terça-feira, outubro 03, 2006

Releitura de Les Justes



Camus, Albert Camus, nascido na Argélia, resistente, Prémio Nobel da Literatura, foi um dos autores mais lidos na minha adolescência, no princípio dos anos sessenta, graças à colecção "Miniatura" que traduziu e editou a preços acessíveis algumas das suas obras mais importantes: O Estrangeiro, A Peste, Calígula, O Exílio e o Reino. Líamos também as edições em francês, nos Livre de Poche. E tínhamos ecos da sua linha política, da Resistência, da polémica com Sartre nos anos 50, dos cafés do Quartier Latin e dos e das "existencialistas" - da Juliette Greco, sobretudo.

Mais tarde, na Faculdade de Direito, no 1º ano, encontrei um colega e amigo que era um "camusiano" entusiasta - o Manuel Jorge Magalhães e Silva - e que fez o meu upgrading no mundo de Camus, no seu humanismo laico.

É interessante reler Les Justes para ver os "anos-luz" que regredimos em matéria de preocupação filosófica. Camus, como antes dele os grandes escritores russos, Dostoievski à cabeça, preocupava-se com a "ética" da acção. Os personagens de Les Justes são um grupo - um comando diríamos hoje - de sociais-revolucionários russos que se preparam para atacar à bomba e assassinar o Grão-Duque Sérgio, tio do Czar Nicolau II. Entre eles há linhas, sensibilidades: desde Kalyev (Serge Reggiani) que no momento do atentado não lança a bomba por haver crianças na carruagem - os sobrinhos do Grão-Duque - até ao radical Stepan que encarna uma linha de leninismo finalista em que os fins (bons) justificam todos os meios. E a Dora (interpretada na première por Maria Casarés, outro ícone do tempo) e Annenkov, que é o chefe.

Hoje, com o terrorismo "macro", apocalíptico, suicida (mas estes russos também eram suicidas, como o Buiça e o Costa que assassinaram D. Carlos e D. Luís Filipe, pois sabiam que seriam capturados ou mortos) podem parecer "filosóficos" ou "florentinos" estes problemas éticos. Que eram os nossos - à direita e à esquerda.

Agora na sociedade unidimensional democrática e de mercado, "boa" e a globalizar, uma única preocupação: a eficácia dentro da legalidade formal. E a reacção da opinião pública.

Os islamo-leninistas, novos iluminados, são também assim.

3 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Já tínhamos o "fascisno islâmico", agora temos o "islamo-leninismo" - ora é preciso saber em que ficamos, e se afinal o islamismo é fascista ou social-fascista.

quarta-feira, outubro 04, 2006 9:01:00 da tarde  
Blogger Sofocleto disse...

Por falar em terrorismo, como é possível deixar quatro aviões de passageiros sequestrados passear à solta sobre as terras do Tio Sam durante horas? Por sorte só derrubaram as três Torres do WTC e fizeram um minúsculo buraquito no Pentágono. Olha se têm acertado no Lincoln Memorial!

Como diria o saudoso Ary dos Santos: Força Aérea (US Air Force) castrada, não!

Um abraço de um islamo-leninista

quarta-feira, outubro 04, 2006 11:05:00 da tarde  
Blogger Filipe Castro disse...

Absolutamente de acordo. E que dizer dos neo-cons (Pearl, Wolfowitz, Kristol, etc.)? Intelectuais com bombas atomicas e certos da sua superioridade moral.

quinta-feira, outubro 05, 2006 3:24:00 da manhã  

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