segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O DIABO DA DEMOCRACIA

Os encantos do mundo "desencantado" da democracia e da modernidade perderam muita da sua frescura: são como os de uma velha cocotte cuja decadência nem pinturas nem cirurgias conseguem disfarçar. Vivemos "tempos difíceis para a democracia", escreve o historiador Niall Ferguson, embora sem perder o optimismo democrático (Ferguson é o autor de A Guerra do Mundo, Civilização, 2007). Don't panic - diz ele, nesse recente artigo sobre o "inverno da liberdade" - the democratic tortoise can still win in the long run.
Tem havido reflexões muito sérias e muito profundas sobre a "crise" da democracia como as de Fareed Zakaria sobre a "democracia iliberal" - ou as de Marcel Gauchet, autor de La Démocratie contre elle même, para só falar dos tempos mais recentes e de autores "integrados". Mas o que é mais notável é que são cada vez mais os democratas que não encontram palavras suficientemente fortes para classificar certas situações e certas "derivas" dos regimes democráticos, mesmo os aparentemente mais sólidos. Faz cinco anos Luciano Canfora falava da "impostura democrática" - há dias Regis Debray espraiou-se em cento e tal páginas sobre vários aspectos da "obscenidade democrática". De caminho, tivémos a "ilusão democrática" glosada em vários tons por outros ensaistas europeus, "a ilusão populista", os vários "défices democráticos", etc., etc., incluindo dois recentes ensaios anglo-saxónicos, The Myth of the Rational Voter, Why Democracies Choose Bad Policies, de Bryan Caplan, e The Rise of the Unelected: Democracy and the New Separation of Power, de Frank Vibert, comentados por Samuel Brittan, há uns meses, sob o título "The devil in Democracy - Majorities and Pluralities Can Often Be Misleading" (Financial Times Magazine, Julho 2007).
Deixo aqui para futuras discussões uma declaração de voto de C.S.Lewis (citado por Eugene Genovese): "Sou democrata porque acredito na Queda do Homem. Acho que a maior parte das pessoas são democratas pela razão oposta. Uma boa porção do entusiasmo democrático provém das ideias de gente como Rousseau que acreditava na democracia porque pensava que a humanidade é tão boa e tão sábia que toda a gente merece participar no governo. A verdadeira razão para a democracia é exactamente a contrária. A humanidade é tão pecadora que não se pode confiar a nenhum homem um poder ilimitado sobre os outros. Aristóteles dizia que havia homens que não serviam senão para ser escravos. Não digo o contrário. Mas rejeito a escravatura porque não vejo homens dignos de ser senhores."

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