sábado, dezembro 16, 2006

Aborto: os grandes argumentos do Sim

"Às dez semanas, diz o primeiro outdoor da campanha do Não, bate um coração. A mensagem é esta: o embrião está vivo. O simples facto de alguém achar que este outdoor apresenta um bom argumento para convencer indecisos é preocupante. Primeiro, porque grande parte dos animais vivos tem um coração que bate - o que não faz ninguém reconhecê-los como pessoas (e os cavalos também se abatem, claro). Depois porque se o embrião não estivesse vivo não se poderia falar em interrupção voluntária da gravidez (q.e. d.: ficamos arrasados com esta evidência)." (O texto é de Fernanda Câncio, em DN, 15/12/2006; itálicos meus)

3 Comentários:

Blogger Pedro Morgado disse...

Votarei SIM.
Mas confesso que este tipo de argumento por parte dos apoiantes do sim me causa náuseas.

sábado, dezembro 16, 2006 5:17:00 da tarde  
Blogger Pedro Botelho disse...

O simétrico do argumento, é claro, é aquele que diz que embora um coração humano não seja um coração de cavalo, um grupo de células ainda sem sistema nervoso, ainda agarrado à parede da caverna platónica orgânica, ou a flutuar no grande mar oceano amniótico, ou lá o que for -- enfim, digamos ainda perdido no limbo das alminhas sem neurónios que, segundo o NÃO, se não se materializarem aqui e agora, não se poderão materializar depois e alhures -- é igualzinho a um burocrata de chapéu de coco ou a uma dona de casa divorciada, para já nem falar num daqueles soldados condecorados pelo etos nacionalista por matar muitas vidas já com bilhetes de identidade.

É um perigoso argumento que com um pequeníssimo piparote pr'á frente torna qualquer rapazote, ávido de sexo mas cheio de borbulhas, um potencial genocida (um pobre espermatozóide também vive e também transporta «potentia»), mas salva ao menos as rapariguitas. Ou pelo menos as que não oferecerem resistência a nenhuma potencialidade...

O problema é que é muito difícil traçar a zona de sombra, a tal do Aristóteles e do Eliot, a que separa o que pode ser e o que não pode deixar de ser, entre a ideia e a realidade, entre o movimento e o acto. A escolha de fronteiras é muito mais arbitrária do que parece à primeira vista. Parece-me boa a seguinte receita: tem sistema nervoso central humano e pode sentir? É gente (aí pelas oito semanas, segundo julgo). Não tem? Não é.

Tão arbitrário como qualquer outra arbitrariedade, mas com a grande vantagem de apresentar bom-senso e sensibilidade aos muitos tipos possíveis de sofrimento.

domingo, dezembro 17, 2006 11:10:00 da manhã  
Blogger Pedro Botelho disse...

Mas é claro que o assunto real (i.e. aquele que atinje cada uma e cada um neste planeta concreto, e não na esfera platónica) é muito mais complexo do que parece em todas as versões caricaturais. Aqui fica uma referência intrigante, na pespectiva que mais decisiva me parece, mesmo depois desta entrada do blogue ter dobrado a esquina da visibilidade e estar a desaparecer -- como todos nós, mais dia, menos dia -- na noite dos tempos:
http://www.parliament.uk/post/pn094.pdf

Pelo «sim», pelo «não», a minha cruzinha iria para o «não sei».

terça-feira, janeiro 16, 2007 1:58:00 da manhã  

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