quinta-feira, fevereiro 07, 2008

PORTUGAL CONTEMPORÂNEO

"O meu livro, disseram [os críticos jacobinos ou liberais], é um quadro pitoresco, mas falta-lhe o princípio orgânico, a 'linha lógica', porque eu não a soube ou não quis ver na tradição revolucionária de 20, esse movimento 'em que pela primeira vez se revelou a classe média de advogados, jurisconsultos e coronéis.' - ' Pinta com cores verdadeiras, prossegue o meu crítico (T. Braga), esta dissolução do regime monárquico parlamentar, mas é injusto lançando à conta do organismo da Nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos'. (...) Se pretendi mostrar por quanto entrava nas misérias da nossa História contemporânea a fraqueza dos caracteres, a apatia ou loucura das populações, o desvairamento dos chefes: patenteei, parece-me, quanto esses males sociais provinham, não só dos legados da História, como da influência deprimente e desorganizadora das teorias do naturalismo individualista, herdado da filosofia do séc. XVIII e popularizado pela Revolução Francesa. Sob o nome indefinível de liberalismo, essas doutrinas, nos seus aspectos sucessivos, vieram terminar afinal no materialismo prático, fazendo dos 'melhoramentos materiais' o pensamento exclusivo do povo, e do Governo uma agência de caminhos de ferro. Como se nós valêssemos absolutamente mais por andarmos em doze horas em vez de trinta ou trinta e seis, a distância de Lisboa ao Porto!
Mas o que ofendeu sobretudo liberais e jacobinos foi o tom pessimista - ao que dizem - da obra. Eu tinha-a por justiceira apenas, e até às vezes caridosa. 'Fica-se com a cara a uma banda'. Pois fique-se. Concordo que a atitude é desagradável, mas, na minha missão de crítico, não posso alterar a significação dos factos, sem poder também acreditar que tamanhos males venham apenas da circunstância de haver sobre um estrado de alguns degraus um homem de manto e coroa com as mãos atadas pelos políticos de espadim e farda. Eles governarão o rei, mas quem os escolhe a eles é o povo; se são maus, por que os prefere? Não. A culpa é portanto nossa, de todos nós, que não valemos grande coisa - fique-se embora com a cara a uma banda!"

Oliveira Martins, "Explicações" na segunda edição de Portugal Contemporâneo, 1883.

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