domingo, dezembro 17, 2006

Nostalgias 27: "Guerra d´'Espanha", ou antes do "desencanto do mundo".

E porque os ânimos estão agressivos, no terreno deste"país" estranho e estrangeiro que é o "passado", e para nós, aborrecidos, irritados ou resignados ao "desencanto do mundo" e à morte da política, sugiro estas "memórias" da última guerra romântica e de dois dos seus heróis em bandos opostos - José António e Durruti.


8 Comentários:

Blogger O Jansenista disse...

Romântica? As vítimas civis talvez não achassem, nem acham as suas famílias nem os sobreviventes. Talvez pudéssemos banir essa ideia de guerra romântica, ou então recordar que o qualificativo «romântico» tem, desde as suas origens, também uma conotação satânica.
Cumprimentos!

domingo, dezembro 17, 2006 3:30:00 da tarde  
Blogger Je maintiendrai disse...

Melhor que os videos, a fórmula do diagnóstico do tempo d'hoje que os justifica.

segunda-feira, dezembro 18, 2006 12:03:00 da manhã  
Blogger Pedro Botelho disse...

Hmmm, curiosamente parece-me que o Jansenista (por uma vez) tem razão. E o anúncio da «morte da política» parece-me muito exagerado, como diria o Mark Twain (como diabo é que pode morrer a polis sem morrer a humanidade?). O que pode estar a morrer não me parece que seja a política: é o paradigma da guerra que sempre a acompanhou desde os tempos mais remotos. Daí talvez esse «desencanto do mundo» -- bem compreensível quando se relê a Ilíada ou a Canção dos Nibelungos, com todos os seus encantamentos -- e as continências um tanto exageradas a todos os azimutes pretéritos. Mas o desencanto pode ser o primeiro passo para a libertação e um ainda maior respeito pela verdade do passado, não lhe parece?

segunda-feira, dezembro 18, 2006 8:50:00 da manhã  
Blogger Pedro Proença disse...

Esta guerra foi romântica porque os homens que as fizeram foram guiados por um ideal de sociedade que consideravam superior à sua individualidade e pelo qual deram a vida. Os factos não podem ser banidos, agora claro, as consequências de qualquer guerra, seja ela romântica ou não, são sempre nefastas.

A guerra foi, é e será sempre um instrumento da política. Agora a Guerra do Peloponeso não foi igual à dos 30 anos nem esta à 1ª Guerra Mundial ou esta última à Guerra do Golfo. o paradigma de guerra muda com a evolução das sociedades e da técnica que lhe está intimamente ligada.

Quanto ao desencantamento do mundo. Talvez se possa aqui aplicar a distrinção entre Política como Governo (dominante nas nossas sociedades) e Política enquanto Organização ou Constituição do Poder que as pessoas detêm enquanto elementos que falam em agem em conjunto (obrigado Hannah Arendt). Onde é que está hoje a acção na esfera pública para além do governo e da relação governantes governados?

Quanto à verdade do passado...quem a detém?

segunda-feira, dezembro 18, 2006 12:10:00 da tarde  
Blogger Pedro Botelho disse...

Perguntou Pedro Proença: «Quanto à verdade do passado...quem a detém?»

Achei curioso que o autor desta entrada ilustrasse a «morte da política» com duas alusões a bandos em guerra, numa veia nostálgica, como se essa política é que tivesse sido a boa. Daí o meu comentário: por «verdade do passado» queria eu designar os impulsos instintivos que determinam, na esfera social, a Guerra organizada, e que devem ceder o passo a outras considerações de ordem racional e superior, se quisermos talvez chegar colectivamente a algum lado (não faço ideia aonde nem para quê: não sou bruxo, falo apenas do que me parece imediato ou não excessivamente afastado).

Claro que, por exemplo, o poema «Noites Prussianas» de Soljenitsine, onde ele relata o mortícinio e (na primeira pessoa, perante a púdica incredulidade do imbecil tradutor Robert Conquest) o seu próprio estupro de mulheres do inimigo derrotado, tem ainda um formato e um tom épico, como o da Ilíada. E frente a semelhantes alegrias primordias todas as construcções «politológicas», neo- ou paleo-maquiavélicas se esboroam como castelos de cartas, e a imagem da guerra romântica, essa então cede mesmo o passo a coisas muito mais fortes e verdadeiras. O poema data do imediato pós-guerra, mas por quanto tempo mais poderemos continuar a conciliar a verdade do passado com a verdade do futuro?

segunda-feira, dezembro 18, 2006 1:45:00 da tarde  
Blogger Pedro Proença disse...

Caro Botelho,

quanto a noites, para além da mencionada, temos entre as mais conhecidas as de São Batolomeu, a das Facas Longas e a De Cristal. Portanto...a noite nunca foi boa conselheira.

Depois, em nome da racionalidade já se cometeram os mais hediondos crimes (nem vou voltar a falar disso..), parece que nem sempre foi a melhor conselheira.

Quando fala de impulsos instintivos, fala de impulsos humanos, pelo que, para acabar com eles teria que acabar com o homem. Não será por acaso que em 2006 ainda há guerras.

cito alguém que de guerra sabe, porque a viveu: " Cada pessoa é um afluente da longa memória do mundo. Insubstituível como experiência e como testemunho. E ao mesmo tempo sinal da singular comunhão que a todos integra, para além do sofrimento e do ruído dos combates que tantas vezes nos dilaceram, na alegria e na tragédia da muito frágil condição humana"

Esta é a minha verdade

segunda-feira, dezembro 18, 2006 6:05:00 da tarde  
Blogger Pedro Botelho disse...

PP: «Quando fala de impulsos instintivos, fala de impulsos humanos, pelo que, para acabar com eles teria que acabar com o homem».

Pois. Uma proposição temível, daquelas que dão origem às distopias do tipo «Laranja Mecânica», mas acontece que a coisa humana não é só impulso instintivo. Calcule que, desesperado para encontrar uma resposta à sua observação, dei comigo na Wikipedia, essa espécie de repositório do julga-saber colectivo, e o que lá está é isto: "Instinct provides a response to external stimuli, which moves an organism to action, unless overridden by intelligence, which is creative and more versatile."

PP: «Não será por acaso que em 2006 ainda há guerras».

Também não será por acaso que escreveu «ainda».

terça-feira, dezembro 19, 2006 3:59:00 da manhã  
Blogger Pedro Proença disse...

Caro Botelho,

Não desespere para responder às minhas observações. Lamento que tenha tido que recorrer à wikipedia! Onde é que eu lhe disse que a coisa humana era só instinto?

Depois, não foi por acaso que escrevi ainda que é o mesmo que dizer até agora que é o mesmo que dizer que, com grande probabilidade, no futuro será assim mas como diria uma das personagens da citada "laranja mecância", "if a man cannot choose, he ceases to be a man"

terça-feira, dezembro 19, 2006 11:35:00 da manhã  

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