sexta-feira, agosto 17, 2007

TORREBELA

Está de novo em exibição nos cinemas o filme Torrebela, um documentário sobre a ocupação das propriedades do Duque de Lafões, no Ribatejo, em 1975. É uma janela aberta de par em par sobre o PREC - e a vista que de lá se tem é tremenda. Quem tiver estômago para ver este extraordinário documento fica a perceber o alívio generalizado que em Portugal se respirou após o 25 de Novembro - e porque o país praticamente em peso "assinou por baixo", como se diz. Foi verdadeiramente o tempo maior do mal menor. O "dossier de imprensa" do filme inclui um texto em português mascavado do realizador Thomas Harlan, em que além do mais nunca acerta com o nome próprio dos Duques de Lafões. O cineasta alemão manifesta uma original compreensão do que é "um movimento campesino", feito como ele diz de "ex-trabalhadores agrícolas, antigos imigrados (sic) que voltaram ao país, reincidentes (supõe-se que na prática de algum crime?), bêbedos, prisioneiros políticos libertados (um, dois?)". Um blogger entusiasta desta epopeia da "ocupação selvagem" observa, em tom de lamento, que o filme retrata "um período irrepetível da História do Portugal Contemporâneo". Dá a impressão de que gostaria de o ver repetido, no que poucos o devem acompanhar. Fiquei a saber, entretanto, que Thomas Harlan -nascido em 1929 - é um dos filhos do segundo casamento do realizador alemão Veit Harlan, um homem de talento que se distinguiu na cinematografia do III Reich e cujo filme mais conhecido é "O Judeu Süss". (Entre parênteses: Veit Harlan morreu em 1964; a revista francesa de cinema Positif, solidamente de esquerda, publicou na altura a seguinte e muito elegante notícia cronológica - cito de cor: "Temos o enorme prazer de anunciar a morte tardia do cineasta nazi Veit Harlan, realizador de 'O Judeu Süss'". A revista ainda se publica mas hoje em dia raramente a leio. Fartei-me de a ler quando era feita por Raymond Borde, Robert Benayoun, Ado Kyrou, entre outros; comprava-a regularmente na Livraria Buchholz, em Lisboa, nos tempos do obscurantismo fascista em que não tínhamos acesso à "cultura".)

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