quinta-feira, dezembro 07, 2006

O 25 de Novembro - Thermidor Português (3)

A reacção do Norte

O voluntarismo das bases comunistas e da extrema-esquerda foi arrastando e agravando a situação, perante a cumplicidade ou ausência do poder. A reacção veio da área do país, geográfica e social, que sempre, desde o século XIX, foi o núcleo duro da reacção nacional-conservadora - o Litoral a Norte do Tejo e as Beiras. Começou em Braga, com o discreto apoio, senão mesmo encorajamento do Arcebispo, D.Francisco Maria da Silva. Traduziu-se nos assaltos, em alguns casos com destruição, às sedes do PC e marcou rapidamente um contrapeso ao poder comunista, durante o "verão quente" de 1975.

A lógica do sistema levou à contestação do terrorismo de esquerda, a partir do Portugal rural do Norte e do Centro; a lógica era de uma bipolarização, mais ou menos radical, com os movimentos clandestinos, MDLP e ELP, mitificados, bem como as redes discretas activistas, tendendo para uma reviravolta à Weimar. Cunhal e o Partido Comunista, a nível de direcção central, aperceberam-se da gravidade da situação para a "esquerda unida" - ou seja que só "desnunida" "jamais seria vencida". Na prática anteciparam para a esquerda a glosa do Eduardo, na Sexta Coluna... Os "Nove" também perceberam, a nível militar, que os conservadores tinham recuperado terreno e que a bipolarização esquerda-direita levaria à derrota do bloco PC-Extrema esquerda e que eles e o próprio PS deixariam de sobreviver como charneira, passando a esquerda sobrevivente.


Este Thermidor português foi muito semelhante ao francês, com a diferença de que os thermidorianos - Grupo do Nove, PS, Costa Gomes - recorreram a uma aliança com os militares conservadores. E não só não pagaram nada por isso, como foram capazes de equilibrar o sistema (o "seu" sistema) ao conseguir Melo Antunes que o Partido Comunista não fosse sancionado. As forças conservadoras populares também não souberam explorar o sucesso, pois não fizeram o que os comunistas tinham feito, a seguir à revolução, com as ocupações, fora da lei, de empresas e de propriedades. Por isso a mudança do sistema foi adiada e só começou em 1985, depois do fim da hegemonia eleitoral da esquerda e do CR.

1 Comentários:

Blogger c. disse...

Este é o último post da série? Se for o caso, gostaria de conhecer a sua opinião sobre este tópico:

"As forças conservadoras populares também não souberam explorar o sucesso(...)Por isso a mudança do sistema foi adiada e só começou em 1985.."


Porquê? Não souberam por incompetência táctica ou não quiseram? Foram timoratas? Tiveram receio de alienar os aliados da esquerda moderada? Tinham uma percepção pouco clara da sua força e das fraquezas dos adversários? Ou, pelo contrário, qualquer desequílibrio no sistema, daí em diante, seria sempre em seu desfavor?

Obrigado e parabéns pelos textos.

domingo, dezembro 10, 2006 9:36:00 da manhã  

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