Bulgákov foi médico no front, durante a I Guerra. Segundo a esposa enfermeira, "fazia amputações da manhã à noite". Ela segurava os feridos enquanto ele operava. Transferido para o interior, contaminou-se ao sugar por um tubo o muco de uma criança com difteria. Recorreu à morfina para aliviar as dores e viciou-se na droga. Mandava a mulher conseguir morfina e, descontrolado, chegou a jogar contra ela um fogareiro a querosene e ameaçá-la com um revólver. Sobrevieram a Revolução de 1917 e a guerra civil. De novo médico no front, Bulgákov testemunhou execuções sumárias, torturas e enforcamentos coletivos, enquanto grassavam epidemias de tifo e cólera. Essas experiências ressurgem em textos como A Morfina e Relatos de um Médico Jovem, presentes nesse volume.


Roger Viollet
Mikhail Bulgákov: biografia e seleção de contos

Farto da medicina, Bulgákov resolveu dedicar-se apenas à literatura em 1920, obtendo enorme êxito com a peça Os Dias dos Turbin (1926). O próprio Stalin a viu muitas vezes e sabia trechos de cor. Mas nem isso impediu que ela fosse proibida. Bulgákov era um sem-partido – ou seja, optou por não se filiar ao Partido Comunista – e suas obras inspiravam hostilidade. Cinco anos depois, e de forma inexplicável, Stalin mandou reencenar a peça e Turbin chegou a ter 800 apresentações. Só que os direitos autorais não iam para Bulgákov. Proibido de publicar e com suas peças banidas dos teatros, o escritor se viu privado dos meios de vida. Em desespero, chegou a enviar uma carta a Stalin (veja quadro). Certo dia, o telefone tocou e o próprio ditador lhe disse: "Nós o aborrecemos tanto assim? Precisamos nos encontrar para uma conversa". Em vista da crescente brutalidade do regime, o tom paternal do líder havia de soar bastante ameaçador.

A situação de Bulgákov tornou-se absurda: os teatros lhe encomendavam peças que não encenavam. Uma delas foi ensaiada em vão durante quatro anos. Sua criação tornou-se uma atividade clandestina e seus contos insólitos – como Anotações nos Punhos – podem ser mais bem entendidos à luz dos caprichos da censura, dos labirintos da burocracia, do clima de vigilância e delação constantes, que assombraram Bulgákov até o fim da vida. Hoje, restaurantes em Moscou levam o nome de seus personagens e um ônibus turístico percorre os locais citados em O Mestre e Margarida. Não deixa de ser um final feliz.



SOU ADMISSÍVEL NA UNIÃO SOVIÉTICA?

"Após todas as minhas obras terem sido proibidas, começaram a ecoar vozes entre muitos cidadãos dos quais sou conhecido como escritor, que me dão sempre o mesmo conselho: Escrever uma 'peça comunista' e, além disso, dirigir ao Governo da União Soviética uma carta de arrependimento, contendo a negação de opiniões precedentes manifestadas por mim em obras literárias, e assegurando que doravante hei de trabalhar como um escritor fiel à idéia do comunismo. Não dei ouvidos a esse conselho. É pouco provável que lograsse aparecer num aspecto favorável tendo escrito uma carta mentirosa. Nem mesmo ia tentar escrever uma peça comunista, sabendo naturalmente que não conseguiria. TODO E QUALQUER SATÍRICO NA UNIÃO SOVIÉTICA ATENTA CONTRA O REGIME COMUNISTA. Será que sou admissível na União Soviética?"


Trecho da carta enviada a Stalin por Bulgákov,
em Março de 1930

1 Comentários:

Blogger Diogo disse...

Petraeus - a volta por cima?
O antídoto para o caos iraquiano pode surgir da nova estratégia delineada pelo general David Petraeus, que esta semana anunciou um plano de retirada parcial. Conseguirá este reputado intelectual corrigir, no terreno, os erros de Bush?


Que grande mentiroso que tu me saíste, Jaime Nogueira Pinto:

John Pilger - 04/05/2006

Os elevadores no New York Hilton mostravam a CNN num pequeno écran que não se podia evitar ver. O Iraque estava no topo das notícias; pronunciamentos acerca de uma “guerra civil” e “violência sectária” eram repetidos incessantemente. Era como se a invasão estadunidense nunca houvesse acontecido e a matança de dezenas de milhares de civis pelos americanos fosse uma ficção surrealista. Os iraquianos eram árabes pouco inteligentes, assombrados pela religião, conflitos étnicos e a necessidade de se auto-destruírem. Untuosos fantoches políticos eram mostrados sem qualquer indicação de que o seu quintal de exercícios era no interior da fortaleza americana. E quanto se deixava o elevador, isto seguia-nos até ao nosso quarto, até ao ginásio do hotel, ao aeroporto, ao aeroporto seguinte e ao país seguinte. Tal é o poder da propaganda corporativa da América, a qual, como destacou Edward Said em Cultura e Imperialismo, «penetra electronicamente» com o equivalente a uma linha do partido.

A linha do partido mudou outro dia. Durante quase três anos era que a al-Qaeda era a força condutora por trás da “insurgência”, liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um jordano sedento de sangue que estava claramente a ser guindado para a espécie de infâmia desfrutada por Saddam Hussein. Não importava que al¬ Zarqawi nunca tivesse sido visto vivo e que apenas uma fracção dos “insurgentes” seguisse a al-Qaeda. Para os americanos, o papel de Zarqawi era distrair a atenção daquilo a que se opõem quase todos os iraquianos: a brutal ocupação anglo-americana do seu país.

Agora que al-Zarqawi foi substituído pela “violência sectária” e pela “guerra civil”, a grande notícia é os ataques sunitas a mesquitas e bazares xiitas. A notícia real, que não é relatada na CNN “de referência”, é que a Opção Salvador foi invocada no Iraque. Isto significa a campanha de terror através de esquadrões da morte armados e treinados pelos EUA, os quais atacam sunitas e xiitas da mesma forma. O objectivo é o incitamento de uma guerra civil real e a fragmentação do Iraque, a meta original da guerra da administração Bush.

O Ministério do Interior em Bagdade, que é administrado pela CIA, dirige os principais esquadrões da morte. Os seus membros não são exclusivamente xiitas, como diz o mito. Os mais brutais são os Comandos de Polícia Especiais dirigidos por sunitas, encabeçados por antigos oficiais superiores do Partido Baath de Saddam. Esta unidade foi formada e treinada por peritos em “contra-insurgência” da CIA, incluindo veteranos das operações de terror da CIA na América Central na década de 1980, nomeadamente em El Salvador. No seu novo livro, Empire’s Workshop (Metropolitan Books), o historiador americano Greg Grandin, descreve a Opção Salvador assim: «Após a posse, [o presidente] Reagan caiu duramente sobre a América Central, permitindo efectivamente que os mais comprometidos militaristas da sua administração preparassem e executassem a política. Em El Salvador, eles providenciaram mais de um milhão de dólares por dia para financiar uma campanha letal de contra¬ insurgência ... No total, os aliados dos EUA na América Central durante os dois mandatos de Reagan mataram mais de 300.000 pessoas, torturaram centenas de milhares e conduziram milhões ao exílio».

Embora a administração Reagan tenha parido os actuais bushitas, ou “neo-cons”, o padrão foi estabelecido anteriormente. No Vietname, esquadrões da morte treinados, armados e dirigidos pela CIA assassinaram cerca de 50.000 pessoas na Operação Phoenix. Em meados da década de 1960, na Indonésia, oficiais da CIA compilaram “listas da morte” para a orgia de matanças do general Suharto durante a sua captura do poder. Após a invasão de 2003, era só uma questão de tempo antes de que esta venerável “política” fosse aplicada ao Iraque.

De acordo com o escritor e investigador Max Fuller (National Review Online), o administrador chave da CIA dos esquadrões da morte do Ministério do Interior «iniciou-se no Vietname antes de ser transferido para dirigir a missão militar americana em El Salvador». O professor Grandin nomeia outro veterano da América Central cuja tarefa agora é «treinar uma brutal força contra-insurgente constituída por bandidos ex¬ baathistas». Um outro, afirma Fuller, é bem conhecido pela sua «produção de listas da morte». Uma milícia secreta administrada pelos americanos é a Facilities Protection Service, que tem sido responsável por bombardeamentos. «As Forças Especiais britânicas e americanas», conclui Fuller, «em conjunto com os serviços de inteligência [criados pelos EUA] no Ministério da Defesa iraquiano, estão a fabricar bombardeamentos insurgentes sobre xiitas».

Em 16 de Março, a Reuters relatou a prisão de um “contratista de segurança” americano, que foi encontrado com armas e explosivos no seu carro. No ano passado, dois britânicos disfarçados de árabes foram capturados com um carro cheio de armas e explosivos; as forças britânicas derrubaram a prisão de Bassorá com bulldozers a fim de resgatá-los. O Boston Globe relatou recentemente: «A unidade de contra¬ terrorismo do FBI lançou uma vasta investigação de roubos em série com base nos EUA depois de descobrir que alguns dos veículos utilizados em bombardeamentos fatais com carros no Iraque, incluindo ataques que mataram tropas americanas e civis iraquianos, foram provavelmente roubados nos Estados Unidos, segundo responsáveis superiores do governo».

Como disse, tudo isto foi tentado anteriormente — assim como a preparação do público americano para um ataque atroz ao Irão é semelhante às falsificações das ADM no Iraque. Se tal ataque ocorrer, não haverá advertência, nem declaração de guerra, nem verdade. Aprisionados no elevador do Hilton, mirando a CNN, os meus colegas passageiros poderiam ser desculpados por não entenderem o Médio Oriente, ou a América Latina, ou qualquer outro lugar. Eles estão isolados. Nada é explicado. O Congresso está silencioso. Os Democratas estão moribundos. E os media mais livres da terra insultam o público todos os dias. Como disse Voltaire: «Aqueles que podem fazê¬ lo acreditar em absurdos podem fazê-lo cometer atrocidades».

sábado, setembro 15, 2007 1:41:00 da tarde  

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