quarta-feira, março 28, 2007

GRANDES PORTUGUESES - 3: A MINHA VIAGEM NOS "G.P." - DOIS OBJECTIVOS

Bem, isto – "OS GP" – foi um concurso e nada mais que um concurso. Convidaram-me para defender Salazar e eu aceitei.

Aceitei não por saudosismo, não por devoção histórica, nem sequer por qualquer sentimento de anti-esquerdismo.

Aceitei porque pensei ser um interessante ponto de partida para, à volta deste tema, conseguir dois objectivos:

Dar o outro lado de 50 anos de História de Portugal 1926-1974, que, embora a nível académico já vão tendo tratamento sério (é curiosa, entretanto, a atitude de alguns académicos de esquerda – v.g. Fernando Rosas, Costa Pinto, etc), que nos seus trabalho e estudos universitários têm uma certa distância e isenção sobre o período, mas, nestes casos, ficam iguais aos "antifascistas" primários.

Explicar que Salazar foi mais que a "Restauração das Finanças e a PIDE". E que pensou o Estado, em Portugal, que pensou e articulou um processo de consolidação de uma maioria nacional. E também para atacar o mal mais grave da direita portuguesa: que o facto de Salazar ter defendido – de modo autoritário e não democrático certos valores – religiosos, nacionais, sociais, económicos, como Deus, a Pátria, a Família, a Propriedade – não exclui nem deve excluir esses valores, sobretudo a Nação, da agenda política.

Foi esse o meu objectivo, traduzido num documentário, que já vi atacado em abstracto, ou com chalaças sardónicas – o estilo de uma certa "esquerda" (não toda...), quando quer ter graça.
Não vi ainda argumentos no sentido de dizer – este facto está errado, esta interpretação vai contra os factos...

N.B. A propósito: na questão dos refugiados em Portugal na Segunda Guerra Mundial, falei num "milhão", no meu programa. Foi, quero aqui dizê-lo um lapso que derivou da "leitura", por mim, na locução final do programa. O meu guião tinha inicialmente mais de meio milhão.
Posteriormente procurei aprofundar a questão; outro dia na final, voltei a referir um milhão. O número tinha algum sentido, pois em 1940-41, havia registados oficialmente na área de Lisboa, 400.000.
E é natural que houvesse mais noutras localidades e que houvesse alguns por registar. Mas, sendo um detalhe, quero deixar aqui os 600.000 que me parecem mais próximos da verdade.

4 Comentários:

Blogger Sérgio Alves disse...

Silêncio

quarta-feira, março 28, 2007 10:39:00 da tarde  
Blogger Vítor Luís disse...

Jaime:

Quero aproveitar para saudar a tua intervenção oportuna, depois de aceitar uma causa que muito poucos poderiam defender com a competência e o equilíbrio com que a defendeste. Foste eficaz, em nome da verdade histórica, que nesta época ainda é, e cada vez mais, revolucionária. Como se vê. Se a tua defesa foi realizada segundo a “arte do possível” parece-me que o Destino se sentiu desafiado e usou os homens, as circunstâncias e a Televisão, para fazer acontecer o impossível.

É admissível tentar compreender com alguma tolerância e explicar aos mais surpreendidos as reacções dos "intelectuais d'esquêrda" subitamente transfigurados em "aparatchiques" zelotas, "antifascistas primários", militantes básicos naturalmente inimigos do contraditório, numa espécie de metamorfose regressiva. Não sei é se vale a pena.

Também alguns 'progressistas independentes', mais moderados, reagiram de forma não menos 'rigorosa' perante as consequências dramáticas da "má" votação, inesperadamente contrária aos dados do seu relativo conhecimento. Se a manipulação ideológica e o reduccionismo metodológico que medram pela Universidade não fossem irmãos da mediocridade, da ignorância e do oportunismo que dominam o Portugal contemporâneo, poderíamos estranhar. Verem assim triunfar esmagadoramente pelo voto livre, inteiramente voluntário, aquele que tornaram o símbolo do 'Mal Absoluto Político' no Século XX português - há décadas permanentemente denunciado, condenado e moralmente 'executado', não só pela 'classe política - da direita neoliberal à extrema esquerda - como pela 'inteligência' e pela Comunicação social, num até agora "indiscutível" consenso alargado sobre o “obvio”, é mesmo demais !... Então a "Verdade do Mundo" não alimentou sempre essas cabeças?

De reter, pelo espectáculo que foi, a repulsiva insolência com que a megera estalinista invocou a Constituição e brandiu pateticamente um látego imaginário de ameaças, pragas e proibições. Esse «take» -que ficará para a (pequena) História - foi o necessário fogo de artifício que, digamos, “alindou” o desfecho...De um “Concurso e nada mais que um concurso”? Não creio.

«Magnânimo», foi o teu gesto de desdramatização. Mas Vicente Jorge Silva, que bem qualificou o gesto no DN de ontem, aí continuou agarrado ao “Nacionalismo ruralista e reaccionário”de Salazar, apesar do teu esforço pedagógico ao estabelecer, logo desde o início, os parâmetros da Grande Política e de um serviço coerente da Razão de Estado na Política externa de Salazar. Podias até recomendar como «texto de apoio» aquele livrinho “Portugal sem Salazar”(*), escrito por Mário Mesquita, para explicar à esquerda que, ao contrário: “provinciano manhoso” era precisamente o que Salazar não era...

A verdade é que as consequências do «simples concurso» ultrapassaram de longe os objectivos pedagógicos que fixaste - e que cumpriste perfeitamente, na minha opinião. Todavia, hoje não é impunemente que se suscita um ‘duelo eleitoral’ entre Cunhal e Salazar e a ‘polarização’ do “voto militante” era inevitável. Os tempos são outros. Houve até quem considerasse a presença de Cunhal um insulto para a memória dos grandes portugueses, como consagrado funcionário comunista do Komintern e agente objectivo que foi do aparelho e dos interesses soviéticos, em Portugal e na esfera internacional, segundo arquivos abertos em Moscovo. Talvez nos “Grandes Comunistas” a sua vitória fosse pacífica. Entre os portugueses nunca. Aceitei e defendi essa fronteira como uma homenagem histórica ao último grande Chanceler de Portugal. Razões pessoais e interiores que aliás, suponho que não serão muito diferentes das tuas.
Por outro lado, creio que o saudosismo não relevou para a maioria – Foi um acto consciente de dissidência. Não uma manifestação voluntarista de ‘acção’. Por falar nisso, nem sequer estou na ‘acção política’.

No blog do ‘Futuro Presente’ devo ainda referir o zeitgeist – o “espírito do tempo” – que naturalmente te condicionou; ele é pouco compatível com uma revisão histórica isenta e ‘objectiva’ de um passado ainda tão recente. Mas foste realista. As supostas “concessões” que terias feito não as considero concessões – são descrições aceitáveis do sistema repressivo de um regime não democrático, como muito bem disseste. Acontece que muitos ‘salazaristas’ não assumem a existência dessa ‘natureza má», não democrática, do Regime, o “Lado Negro da Força”, tão difícil de controlar. Talvez tenha sido por isso que muitos não fossem mesmo antidemocráticos o bastante para perceber a lógica do Poder em regime autoritário... Equívocos perigosos. Há até quem queira fazer um “salazarismo democrático”. Paciência. As coisas são o que são e esse é ‘outro concurso’.

Entretanto, “et pour cause”, a Assembleia da República prepara-se para convocar a Direcção da RTP... No mínimo vai ser acusada de “crimideia”. Por isso, creio que vale a pena fazer a análise política do ‘Dia Seguinte’. Se te recordas ainda de uma conferência-debate em 1989, na Biblioteca Nacional, «Salazar - Memória e Revisão», que ainda à entrada já qualificavas como momento relevante da reabilitação histórica e da reposição da verdade sobre Salazar, atrevo-me a crer que não se justifica, sem outros motivos, ser tão ‘discreto’ sobre as consequências deste «simples concurso»...

VL

(*) MESQUITA, Mário - Portugal sem Salazar. Lisboa: Assírio & Alvim, 1973.

quinta-feira, março 29, 2007 4:52:00 da manhã  
Blogger jaime nogueira pinto disse...

Caro Víctor Luís,como sabes bem,sou a última pessoa da terra a ficar eufórico com sucessos,como também me perturbam pouco as calamidades.E neste caso particular,fiz as coisas sòzinho,ou melhor com uma excelente equipa de profissionais,desde o Manuel Amaral no texto e pesquisa ao Bruno Gonçalves ,realizador ,que não são propriamente "salazaristas".Isto pra concluir que estou muito bem como estou,e que a "exploração do sucesso"por alguns "fascistóides"-os fascistas,os verdadeiros,eram outra
coisa-incomoda-me tanto como esta algarviada dos "antifascistas"incomodados.Quando quizeres ,depois da Páscoa,vamos tomar um café efalar destas coisas.Até porque continuo lentíssimo a escrever no teclado para ter debates na blogosfera.Abc.Jaime.

sábado, março 31, 2007 10:01:00 da manhã  
Blogger Vítor Luís disse...

Jaime: não poderias estar melhor. Eu devia ter acentuado que uma análise política do «Dia seguinte» só se justifica se feita com realismo e independência efectivas perante a 'euforia' ou o 'choque' das facções. Foi apenas uma sugestão séria, apesar do risco de parecer 'ser juíz em causa própria'. Mas não é o que fazem quase todos? O que se vê na Comunicação Social é sempre mais ou menos parcial, mais ou menos ignorante. No fundo, acredito que o 'verdadeiro pluralista' está em ti - como só um pluralista o sabe reconhecer...
Creio ser uma referência de Civilização defender a verdade histórica, e aqui esse é o único 'sucesso' que me importa. Ela apenas se pode transformar numa 'questão política fracturante' quando o erro, a mentira e a manipulação dominam as consciências através da sua eficiente e persistente interacção desfiguradora. Passou demasiado tempo sem que ninguém deitasse areia nessa engrenagem.
Tenho muito gosto em aceitar o teu estimulante convite.
VL

sábado, março 31, 2007 8:41:00 da tarde  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial