terça-feira, janeiro 02, 2007

O Mundo em 2007

por Jaime Nogueira Pinto

Tenho algum cepticismo em relação aos "futuríveis genéricos", ao lembrar-me das análises, prospecções e previsões deste tipo, a partir do momento em que Herman Kahn e o Hudson Institute as tornaram in e que toda a gente, nos governos e nas empresas, começou a produzi-las. E que tais previsões, até 1989, davam a União Soviética como um todo, uno e indivisível, per omnia saecula...

Os "cenários" para 2007

Num documento do NSC* (National Security Council) que é o orgão consultivo e analítico que elabora as "recomendações" para o Presidente dos Estados Unidos tomar decisões e traçar estratégias, vêm apresentados vários cenários para 2020, num leque optimista-pessimista, para a evolução mundial nos próximos anos.

Os "cenários" elencados no relatório são, entenda-se, cenários fictícios: vão desde "O mundo segundo Davos", um melhor dos mundos, com alguma coisa de "o melhor dos mundos" de Huxley, isto é da utopia mercantilista e hedonista. Baseia-se no crescimento económico permanente e equilibrado, com a Ásia como motor e os Estados Unidos como garante "armado". Além dos asiáticos - China, Índia, Japão, outras economias "emergentes", como o Brasil, a Rússia, a Indonésia e a África do Sul, seguem-lhe os passos. A Economia comanda, as potências "envelhecem" em paz, a democracia espalha-se e os grandes medos estão excluídos. É a continuação dos anos 90 do século passado.

Segue-se o cenário Pax Americana, que é uma continuação do mundo da Guerra Fria no Ocidente: os Estados Unidos suportam os custos da segurança do sistema, comandam politicamente através da NATO e de outros pactos regionais securitários; os aliados seguem e prosperam à sombra do guarda-chuva militar e da força projectada pelos carriers; e há um entendimento tácito com a China, já que os chineses vendem para os EUA, mas compram dólares e securities norte-americanos. A "democratização" foi gradualmente congelada, onde dava lugar à instabilidade política, pois os dirigentes dos EUA percebem que têm de pôr a ideologia no bolso, se não querem repetir a experiência do Iraque. Isto facilita as relações com dirigentes russos, médio-orientais e africanos.

O cenário seguinte, Califado, supõe a formação de um Estado "fundamentalista" na área islâmica, com tudo o que isso significa, ao mesmo tempo que se regista o fortalecimento das identidades religiosas e étnicas, se "hiperpolitizam" os recursos energéticos e se regista a subida das despesas militares e securitárias.

O ciclo de medo é um cenário mais caótico - um mundo de fragmentação étnico-religiosa dos Estados, de guerras civis, de aumento do poder dos actores não governamentais especialmente terroristas e crime organizado. É claro que a luta contra estas forças do "mal" não é possível sem a renúncia a vários projectos grandiosos, como a "democratização global", já muito periclitante nos anteriores. Nos próprios Estados democráticos haverá um forte peso dos factores securitários.

É o "Caos" uma hobbesiana "guerra de todos contra todos", num quadro de fragmentação dos territórios, da mundialização intermitente, de "crises" energéticas e sanitárias, de enorme insegurança interna e internacional, que lembra as "utopias negativas" da literatura e do cinema de science-fiction e fantástico.

2007: viver ou morrer com o Islão

Passemos à proximidade, a 2007: penso que o fim de 2006 marca a viragem na política norte-americana. Os acontecimentos dos últimos meses - a guerra Israel-Hezbollah, a deterioração geral da segurança no Médio Oriente, a entrada do Iraque numa guerra civil de média intensidade, entre facções diversas, a crescente hegemonia e ousadia do Irão, mais os resultados eleitorais de 7 de Novembro vão levar a Administração Bush a acelerar uma mudança que já estava a desenhar-se: e que só pode significar o downgrading discreto, da "Doutrina Bush" e do seu programa de democratização do Médio Oriente, preço de uma "saída" menos trágica do Iraque, e de evitar futuros "Iraques".

Se as coisas correrem mal o inimigo vai ser o "Islão" radicalizado que moverá uma campanha terrorista na Europa e nos EUA; se correrem bem ou razoavelmente, a situação securitária estabiliza-se e vai prosseguir a competição "económica", duríssima, mas sem mortos, com a China.

Vejamos cada um destes cenários. Mas antes explico onde estou: não creio, à partida, que haja uma oposição ou confrontação inevitáveis, entre o mundo ocidental, euroamericano, cristão, e o mundo médio-oriental, árabe, islâmico, maghrebino. Há uma oposição elementar - filosófica, metapolítica, cultural - entre o liberalismo, o relativismo e o laicismo radicais do Ocidente e o fundamentalismo também absoluto e politizado, do mundo islâmico. Quando os "fundamentalistas democráticos" do Ocidente querem secularizar e democratizar o mundo islâmico, à força, como os soviéticos quiseram levar o comunismo para o Afeganistão, também à força, há um quarto de século, aí há um "choque de civilizações". E vice-versa. Mas hoje não há "choque de religiões" inevitável.

É no seio do mundo islâmico que se vai dar o grande combate, ou os vários combates: entre as correntes do shiismo e do sunismo; entre radicais "religiosos", conservadores autoritários e revolucionários progressistas, se bem que estes últimos tenham perdido terrenos e as classes baixas, a "rua", tenda hoje para a obediência aos "radicais" religiosos.

Esta é a primeira grande ameaça e depende tanto de nós, como deles. Quero dizer, que se a política norte-americana abandonar o "imperialismo ideológico" e optar pela "hegemonia realista" - os grandes "impérios", no sentido de espaços de ordem jurídica económica, garantidos pelo poder militar arbitral que não podem, por definição, ser ideológicos, é possível pelo menos a coexistência pacífica como com os soviéticos.

Se o realismo e a racionalidade do interesse nacional voltarem a Washington, se os europeus deixarem de ter tanto medo e gastarem alguma coisa com a defesa e, sobretudo, pararem de se comportar como uma ONG e fizerem "política" nas áreas que ajudam economicamente, as coisas talvez se possam equilibrar, e deixemos de ter o nosso futuro à mercê de barbudos de turbante em cavernas do Afeganistão, ou de adolescentes "iluminados" em apartamentos do Londonquistão.

China - Parceiro e Rival

A China é o grande fenómeno de "salto em frente" nos últimos 30 anos, desde que Mao morreu e Deng Chiau Ping trouxe os incentivos do capitalismo - à partida um capitalismo de Estado, dirigista, autoritário - que foi alargando gradualmente. Partilho a opinião de A. James Gregor que a China do século XX, através do nacionalismo do Kuomintang, do nacional-comunismo maoísta e do dirigismo capitalista de Deng, tirando os anos paranóicos do "grande salto em frente" e da "Revolução Cultural", foi mais um nacionalismo autoritário e "fascistizante", que marxista. E, com as reformas de Deng, transformou-se num modelo próximo dos autoritarismos europeus ou sul-americanos, dos anos 30 (fascismo italiano e nacional-socialismo alemão) e dos modelos desenvolventistas autoritários - franquismo, regimes militares brasileiro e chileno dos anos 60 e 70.

A prioridade do regime chinês é o fortalecimento do poder nacional; por isso, pragmaticamente, dadas as vantagens comparativas do capitalismo para a produção de riqueza, os dirigentes chineses optaram por essa via, mantendo um discurso de justificação, que não chocasse com os textos fundacionais.

As prioridades da China são claras, mas a direcção político-militar tem procurado harmonizá-las, o que às vezes é um problema. O grande objectivo é garantir o controle do sistema político-económico mas com crescimento económico e prosseguir como grande objectivo nacional o regresso de Taiwan à unidade chinesa.

Para manter a economia a funcionar, os chineses asseguraram, nos países produtores de energia, sobretudo em África, concessões, reservas, mercados. "Petróleo e gás" é a sua prioridade, mas outros minérios e fontes de energia estão, também, na agenda.

A diplomacia chinesa actua com "mãos livres", em relação a preocupações de "democratização", "direitos humanos", ou "transparência" financeira dos seus parceiros. Embora com a consciência das regras do jogo, os chineses definiram uma linha de "não ingerência" e têm-na cumprido. O que os torna parceiros cómodos nessas regiões. O mesmo se diga em relação ao Médio Oriente, especialmente ao Irão. Mas a China tem mantido uma boa ligação financeira e comercial com os EUA, assente no entrosamento das economias, que desencoraja grandes agressões de parte a parte; os mercados compradores norte-americanos são essenciais para a máquina industrial chinesa continuar a fabricar e vender; parte das "mais valias" chinesas são investidas em dólares, em valores norte-americanos. O Secretário do Tesouro Paulson, um "sinólogo" e "sinófilo", oriundo da bussiness community, explicou isso, em Pequim, recentemente.

A China não será, por ora, uma força destabilizadora: como grande poder emergente e poder continental asiático convém-lhe o bom entendimento com a superpotência mundial e o equilíbrio instável das potências regionais - Japão, Índia, Paquistão, Indonésia. Só uma crise político-militar com Taiwan mudaria as coisas.

A Rússia

A Rússia está a voltar progressivamente ao seu estatuto de potência, graças aos recursos energéticos em petróleo e gás natural e a um poder militar, incluindo o nuclear, que nunca deixou de ter. Concentra-se na energia como área de influência natural e está activa, numa relação de geometria variável, com os Estados Unidos; ora de aliança - guerra ao macroterrorismo - ora de contenção - Irão. Internamente, a petro-economia contribui para o reforço de um modelo nacional-autoritário, sob o mando de Vladimir Putin.

A sua geopolítica assenta num regresso ao estatuto de "grande poder" na Euroásia; para isso segue uma política "não-ideológica", com uma geometria variável de amigos e inimigos: da China vai-se aproximar como fornecedor de energia e como aliados objectivos face à hegemonia norte-americana; tem fronteiras com a Europa de Leste, da Ucrânia à Polónia; e com a Turquia. E pode ser uma "ponte" com o Irão - sem quebrar com os Estados Unidos.

A União Europeia

A Europa não é um Estado e os seus Estados não têm significativo poder militar, com excepção da França, da Alemanha e do Reino Unido, que está no limite de sobre extensão "imperial" com o Iraque e o Afeganistão. A União Europeia tem um poder económico significativo, mas como não é um Estado, tem que ser consensual na sua política externa, o que prejudica o tempo e significado da sua acção. É energeticamente muito dependente da Rússia, do Maghreb e do Médio Oriente. E militarmente dos Estados Unidos.

Continuará o debate entre os "europeístas" fundamentalistas e os identitários, essencialmente entre os partidários da integração política total - criação de um Estado europeu - e os que querem o status quo, um espaço económico-financeiro de nações politicamente independentes. O reforço deste campo foi grande, nos últimos anos e os problemas da imigração maghrebina e africana, continuarão a estimular os partidos identitários.

O Médio Oriente

No Médio Oriente, o factor ideológico-religioso da politização do "islamismo" cria problemas especialmente para a Arábia Saudita, Egipto, Jordânia e Turquia. E o caos iraquiano mantém um clima de tensão e instabilidade.

O Irão, graças à neutralização do Iraque que o equilibrava, está numa linha ascensional de hegemonia, o que preocupa além dos EUA os Estados sunitas - os Sauditas e os Emiratos.

A internacional clandestina armada conhecida por Al'Qaeda é uma galáxia de articulação estelar, por "franchise", mas com uma certa coordenação. Se durar e se tornar "política", isto é, se racionalizar os seus comportamentos, por um lado, haverá uma provável atenuação dos riscos de um macroatentado, nos EUA e na Europa; por outro, aumentarão as suas "chances" políticas no próprio mundo islâmico, sobretudo se vier a fazer a ponte com os movimentos integristas de base popular, no Médio Oriente e Maghreb.

O Maghreb é uma área essencial para a Europa - quer como risco, um surto de poder fundamentalista, quer como oportunidade, em áreas com recursos - a Argélia, por exemplo, com o seu potencial energético e quase tudo por fazer. E mantém-se o problema da emigração para Norte, se o Norte não tiver uma política séria e coordenada de investir e desenvolver a margem sul do Mediterrâneo.

Na África subsahariana persistirão os problemas gerados pelo deficit de estatalidade; as petroeconomias - Nigéria, Angola, Guiné Equatorial, Gabão - manterão um desenvolvimento polarizado geográfica e socialmente (capitais, cidades litorais, novas burguesias e grupo médio-alto profissional) mas persistirão os problemas de divisão religiosa ou etnocêntrica noutras áreas - Sudão, RDC, Grandes Lagos. Curiosamente, os Estados lusófonos, por terem tido uma estatalidade difícil - guerras de independência e guerras civis - e por terem construído uma consciência da unidade nacional a partir da unidade política, poderão ser uma excepção à instabilidade.

* Alexandre Addler, (Apresentação) O Relatório da CIA - Como será o mundo em 2020?, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2006.

(Publicado no Diário Económico em 18 de Dezembro de2006)

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