quinta-feira, novembro 30, 2006

Sobre o 25 de Novembro: 1.O Thermidor francês

Os conjurados contra Robespierre em 9 de Thermidor


O 25 de Novembro foi o Thermidor da última revolução portuguesa. Escrevemos isso na época, trabalhamos e glosamos este conceito, muitas vezes em artigos jornalísticos e trabalhos académicos. Os leitores familiarizados com a História Política moderna conhecem, concerteza, a teoria do ciclo revolucionário, de Crane Brinton, que partiu de uma analogia do processo da Revolução Francesa, para interpretar as modernas revoluções europeias e americanas; esta analogia considera quatro momentos "dialécticos", num processo revolucionário:

Ancien Régime
Tempo dos Moderados
Terror
Thermidor

Em França, o Ancien Régime caiu no 14 de Julho de 1789, com a Bastilha; seguiu-se "o tempo dos moderados", um tempo de "liberalização" e "constitucionalização" das instituições da Monarquia Francesa, com um núcleo de moderados do Ancien Régime - parte da aristocracia do alto clero e a Coroa - a tentarem, com a aliança dos revolucionários "moderados" - os Girondinos - consolidar uma monarquia "limitada" à inglesa, que fora o grande sonho de Montesquieu e da ala direita dos "liberais" ilustrados.

No Verão de 1792, em Agosto, as coisas complicaram-se com o ataque às Tulherias e o massacre dos guardas suiços, os únicos que defenderam a Família Real (e é por isso que estes "mercenários" suiços são bastante mais fiáveis que os locais). E o "povo unido" parisiense continuou a fazer das suas - os massacres de Setembro, encorajados pelo sinistro Marat. Este "povo unido" de Paris era uma pequena percentagem da população da cidade, 5000 a 10000 pessoas, mas que iam a todas.

Em 1793, que Victor Hugo imortalizaria num romance que empolgou a minha infância - Quatrevingt treize - em Janeiro, os Jacobinos cortaram a cabeça a Luís XVI e iniciaram oficialmente o Terror, com aquelas manifestações rituais que conhecemos; ao mesmo tempo, a "contra-revolução" e a guerra exterior, justificavam estas medidas de excepção.

Os processos de terror de "esquerda" têm sempre uma curiosa marca que os torna mais odiosos: é justificarem-se, permanentemente, pela "virtude", pelo "bem", pelo "mundo melhor". Líderes cínicos ou pelo menos tão maquiavélicos como todos - soltam os seus cães, polícia política, "milícias", povo, camponeses - aterrorizam, prendem, massacram, sempre com um discurso "justificativo".

O "terror" das "direitas" - que também não falta - não tem este lado "ideológico-religioso"; desde os tempos da inquisição, cujos oficiais tratavam mal os corpos para salvar as almas. E os Inquisidores tinham a atenuante de acreditar que era mesmo assim... Modernamente dão-se razões de "bem público", mas não se faz em grandes apologias. Há pelo menos pudor.

Mas voltemos ao Terror na França revolucionária. A guilhotina trabalhou activamente, em Paris e em todo o país, matando muitos milhares de contra-revolucionários; em Lyon, optaram os Jacobinos por fuzilamentos, enquanto em Nantes, um republicano poupado - Carrier - com preocupações de "austeridade" financeira, afogava os realistas que metia numas barcas no Loire. Na Vendeia foi mais complicado pois os realistas e católicos eram camponeses chefiados pelos nobres e padres locais. A República Humanitária inventou ali, o genocídio, com as colunas do General Torreau.

Quando o Terror de Robespierre e dos Jacobinos, depois dos Reis, dos Aristocratas, do Clero, dos Girondinos, passou às próprias fileiras dos "terroristas", estes, acossados pelo medo, surgiu a reacção. E foi Thermidor, resultante de uma associação de todos frente a Robespierre. Este cometeu alguns erros tácticos, juntou os inimigos e dividiu os amigos, e perdeu a partida. Os thermidorianos, que eram do métier e seus correligionários da véspera, não esperaram e guilhotinaram-no e aos seus seguidores principais, acto contínuo.

Depois desta acções expeditivas, os thermidorianos, quase todos ex-Jacobinos, acharam por bem pôr fim ao Terror e reequilibrar o sistema, num compromisso entre o antigo regime e os objectivos revolucionários. Actuaram essencialmente em causa própria e para salvar a pele (e as fortunas entretanto amealhadas), mas perceberam que a revolução permanente levava (podia levar...) à vitória da Contra-Revolução. E pararam a tempo. Seguiram-se animadas experiências governativas - como o Directório e o Consulado - até que Bonaparte passou a Primeiro Consul e repetiu o modelo cesarista de Roma, com a força das armas, fazendo a tal síntese entre o passado e o futuro.

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