sábado, janeiro 27, 2007

Leitura obrigatória: um artigo de José Pacheco Pereira

Belo artigo de José Pacheco Pereira no Público de quinta-feira passada. A propósito da questão do referendo sobre o aborto este votante do "sim" faz uma reflexão que vai muito além da polémica do momento. Não se trata de menosprezar essa polémica: os partidários do "não" - entre os quais me conto, muito modestamente - estão a combater para salvar vidas, para salvar o nosso futuro - e, o que é ainda mais importante, para salvar almas, a começar pela nossa; a Igreja Católica, com a sua "intransigência" nesta e noutras matérias, é actualmente, de facto, não a defensora da Doutrina Católica mas um dos derradeiros baluartes da Civilizaçâo e da humanidade. Não se pode minimizar esta questão. Mas o artigo de Pacheco Pereira é certamente um dos mais importantes artigos escritos até agora neste contexto e leva-nos ainda mais longe. "Desejaria - escreve Pacheco Pereira - que este referendo fosse silencioso, que este debate fosse quase inaudível, que ele pudesse ser feito quase por telepatia, por gestos subtis, sem voz, nem escrita, nem imagem." É um sentimento em que ecoa uma observação feita há muitos anos por Bernard Henri-Lévy, num ensaio fulgurante de 1977 que continua a ser a sua obra mais importante, La barbarie à visage humain: Il y a menace de totalitarisme chaque fois qu'une société nous fait devoir de tout dire: danger de la sexologie, par exemple, et des pratiques qui s'y attachent". ("O totalitarismo ameaça sempre que uma sociedade nos obriga a dizer tudo: perigo da sexologia, por exemplo, e das práticas que lhe estão associadas.") Como ele tinha percebido nessa altura, o verdadeiro totalitarismo não é o da proibição mas o da obrigação, não o da interdição mas o da participação forçosa, se necessário (que é quase sempre) forçada, não o do véu mas o da transparência. Leiam o artigo. Dito isto, tem de se dizer também que não foram os partidários do "não" neste referendo quem trouxe o assunto para as estridências da praça pública.
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2 Comentários:

Blogger Pedro Botelho disse...

«Como ele tinha percebido nessa altura, o verdadeiro totalitarismo não é o da proibição mas o da obrigação, não o da interdição mas o da participação forçosa, se necessário (que é quase sempre) forçada, não o do véu mas o da transparência.»

A confusão entre as esferas privada e pública é, em si mesma, interessante, e uma boa medida dos novos totalitarismos para que nos encaminhamos. E despoleta outra curiosidade: a saber, se o argumento, com a sua colocação da virtude na prevalência do véu, valeria também para a discussão sobre a manutenção do aborto nos países que expressamente o admitem...

sábado, janeiro 27, 2007 7:57:00 da tarde  
Blogger Pedro Botelho disse...

A última do Bernard Henri-Lévy:

"The French philosopher and writer Bernard Henri-Levy supports the law condemning the negation of the Armenian genocide, approved by French Members of Parliament on October 12th, 2006, but since blocked in the French Senate. "People are saying, 'it is not up to the law to write History'... this is absurd, because History has already been written. ... So it is not about 'telling History'. History has already been told. It has been re-told over and over again. This is about stopping its negation. What the Senate is going to discuss is complicating life a bit for insulters. There are laws, in France, against insult and defamation. Is it not the least one can expect, to have law penalising this quintessential insult, this outrage that surpasses all outrages and consists in outraging remembrance of the dead ? ... A law against negationism is necessary because negationism is literally the ultimate stage of genocide."

Devo dizer que só li estas passagens, e apenas em inglês, mas os pontos de vista expendidos não são nada destoantes do «fulgurante» philosophe, que do ponto de vista intelectual sempre me pareceu, digamos, uma excepcional interrupção involuntária da gravidade, vulgo «anedota» (para evitar o tal palavrão, o do referendo)...

domingo, fevereiro 04, 2007 12:24:00 da manhã  

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