quinta-feira, agosto 16, 2007

SER CONSERVADOR : A VERSÃO ANGLO-SAXÓNICA - 2

"Tendo presente a resistência das opiniões conservadoras a um tratamento formal, é perfeitamente apropriado que o texto que é geralmente considerado a sua mais capaz e influente exposição - as Reflexões sobre a Revolução de França, de Edmund Burke - não seja a proclamação sistemática de uma tese mas uma obra de polémica provocada por uma específica situação política: uma convulsão sem precedentes na mais ilustre e poderosa nação da Europa. Os pontos fundamentais dessa filosofia política estão lá integrados de uma maneira não sistemática.

Há dois pontos a assinalar antes de mais nada a respeito das Reflexões de Burke. Primeiro, foram publicadas em 1790, antes das manifestações mais violentas da Revolução - antes do Terror, do regicídio, de a revolução ter devorado os seus filhos e de ter desembocado numa ditadura militar; ou seja, Burke escreveu com presciência e não com um conhecimento retrospectivo. Segundo, na altura em que foram publicadas ainda a Revolução era vista em Inglaterra como um grande e libertador passo em frente. A maioria dos leitores conhece os versos de Wordsworth, "Que felicidade estar vivo naquela aurora", ou a reacção de Charles James Fox: "Como este é verdadeiramente o maior acontecimento que até hoje se deu! Como é o melhor!". Ao lançar o seu ataque à Revolução, Burke não exprimia uma opinião que fosse muito popular entre as classes pensantes inglesas; ia contra a corrente.

No cerne da sua reacção estava uma profunda hostilidade ao que ele chamou, em diversas ocasiões, "especulação", "metafísicas", ou "raciocínios teóricos" aplicados às questões sociais e políticas e a sua convicção do perigo de tal aplicação. Escrevia numa época em que os revolucionários de França acreditavam seriamente que podiam reconstruir o mundo a partir do zero pela aplicação de princípios gerais e abstractos - ao ponto de terem introduzido um novo calendário para marcar o princípio desse mundo novo. Nesta crença não eram a excepção mas a regra no seio da opinião mais sofisticada do tempo, pondo em prática uma fé no poder da razão que muitos representantes do Iluminismo tinham energicamente propagado. Burke rejeitava esta crença por duas razões, uma que tinha a ver com a natureza da sociedade e da política e a segunda que se prendia com a natureza dos seres humanos e das suas faculdades racionais."


Owen Harries, "What Conservatism Means", The American Conservative, Novembro de 2003

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