domingo, dezembro 31, 2006

2006 - Um ano mais

Um ano menos foi como Fernando Vizcaíno Casas - advogado e humorista espanhol - intitulou a edição do diário desabusado que escreveu de Maio de 1978 a Maio de 1979. Não foi - como poderia ter sido, numa versão mais optimista, "um ano mais". Era um livro tão desencantado como o seu título e um dos melhores que escreveu. Os humoristas quando escrevem um bocadinho mais a sério costumam revelar a melancolia que é normalmente atributo seu e da maior parte dos grandes cómicos. Era o caso também do nosso André Brun, que deu como epígrafe a um dos seus livros de crónicas "Ano novo, vida velha..." e a uma das suas crónicas sobre a passagem do ano o título paradoxal de "Ano velho, vida nova". Vizcaíno Casas, um autor franquista que nunca teve tanto êxito como depois da morte de Franco, escreveu entre muitos outros livros o estrondoso best seller ...E ao terceiro ano ressuscitou (uma ficção política sobre a ressurreição de Franco) cuja edição portuguesa teve um brilhante pósfácio de Manuel Múrias, mais tarde plagiado com o encantador descaro espanhol pelo próprio Vizcaíno Casas, no primeiro número - salvo erro - da edição espanhola da Playboy. Prestes a terminar o ano em que faz setenta anos que começou a Guerra Civil espanhola - e parece que toda a guerra há-de ser doravante, mais claramente do que no século XX, nalguma ou em toda a medida, uma guerra civil - lembrei-me deste escritor espanhol - e as recordações podiam ir sendo desfiadas por aí fora. Deve ser da idade. Numa veia menos saudosista, lembro a existência - ou recomendo que procurem, aos que não conhecem - a galáxia de belos e idiosincráticos almanaques e outras publicações de Ben Schott, a começar pelo Schott's Almanach propriamente dito. Bom ano para todos.

Goa há 45 anos

Fez anos no dia 18 de Dezembro que a União Indiana, num assomo irreprimível de pacifismo democrático, invadiu e ocupou a Índia Portuguesa. A RTP emitiu um programa sobre esse episódio em geral pouco glorioso dos anos derradeiros da história de Portugal. Impressionaram-me as imagens das nossas tropas a destruir o próprio armamento - para anular qualquer possibilidade de ter de combater? Não parecia que fosse para o subtrair ao inimigo. Lembra-me o Àlvaro de Campos do "Poema em linha recta"("Eu, que, quando a hora do sôco surgiu, me tenho agachado/Para fora da possibilidade do sôco").

sábado, dezembro 30, 2006

A propósito de Jonathan Littell

Graças ao Bernardo Calheiros fomos dos primeiros em Portugal a falar do romance de Jonathan Littell Les Bienveillantes, o livro francês que deu ao autor, um americano em Paris, o Prémio Goncourt, depois de lhe ter granjeado o Grande Prémio do romance da Academia Francesa. Consta de muitas das listas dos melhores livros do ano de 2006 - incluindo o curto palmarés de Vasco Pulido Valente, que como toda a gente sabe é muito esquisito. Do que se tem falado menos é do pai do autor, o romancista Robert Littell, que em dois ou três livros de espionagem (The Defection of A.J. Lewinter ou The Debriefing) pareceu, nos anos 70, poder ombrear com Len Deighton ou John Le Carré. Um dos seus livros mais recentes foi The Company (2002), a novel of the CIA, que não é uma má introdução à história "secreta" dos Estados Unidos na segunda metade do século XX, ou seja, na Guerra Fria. Numa bibliografia muito pessoal está ao lado de Harlot's Ghost, que é a CIA segundo Norman Mailer, do My Life in CIA de Harry Mathews (uma figura literária muito especial de que havemos de falar mais longamente), The American Black Chamber, memórias de Herbert O. Yardley, um dos criadores da contra-espionagem norte-americana, Spytime: The Undoing of James Jesus Angleton, de William F. Buckley, Jr. Les Bienveillantes tem mais de 900 páginas. Não sei se isto é hereditáro, mas na minha edição de bolso, The Company chega quase às 1.300.

Os títulos e as notícias

Por exemplo: no "Público" de hoje o título é ""Trabalhistas ultrapassam Tories" e a notícia diz o seguinte - "O partido do primeiro ministro Tony Blair está com 37 por cento das intenções de voto, enquanto o Partido Conservador, de David Cameron, fica com 37 por cento e os liberais democratas, de Menzies Campbell, com 14 por cento." Está bem. Mas estará o Labour a ganhar terreno? A notícia também nos fala da evolução recente: "O Labour subiu um ponto, os Tories dois pontos e os Liberais Democratas desceram três pontos em relação à última sondagem do mesmo jornal."
É de agradecer, em todo o caso, que não se escreva em parte nenhuma da notícia "enquanto que". Como se diz na Inglaterra, thank God for small mercies. Ou, em português, é melhor do que nada.

Aborto: mais argumentos inteligentes a favor do sim

Ana Sá Lopes - a quem muito será perdoado pela sua criação da Vanessa e respectivas aventuras - escreveu no "Público": "Como é que se combate o terrorismo argumentativo dos movimentos do "não", que falam como se o aborto por opção não existisse já em Portugal (no caso de violação ou malformação do feto) e estivesse, agora, na mão dos portugueses pela primeira vez, decidir se isso passa a ser ou não praticado?" Tem toda a razão: as opções existentes e a opção por simples capricho que passa a ser possível são exactamente a mesma coisa e chamar as coisas pelos seus nomes é evidentemente um enjoativo e vergonhoso "terrorismo argumentativo". É tudo enjoativo na campanha do "não", até perguntar por exemplo, como perguntou o Dr. Malta à Dra. Edite Estrela, que ficou sem palavras, se as mulheres que violarem a lei proposta (com um aborto praticado no minuto seguinte às dez semanas da proposta, não continuam a estar "sujeitas aos julgamentos em tribunal". São mesmo precisos "nervos de aço" para aguentar o descaramento "dos que misturam Código Penal (...) com supostas 'defesas da vida' ." Como se defende a vida ou seja o que fôr é, como qualquer pessoa percebe, retirando-lhe a protecção das leis.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

nostalgias: James Bond forever




Gerald Ford (1913-2006)


Gerald Ford, que foi vice-presidente de Richard Nixon e assumiu a presidência dos EUA quando este renunciou, sob pressão dos media e do Congresso, no Verão de 1974, faleceu hoje na sua residência de rancho Mirage (California). Tinha 93 anos e será lembrado como um dos últimos presidentes não-ideológicos, um republicano moderado, apaziguador, preocupado com consensos bipartidários em política externa, um dos últimos políticos norte-americanos tipo "anos 50". E que, sem ter sido directamente eleito para tal, governou a América no rescaldo do Wattergate. E não pôde impedir o desastre do Vietname, em Abril de 1975, quando o Congresso, dominado pelos "liberais", bloqueou toda a ajuda ao governo de Saigão, permitindo aos comunistas de Hanoi uma vitória-relâmpago por invasão do Sul, com total desrespeito pelos Acordos de Paris.

Foi também o autor de uma interessante frase, que por estar certo que lhes agrada dedico nesta quadra aos meus amigos e confrades da direita liberal : "A Government big enough to give you everything you want, is a Government big enough to take from you everything you have!"

terça-feira, dezembro 26, 2006

Batalhas do Passado

Uma série de episódios recentes - a morte de Pinochet, a revisionista "Lei da Memória" de Zapatero sobre a Guerra Civil Espanhola, a inclusão de Salazar em lugar cimeiro no concurso dos Grandes Portugueses - trouxeram o passado outra vez para o debate quotidiano. Que diga-se, é mais interessante que discutir os méritos e flops do Dr. Marques Mendes, ou "as reformas" inadiáveis.

O passado, "país estranho" de onde acabamos por vir, pessoal ou colectivamente; porque somos todos de lá, mesmo os mais progressistas ou futuristas; temos lá os nossos predecessores, os nossos irmãos de armas ou letras, os nossos mártires, os nossos heróis, os nossos inimigos, os nossos fantasmas, os nossos algozes. Num dado momento temos que escolher entre o D. Pedro e o D. Henrique, entre Cromwell e Carlos I, entre o Marquês e os Távoras, entre os Jacobinos e os Chouans, entre D. Pedro e D. Miguel; ou entre os "Brancos" e os "Vermelhos", os Nacionalistas e a Frente Popular, Pinochet e Allende. É assim. A "vida do espírito" é também essa continuidade e essa comunidade com as guerras desse "estranho país".

Curiosamente a esquerda - a tal "eterna" e politicamente correcta, convencida, arrogante, jacobina, "antifascista", dona da verdade e da democracia - mostra-se aqui empedermidamente igual a si mesma, escamoteando factos, cobrindo razões com gritos de indignação e insultos, não dando o braço a torcer.

É um maniqueísmo que recusa a realidade e a natureza dos homens e das coisas e a ideia - talvez por ser cristã, talvez por ser antropologicamente pessimista (logo "de direita") - que o homem é igual desde que há memória e história como crónica dos homens; capaz de tudo, do melhor e do pior, de paixão, de cálculo, de generosidade, de crueldade, de dedicação incontida, como de traição calculada. Actuando por medo, interesse ou honra. Um maniqueísmo que distribui essas qualidades humanas segundo ideologias e partidos: do género - os comunistas são sempre "coerentes e corajosos" mas os fascistas são, nas mesmíssimas atitudes, "fanáticos e brutais"; as direitas são egoístas e exploradoras; as esquerdas generosas e amigas dos pobrezinhos. Como se isto tivesse alguma coisa a ver com a realidade.

O tempo, que é um grande mestre (perdoem-me o cliché, mas é mesmo...) ensina o contrário: que na política, "reino do mal", como aprendemos com Santo Agostinho e Maquiavel, a razão de Estado, quando se trata da sobrevivência das comunidades e pessoas em situações limite - mors tua vita mea - leva os protagonistas a fazer as mesmas coisas: no Chile em 73, ou na Espanha em 36, fatalmente ia haver confronto, guerra, vítimas de guerra, vítimas colaterais, vencedores e vencidos. Como na Rússia em 1917, na China em 1949, ou em Cuba em 1959. Como em França na Revolução ou nas Guerras Religiosas. Os vencedores sempre reprimem e punem mais que os vencidos e, nos casos citados, pode dizer-se que, a avaliar pelos exemplos dos correligionários, temos legítimas dúvidas de qual teria sido o resultado da vitória dos "rojos" no Chile em 73 e em Espanha em 1936. A avaliar pelo que fizeram em Espanha nas áreas que controlaram em 36 e o que fizeram em Cuba, desde que tomaram o poder e pelo modo como o exerceram quando não tiveram os Francos e Pinochets para os parar.
Publicado no Expresso a 22.12.06

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

CARTAS (NA MESMA) - “Meu Caro Zé Maria: Não sigas os pressentimentos fúnebres. Estarás aqui para o ano, a celebrar as nossas alegrias, e a juntar-te a nós nos dias de sombra.
Tens razão sobre a paciência de Job, na esgrima com pseudónimos de pseudónimos. Há limites, sobretudo na utilidade das coisas.
Também me ri – à gargalhada, confesso – da re-invenção da minha juventude por gente que nunca me conheceu, ou que finge desconhecer-me. Só não se percebe é porque é que se torna necessário puxar-me para as catacumbas da paranóia negacionista.
A tirada sobre “os judeus de hoje são os palestinianos...e nazis”, é também edificante, e acéfala. Se não houve nenhuma determinação negra contra os judeus, porque é que palestinianos e nazis se hão-de preocupar? Gente do “corta e cola”, tens razão, mas sem cabeça.
Quanto ao resto, estamos de acordo: o reconhecimento da historicidade dos genocídios nada tem a ver com os juízos que fazemos sobre o Estado de Israel, o regime político de Israel, o actual governo de Israel e as suas tácticas e estratégias. Como dizes, fui muito criticado por sectores sionistas, durante a Guerra do Líbano, por ter falado das violações do Direito Internacional Humanitário, praticados por elementos das forças armadas israelitas. E também muito criticado por ter sequer ousado ir a Teerão, falar com as “forças vivas” locais (como se dizia na outra senhora). Mas o que é que queres, num mundo povoado por bandos extremos de Gregos e Troianos?
Era interessante, realmente, re - publicar a entrevista que o Zeev Sternehll nos deu para o FP, há uns anos atrás. Acho que as obras do Sternhell sobre os fascismos e a sua génese, são fundamentais, ao menos no contraste do debate, mas gosto especialmente de “The Founding Myths of Israel”.
O “Sociedade das Nações” vai regressar com mais força em 2007, e muitas surpresas. Como é que soubeste do filme de promoção? Já não se pode manter um segredo.
A obra de que falas deverá ter 7 ou 8 volumes, esperando nós uma edição de um a dois por ano.
Soube da morte do Diniz Diogo, cuja poesia (influenciada pelo Rodrigo Emílio e pelo António Manuel Couto Viana) conhecia e admirava muito. Paz à sua alma.”

CONTO – Fui entretanto desenterrar este velho conto de Natal, que escrevinhei há uns anos, obviamente inspirado por Jünger, Céline, Chesterton, na “Lenda do Santo Bebdor” e Philip K. Dick (sobretudo este), leitoras e visões febris desse crepúsculo.



VIAGEM AO FIM DA NOITE
Era um daqueles dias impossíveis. No hospital, o único da pequena cidade da montanha, Francisco desesperava. Olhou, com o tal olhar vazio que trazia ultimamente, para o louvor do Hierofonte, emoldurado em latão barato, posto desajeitadamente junto ao calendário com as realizações do Regime de Nova Heliopolis: “ Reconhecimento público pela obra comunitária do dr. Francisco José Yepes, doutorado na Universidade de Taurus, em comissão de serviço na cordilheira dos novos Andes”, etc., etc.

Convenientemente, mais uma vez, os colegas tinham-se eclipsado. Resumindo e concluindo, estava sozinho, com trinta doentes para uma noite que outros viviam em festa, com largadas de dragões, bailes nos bosques, festas privadas no Palácio dos Doges, ou na última exposição dos Dalis desenterrados das ruínas de Paris (já ninguém se lembrava do Holocausto de 2020, mas ele fora real).
O dia 25 continuava a ser a Festa Nacional da Revolução Humanista e Liberal, e Francisco imaginou, por momentos, o Pró-Cônsul nas suas libações com o estado-maior, sobre um mapa virtual do mundo livre. “Conseguimos numa década, camarada imperador, os sonhos mais impossíveis dos nossos pais”: a tirada do Marechal Chicken, chefe dos mercenários da Guarda Pretoriana, tinha de certeza aberto uma manhã de brindes, palmadinhas nas costas e envenenamentos dignos dos Bórgias.

Quando a enfermeira principal, visivelmente já apetrechada para o reveillon, surgiu na tela de comunicações internas, o médico imperial recuperou o sorriso sardónico, a sua imagem de marca desde o curso em Pádua. Não prestou atenção ao relatório preliminar, soletrado por Natalina, a peste local. O couro preto fazia-a ainda mais parecida com Louro da Costa, o comediante virtual do momento, a única razão para Francisco proibir o tele-cinema a três dimensões na Clínica do Novo Povo.
Mas eram boas notícias. Os “pacientes impacientes”, como chamava aos hipocondríacos locais, tinham saído em boa ordem. Não havia mais testes, análises ou desfiar de” estados de alma” (lembrava-se da frase, retirada de um velho romance de Jacques Laurante). Podia ir para casa.

No conforto da piscina instalada no quarto áureo, sobranceiro ao monte da Danação, pensou que estava a alucinar. O micro-telefone exibia a mensagem: “caso urgente em Belém; parto com complicações; família pobre, sem convicções políticas”. O robot-servo da série Kunhal enxugou-o, vestiu-o, e em cinco minutos estava a caminho, no magnífico Lexus Stratus, o símbolo do novo poder.

Uma hora depois, podia jurar que uma voz o tinha chamado, mas a verdade é que não havia vontade de terminar o último copo de vodka puro, servido na Estalagem da Montanha. Por alguma razão, foi parando ao longo do percurso. Já era a terceira libação em hotéis de luxo do Partido. Tivera ainda tempo de jogar – e ganhar – a Lotaria Instantânea, no bistrot do Tio Nero. E não achou sequer estranho ter encontrado Lillith, a velha chama da Universidade, no átrio do Hotel Herodes. Não soube se ali passou minutos ou séculos, nas planuras de leite e mel generosamente abertas, mas retemperou-se de uma semana de agruras.
No relógio, leu a mensagem musical: “promoção a Grande Mestre; parabéns”. De repente, tudo parecia ter mudado. A noite abria-se, e ao alcance da mão tinha o poder dos príncipes deste mundo. Na zona das Fontes de Púrpura, tocava mais um êxito do crooner Mefistófeles. De repente, por entre as brumas do álcool e do luxo, surgiu-lhe a imagem: uma mulher sofria, um homem desesperava, uma criança esperava, no frio da noite.

“Ajuda-nos”. A mensagem arrepiou-lhe a espinha, e fê-lo arrepiar caminho.
Num ápice chegou à cabana. Se há nascimentos perfeitos, foi aquele. O céu estava coberto, sem estrelas, mas do lago gelado vinha uma luz intensa. Seria o reflexo do sorriso do menino, cuidadosamente enrolado pela mãe cansada?
Nessa noite, Francisco rasgou o cartão do regime, e seguiu o casal, como quem procura a única coisa importante da vida.

ETC – O grupo “Et Cetera” é uma pérola escondida (e, infelizmente, defunta) do “jazz rock” europeu. Formado, no início dos anos 70, pelo grande pianista alemão Wolfgang Dauner, procurou uma síntese sofisticada dos eruditos contemporâneos, da música clássica indiana (ou “indianizante”), da composição electrónica, da improvisação “jazzy” e da pulsão “rock”.
Infelizmente, não há – que eu saiba – reedições em CD, embora me tenham falado em dois discos publicados no Japão. Quem souber, diga.
Pelos “Et Cetera” (não confundir com o grupo homónimo do Quebeque) passou uma pléiade de intérpretes euro-americanos, de que destacamos Eberhard Weber (o som do seu contrabaixo modificado, sobretudo em “Colours of Chlöe”, continua único), o guitarrista Sigi Schwab ou o baterista Fred Braceful.
Um raro trecho dos ETC em público pode ser visionado no endereço seguinte:

http://www.youtube.com/watch?v=iVl654-UAGY



(NATIV)IDADE – É a idade. Com os olhos e os ouvidos postos em “Vingt Regards sur L’Enfant Jésus”, de Olivier Messiaen (DVD Elektra, 2002), interpretado pelo pianista Pierre Laurent Aimard, preparamos, em casa, o Natal e o Ano Bom.
O Olhar do Pai, o Olhar da Virgem, o Olhar da Estrelha, o Olhar do Filho sobre o filho, o Olhar do Tempo, a Troca, O Olhar dos Anjos, o Olhar dos Profetas, o Olhar da Cruz, são alguns dos temas desta obra memorável de 1944. Das teclas, e das mãos de mestre de Aimard, saem carrilhões e cânticos, órgãos celestiais e baixos graves, sinos e percussões exóticas, coros amplíssimos e danças vivas. O misticismo católico de Messiaen transfigura-se, em momentos como este, em espiritualidade ecuménica e ecléctica. É difícil ficar indiferente a uma música profunda e simples, como todos os mistérios.

Não é Natal todos os dias

Não é Natal todos os dias e muito menos quando a gente quiser. O Natal é só um - o do Nascimento de Cristo. Foi o que se comemorou ontem, como todos os anos. O resto é música e não propriamente celestial.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Mais nostalgias natalícias: Dickens e "A Christmas Carol"


Deve ter sido dos primeiros contos ilustrados que li - e fiquei fascinado com os três espíritos do Natal; com estas short trips no tempo, com a bondade de uns, com o arrependimento e transformação do velho Scrooge, com Londres e a neve. A Gertrude Himmelfarb é quem tem razão: nada como a tão vilipendiada ética vitoriana, destes fabulosos romances populares, para formar gente decente. Vejam só o happy end do empedernido avarento!

domingo, dezembro 24, 2006

Nostalgias da quadra... "White Christmas"


É um bocado kitsch, mas tem a sua graça e algumas memórias. E gosto deste dueto à neve do Bing Crosby e da Rosemary Clooney. Que lhe terá acontecido?

Neste ano do Senhor...

In Hoc Anno Domini


When Saul of Tarsus set out on his journey to Damascus the whole of the known world lay in bondage. There was one state, and it was Rome. There was one master for it all, and he was Tiberius Caesar.

Everywhere there was civil order, for the arm of the Roman law was long. Everywhere there was stability, in government and in society, for the centurions saw that it was so.

But everywhere there was something else, too. There was oppression -- for those who were not the friends of Tiberius Caesar. There was the tax gatherer to take the grain from the fields and the flax from the spindle to feed the legions or to fill the hungry treasury from which divine Caesar gave largess to the people. There was the impressor to find recruits for the circuses. There were executioners to quiet those whom the Emperor proscribed. What was a man for but to serve Caesar?

There was the persecution of men who dared think differently, who heard strange voices or read strange manuscripts. There was enslavement of men whose tribes came not from Rome, disdain for those who did not have the familiar visage. And most of all, there was everywhere a contempt for human life. What, to the strong, was one man more or less in a crowded world?

Then, of a sudden, there was a light in the world, and a man from Galilee saying, Render unto Caesar the things which are Caesar's and unto God the things that are God's.

And the voice from Galilee, which would defy Caesar, offered a new Kingdom in which each man could walk upright and bow to none but his God. Inasmuch as ye have done it unto one of the least of these my brethren, ye have done it unto me. And he sent this gospel of the Kingdom of Man into the uttermost ends of the earth.

So the light came into the world and the men who lived in darkness were afraid, and they tried to lower a curtain so that man would still believe salvation lay with the leaders.

But it came to pass for a while in divers places that the truth did set man free, although the men of darkness were offended and they tried to put out the light. The voice said, Haste ye. Walk while you have the light, lest darkness come upon you, for he that walketh in darkness knoweth not whither he goeth.

Along the road to Damascus the light shone brightly. But afterward Paul of Tarsus, too, was sore afraid. He feared that other Caesars, other prophets, might one day persuade men that man was nothing save a servant unto them, that men might yield up their birthright from God for pottage and walk no more in freedom.

Then might it come to pass that darkness would settle again over the lands and there would be a burning of books and men would think only of what they should eat and what they should wear, and would give heed only to new Caesars and to false prophets. Then might it come to pass that men would not look upward to see even a winter's star in the East, and once more, there would be no light at all in the darkness.

And so Paul, the apostle of the Son of Man, spoke to his brethren, the Galatians, the words he would have us remember afterward in each of the years of his Lord:

Stand fast therefore in the liberty wherewith Christ has made us free and be not entangled again with the yoke of bondage.

(Transcrito de The Wall Street Journal,24 Dez.2006)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Outras nostalgias :Beatles'"love"

terça-feira, dezembro 19, 2006

Euro-entusiastas ou luso-deprimidos?

Título do DN de hoje: "Os portugueses são dos que mais apoiam a Constituição europeia". É a conclusão de um inquérito conduzido nos países da União que ainda não ratificaram o respectivo tratado, em que Portugal - à pergunta "É a favor ou contra a Constituição Europeia?" - é o segundo país que em percentagem dos inquiridos mais entusiasticamente se manifesta "a favor", bastante acima da média europeia (60% contra uma média de 53%); em compensação, os mesmos portugueses estão muito abaixo da média quanto ao apoio a uma Política Externa Comum, contradição que parece indicar que nem nós nem "a média europeia" sabemos muito bem o que dizemos ou queremos. Se calhar o fervor constitucional europeísta dos portugueses deve ser interpretado, como sugeriu em tempos - se não me engano - Pedro Magalhães - como, simplesmente, o desejo de ser governado por alguém e a descrença na capacidade e vocação para o efeito das classes dirigentes portuguesas: antes Bruxelas.

Le Magazine Littéraire: ainda mais antigo que o Futuro Presente

Le Magazine Littéraire comemorou este mês com um número especial o seu quadragésimo aniversário: o primeiro número foi publicado em 1966. Neste número especial dos quarenta anos o tema - como seria de esperar - é "Quarenta anos de literatura" - e é constituído quase inteiramente por uma recapitulação - ano a ano - dos "maiores livros contados pelos seus autores", que vão de Jorge Luis Borges a Jean Echenoz, passando quase sempre pelo óbvio, e até pelo insignificante (Toni Morrison, Tabucchi...) mas literariamente correcto, Montherlant, Sagan, Garcia Márquez, Aragon, Semprun, Mailer, Paul Auster, etc. Note-se, em todo o caso, a presença, de J. G. Ballard, Ray Bradbury (o Louis Amstrong de ficção científica, como dizia Kingsley Amis: "é o nome que toda a gente que não percebe nada do assunto conhece"), Simenon ou Anthony Burgess. Segundo nos informa o actual "Director da Redacção", Jean-Louis Hue, "é a revista literária mensal que mais se vende em quiosques em França", um título de glória um tanto ambíguo. Diz também Hue que se vende cada vez mais no estrangeiro (inclundo os Estados Unidos). Tirando os países francófonos, as capitais estrangeiras onde mais se vende são - tachim! - Lisboa, Tunes, Roma e Nova Iorque. Vem a calhar para assunto do nosso número "literário" (provavelmente vai ser afinal o 64), em que falaremos também de algumas outras revistas literárias de nossa maior ou menor devoção.

Divisão Azul:o romantismo anti-soviético

Mais"românticos": anarquistas



Como não sou faccioso na admiração "histórica"...

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Mais nostalgias: os carlistas, tradicionalistas românticos

Nostalgias 28:do "romantismo"da Guerra d'Espanha

O meu post de ontem, do José António e do Durruti, trouxe alguns comentários, que agradeço, até por servirem de motivo para ir um pouco mais fundo na explicação do Zeitgeist (desculpem-me os puristas ) da nossa geração. Nos anos 60, a guerra de Espanha apareceu-nos mais pela ficção romanesca, que pela política. Logo, à partida, foi para nós uma guerra romântica, talvez por isso, por romanceada: Malraux, Hemingway, Veríssimo ("Saga"), Brasillach, Foxá, Gironella; das leituras dos historiadores, na época por junto o Hugh Thomas, traduzido entre nós e a apologética franquista de Bardèche e Brasillach, bem como alguns relatos de jornalistas portugueses, geralmente simpáticos para os nacionalistas, contrabalançados por um pano de fundo "antifascista", que impregnava a cultura do tempo.

De todas as formas, e fazendo a menção das centenas de obras sobre o tema, publicadas e lidas depois, desde os volumes de "história militar" da San Martin, às memórias dos participantes, aos livros dos "hispanistas", às monografias sobre as intervenções estrangeiras, às "temáticas", às "regionais", não alterei muito a minha opinião: com o devido respeito às vítimas, sobretudo às colaterais, destes "desastres da guerra", è um conflito que tem, independentemente de "lados" ou "bandos", momentos, episódios e personagens admiráveis. Gostávamos de ter lá estado... Como de ter ido na expedição de Alexandre à Ásia, ou Scipião a África; ou ter desembarcado com o Gama em Calecute, chegado com o Mouzinho a Chaimite ou reconquistado Luanda com o Salvador Correia de Sá. Naturalmente é assim porque acabámos por ver tudo isto pelos olhos "românticos" da História épica da Antiguidade ou "pátria" e das suas glosas oitocentistas, escritas ou pintadas. Admito e a minha costela realista reconhece e até desconstroi. Mas não me arrependo.

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

BACH - Não devias ter usado o "justos céus", ó "Botelho". Já estou a ver quem és. Tens bastante menos piada e talento que o teu pai. De qualquer forma, estás desculpado, tendo em vista o teu sinuoso caminho do anti-nazismo histérico ao nazismo histérico. E tens razão, melhor ideias do que caras: o problema é que não dás a cara e, em ideias, ofereces mais confusão do que outra coisa. De qualquer forma, relevo-te as bofetadas, se me prometeres que não voltas a interromper a medicação.
BOUTEILLE - O que é que já se percebeu de tudo isto? Que o Botelho é um cobardolas críptico, gato pardo com o rabo de fora. Não sabe que o MN (Movimento Nacionalista) era um movimento Nacionalista Revolucionário, anti-sovietista, anti-burguês e anti-nazi, e não sabe que a saudação romana tem raízes na Idade Média, não no Fascismo. E não sabe também que os Faux-rissons e os Ratzingiers e os "septagenários libertários" (caí a rir com essa) são casos avançados de degenerescência. E continua a mentir sobre o nosso "negacionismo", com base numa fonte que não revela, que provavelmente não existe, e que é a origem envergonhada da aldrabice, combinada com uns pózinhos de estupidez. E, vá lá, provávelmente também com uns restos de garrafa. Botelho é, bem evidente, bouteille. Cadáver adiado que procria. Não se perde mais tempo com ele, mas é preciso enterrá-lo, já que o cheiro se torna insuportável.
"DEMOCRATIZAÇÃO" - Já não sei quem perguntou. Penso que o Irão encontra dentro de si forças e talentos suficientes para rejeitar este tipo de piadas estratégicas de mau gosto, onde se perdem amigos e aliados pacientemente cultivados nos últimos meses e anos. Por outro lado, o chamado "regime islâmico" tem centros de poder que sabem ser preciso estabilizar a pós-revolução em bases realistas. O grande problema, por ali, é o "desgoverno" e o caos organizado em certas áreas decisivas. Receitas imediatas, não há: mas existe o dever de continuar a falar, negociar e ajudar as dezenas de milhões que que querem uma vida normal e um país decente.
NÚMEROS E DECISÕES - Há milhões de páginas e dezenas de milhares de documentos onde se estabelecem certezas e extrapolações sobre as mortes sob o 3º Reich. Também vamos já sabendo muito - sobretudo na Ucrânia - acerca das vítimas do estalinismo. Só para a parte alemã, os que se baseiam quase estrictamente em certificados, sem extrapolação estatística, variam pouco nos milhões: Raul Hilberg fala em 5.1, Martin Gilbert em 5.75, Wolfgang Benz em até 6.2.
Há quem, com os ajustamentos estatísticos e com os cálculos baseados em "população judaica residente" e "população sobrevivente", chegue aos 7 milhões. Por outro lado, Donald Niewyck, por exemplo, segue uma linha que também sigo: as vítimas dos Holocaustos não são apenas judaicas, mas de um leque vasto, que pode chegar aos 17 milhões.
É importante também salientar que as ordens, as decisões fundamentais, as estratégias de extermínio, estão também amplamente documentadas, pelo menos desde Nuremberga (que foi um julgamento injusto). E isto é fulcral. Quanto aos campos: entre aqueles onde se praticou a morte com gás, o fuzilamento em massa, a interdição de alimentos, há dezenas. Visitei pessoalmente vários. Podemos citar Belzec, Sobibor, Dachau, Treblinka, Auschwitz-Birkenau, Chelmno, Majdanek, Jasenovac, Flössenburg.
PS-EU-DOMINUS - É impossível responder a todos os blocos de blogues, e por isso ficam apenas umas notas.
Ao Nuno Ramos de Almeida (olá), que já não vejo há uns tempos, um reparo: acho que já te tinha explicado que "o meu contacto do KGB", na manhã em que te dei a entrevista, não eras óbviamente tu (porque é que havias de ser? Não percebo...). Era mesmo um homem da ex-benemérita casa, que nessa altura já se chamava SVR. Espero ainda que - entretanto - tenhas ficado esclarecido sobre a minha posição acerca do tal "congresso científico".
Ao CR, uma breve adenda: o Langages Totalitaires, do Faye, poderia bem ser resumido, e parece injusto que se queira pôr o Jünger naquele saco. Mas acho - como sempre - um livro interessantíssimo.
Ao PP, obrigado pela lucidez.
A um sujeito que se assina "Oliveira" (ou Azeiteiro, já não sei), que me juram que existe (eu não tenho provas), e que já em tempos já me tinha saído ao caminho, a propósito dos voos da CIA (onde não distinguia, na sua beatitude, entre provas e suposições, e entre barulho e factos): já entendeu que a leitura da minha mensagem era para "des-caucionar" o "congresso científico", ou é preciso fazer um desenho?
A outro que assina "Flávio" das tantas, e que me acusa de o ter tratado de não sei o quê: como não sei quem é a criatura, nunca escrevi sobre ela, nem nunca a vi mais gorda, não percebo porque é que marra sempre no poste errado...
Ao Jansenista: não sei quem és, camarada (outra vez a chatice dos pseudónimos), mas dou-te um abraço, como é óbvio.
À corajosa, discreta e anonimizada Margarida (será a da ária das jóias?): não acuse os outros de mentir, quando no fundo tudo se resolve se passar a aprender a ler. Devagar.
Ao JV: os militantes africanos de que fala cruzavam-se, realmente, com o piorio da falange racista boer e australiana. A hipótese que levanta, sobre o facto de estarem a ser manipulados pelas polícias, faz todo o sentido.
Ao Cláudio: Não própriamente. Referia-me a Rohani, Vaezi, Rafsanjani, Khatami, Ameri e ao, pelos vistos, nosso amigo Karmal. Não pude ir a Bhusher nem a Natanz. Fica para a próxima. O grupo chama-se Shylock. Bom Natal.

domingo, dezembro 17, 2006

Nostalgias 27: "Guerra d´'Espanha", ou antes do "desencanto do mundo".

E porque os ânimos estão agressivos, no terreno deste"país" estranho e estrangeiro que é o "passado", e para nós, aborrecidos, irritados ou resignados ao "desencanto do mundo" e à morte da política, sugiro estas "memórias" da última guerra romântica e de dois dos seus heróis em bandos opostos - José António e Durruti.


sábado, dezembro 16, 2006

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

BUTTELLO - Não sei se "Botelho" é pseudónimo ou título, se é chuva, se é gente, mas gente não é certamente, e a chuva não bate assim. Convinha imenso à sua argumentação que eu tivesse sido "negacionista", mas é apenas uma mentirola, que merece um par de bofetadas. Convinha-lhe também ignorar que o MN do meu tempo tinha o nazismo e o racismo como parte dos "inimigos principais" da revolução nacionalista.
Convém-lhe ainda dar a entender que eu sou contra as leis que limitam a liberdade de expressão sobre o Holocausto, ou qualquer outra matéria. Convinha-lhe também que eu fosse a favor da "indústria do holocausto", a imagem ao espelho dos seus kama-radas negacionistas. Convinha-lhe ainda que o regime iraniano estivesse unido na apreciação desta clique patética. Convinha-lhe isso tudo. Mas como não tem o que lhe convém, continua a britar prosa irrelevante.

CLANDESTINIDADE - A minha "clandestinidade" na capital iraniana resumiu-se apenas ao facto de não ter ficado "ao cuidado" da organização, e ter sobrevivido por circuitos alternativos. Que fique claro, porém, que em nenhum momento me senti directamente ameaçado (ou coagido) por quem quer que fosse.

CLANDESTINIDADE 2 - Caro MCA: Não tenho forma de contactá-lo, mas sei que lê isto. Envie-me um email para maulwurf@mail.telepac.pt. Se não quiser ou puder fazê-lo, mas estiver ainda assim a ler, obrigado e um abraço. A entidade em causa é essa: o Irão deve-lhe muito.

DUKES OF HAZARD - "Botelho" saberá - com certeza - mais do que eu, sobre as cerimónias iniciáticas do Klan. Mas a verdade é que o senhor Duke foi fundador e Grande Dragão do KKK da Luisiana, e depois Feiticeiro Imperial do KKK "nacional". Teve ainda tempo, antes de sair, para instituir a designação mais "civilizada" "Director Nacional". Debaixo das malhas que mudam, o animal continuou o mesmo, no entanto. Curiosamente, o director do IPIS e o embaixador iraniano em Lisboa disseram-me que nenhum deles tinha sido avisado do "passado no Klan" do senhor Duke.
A verdade é que a imagem de DukKKe a cumprimentar o presidente Almadinejad caiu que nem sopa no mel do Mossad, e das suas unidades de guerra psicológica. Os teóricos das conspirações do 9/11 não querem investigar?

LIBERDADES - A discussão dos holocaustos europeus, das ideologias interbellum, das raízes, ideias e práticas do nacional socialismo, das relações entre este, os fascismos, o tradicionalismo e as "democracias liberais", e de muitos outros capítulos da história do século XX, é necessária e urgente.
E tem-se feito, embora nunca esteja sempre feita.
Como digo no texto "Holograms of Holocausts", fora de períodos de excepção, não concebo barreiras legais à discussão destas matérias. Coisa diferente é a criação de normas que impeçam o incitamento à violência. Enfim, banalidades.

LIBERDADES 2 - O que interessava testar era a vontade dos organizadores,
de verdadeiramente montar um sistema de contraditório e discussão, ou uma feira negacionista de lunáticos (onde as conclusões são apresentadas á partida).
O que interessava era saber se no "colóquio" se pretendia ficar a saber mais, ou menos.
O que interessa realçar era que não se tratava ali de instaurar um mecanismo - mesmo "a-científico" - de debate, mas apenas uma "frente" conveniente de rejeição da historicidade do Holocausto e, já agora, da historicidade de Israel.

LIBERDADES 3 - Não confundo os negacionistas profissionais - que estão bem para os industriais afirmacionistas, como explico na comunicação - com os que, tendo acreditado no nacional-socialismo, ou continuando a acreditar nele, estão abertos a uma discussão séria. Não confundo, só para o caso português, um intelectual profundo e coerente como o prof. António José de Brito, com as pequenas legiões de botifarra nazi, menos interessadas em ler do que em ver os bonecos.

LIBERDADES 4 - A "guerra" entre o rebanho negacionista e o rebanho repressivo afirmacionista - do B'nai Brith e ADL aos detectives encartados - não me diz nada. Convém guardar as energias para outras coisas.


MISTÉRIOS E PERNINHAS - Na manhã do dia 11, a solução final do "seminário" Teheranesco foi enviada (como programa tentativo) por fax, para a embaixada de Portugal, que depois mo transmitiu (embora a comunicação fosse complicada). Lá se referia que podia ler o meu texto às 14 horas de dia 12. Quanto à lista de participantes, ao que me dizem na altura ainda "provisória", obtive-a na segunda feira à tarde (um dia depois da chegada rocambolesca), junto de uma embaixada europeia (que boicotara as sessões, mas tinha um jornalista nacional no local dos trabalhos).

MONSOON - A mon ami H., et aux gars de Monsoon: message delivrée sans problémes, Voilá le boudin...

PRÓXIMA PÁGINA - Há tanta gente no Irão - junto do Conselho de Expediência, junto do
Líder Supremo, no Majlis, mesmo nalguns ministérios - chave, e mesmo dentro do MNE, que estava contra esta conferência, que se pergunta se ela não terá dividido mais do que unido o poder político local. Veremos. Certo é que alguém precisa de ir para a próxima página. O Irão é muito mais que isto. Melhor: o Irão não é isto.

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

CAUTELAS (E CAUÇÕES) – Não percebo. Afinal fui a Teerão “caucionar” os negadores do Holocausto, ou sabotar o arranjinho (a bem de um Irão adulto e soberano, outra vez ligado à realidade, e não à demência)? Seria moral andar num “tour” organizado pelo MNE, e saber que o mesmo MNE organizava um barbecue nazi de trotil, não dizendo eu nada sobre a coisa?
É assim tão espantoso um acesso de indignação em terra alheia, de que se gosta a sério? E os organizadores pouparam imenso: não gastaram um centavo comigo. Espero que tenham investido bem na besta nazi. Vi muita gente bem nutrida, baloiçando a supremacia rácica no aeroporto.

HOLO, GRAMAS? – O holograma não é, obviamente, uma medida de peso. Mas, a propósito, diga-se uma coisa: no tempo da minha militância nacionalista, o nazismo estava ao lado do estalinismo, como inimigo principal. Espero bem que os verdadeiros nacionalistas europeus, nesta geração, saibam traçar um risco no chão, estabelecendo uma fronteira igual.

IMÃ DE PEITO - Fico a dever a minha vida, em Teerão, a muita gente. De lá, e de outros sítios, que lá está. Não vale a pena inventar espiões e conspirações. Não esqueço nenhum.
E lembro a história do homem do CNI espanhol, ferido na chacina iraquiana, que se arrastou, perseguido por guerrilheiros, cães e populares irados, até ver chegar, quando jazia, na lama e no sangue, um homem alto, vestido de branco. Com a mão, o Imã aconselhou calma, e beijou o militar espanhol ferido. O bando de caça debandou.
O sobrevivente acha que houve ali, na Babilónia, um milagre.
Eu vi um igual, na noite de dia 10.

MULA (DA COOPERATIVA) – Não fui ao Irão “medir o pulso” a uma determinada instituição, e saber se estaria preparada para uma verdadeira mudança.
Mas poderia ter ido.

Aborto: os grandes argumentos do Sim

"Às dez semanas, diz o primeiro outdoor da campanha do Não, bate um coração. A mensagem é esta: o embrião está vivo. O simples facto de alguém achar que este outdoor apresenta um bom argumento para convencer indecisos é preocupante. Primeiro, porque grande parte dos animais vivos tem um coração que bate - o que não faz ninguém reconhecê-los como pessoas (e os cavalos também se abatem, claro). Depois porque se o embrião não estivesse vivo não se poderia falar em interrupção voluntária da gravidez (q.e. d.: ficamos arrasados com esta evidência)." (O texto é de Fernanda Câncio, em DN, 15/12/2006; itálicos meus)

Essa faz-me lembrar aquela-1

O Senhor Padre e Cónego João Seabra - que muito prezo e oiço - cita algumas vezes nas suas homilias uns versos quase ignorados do quase ignorado Carlos Queiroz. Estão publicados no Breve Tratado de Não-Versificação (Lisboa, 1948) e rezam assim: Ver só com os olhos/É fácil e vão:/Por dentro das coisas/É que as coisas são. Lembrei-me deles ao ler uma citação de G.K. Chesterton desenterrada por Simon Leys (a ler tudo o que tem publicado sobre a China comunista, grande conhecedor do Império do Meio que é e anti-maoista prematuro que sempre foi, como por exemplo Ombres Chinoises, 10/18, 1974, a querida Revolução Cultural como ela é). O que diz Chesterton, algures, é: "Nada importa senão o destino da alma - e a literatura só é redimida de uma futilidade ainda mais radical do que a do jogo do galo, quando descreve não o mundo que nos rodeia, não as coisas que a nossa retina reflecte ou a gigantesca irrelevância das Enciclopédias contém mas alguma condição a que o espírito humano possa aspirar." (Les idées des autres - Idiosyncratiquement compilées par Simon Leys, pour l'amusement des lecteurs oisifs, Plon, Paris, 2005)

Mais Teerão:a opinião do WSJ

Em artigo editorial do Wall Street Journal de hoje, intitulado de "Road to Teehran", que transcrevemos a seguir , Bret Stephens adianta uma interessante( e também polémica) síntese sobre o polémico colóquio de Teerão:


"Not acceptable," says Ban Ki Moon, new Secretary-General of the United Nations. "Repulsive," say the editors of Britain's Guardian newspaper. "An insult . . . to the memory of millions of Jews," says Hillary Rodham Clinton. Global polite society is in an uproar over the Holocaust conference organized this week in Tehran under the auspices of Iranian President Mahmoud Ahmadinejad.

Moral denunciation is what reasonable people do -- what they must do -- when a regime that avows the future extermination of six million Jews in Israel denies the past extermination of six million Jews in Europe. But let's be frank: Global polite society has been blazing its own merry trail toward this occasion for decades.

The Australian Financial Review is not the Journal of Historical Review, the Holocaust-denying "scholarly" vehicle of some of the Tehran conferees. But in 2002 the AFR thought it fit to print the following by Joseph Wakim, at one point the country's multicultural affairs commissioner: "Sharon's war is not a war," he wrote. "Genocide would be a more accurate description." In Ireland Tom McGurk, a columnist in the very mainstream Sunday Business Post, noted that "the scenes at Jenin last week looked uncannily like the attack on the Warsaw Jewish ghetto in 1944." Jose Saramago, Portugal's Nobel Laureate in Literature, observed after a visit to Ramallah that the Israeli incursion into the city "is a crime that may be compared to Auschwitz."

Never mind that the total number of Jews "dealt with" in the Warsaw ghetto, according to Nazi commandant Jürgen Stroop, was 56,065, whereas the number of Palestinians killed in Jenin was no more than 60. Never mind that at the time Mr. Saramago visited Ramallah a total of about 1,500 Palestinians had been killed in the Intifada, whereas Jews were murdered at Auschwitz at a rate of about 2,000 a day. Let's concede that, for the sake of moral truth, strained comparisons may still serve useful rhetorical purposes. (Jews and Israelis also often make inapt Holocaust and Nazi comparisons.) Let's concede, too, that the comments cited above amount to criticisms of Israeli policy, nothing more.

Yet once a country's policies are deemed Nazi-like, it necessarily follows that its leaders are Nazi-like and -- if it's a popularly elected government -- so are at least a plurality of its people. "As the dogma of intolerant, belligerent, self-righteous, God-fearing irridentists . . . [Zionism] is well adapted to its locality," wrote Tony Judt, head of New York University's Remarque Institute, in the New York Review of Books. Ian Buruma of Bard College derided Israel's "right-wing government supported by poor Oriental Jews and hard-nosed Russians." And from British MP Gerald Kaufman, this: "If the United States is keen to invade countries that disrupt international standards of order, should not Israel, for example, be considered as a candidate?"

As it happens, Messrs. Judt, Buruma and Kaufman are all Jewish. So let's also concede that it is not anti-Semitic to oppose Zionism. After all, among the Tehran conferees were rabbis from the ultra-orthodox Neturei Karta movement, who, like Mr. Ahmadinejad, actively call for the elimination of the state of Israel.

Yet simply because opposition to Zionism ideologically or Israel politically isn't necessarily anti-Semitic, it doesn't therefore follow that being anti-Zionist or anti-Israel are morally acceptable positions. There are more than six million Israelis who presumably wish to live in a sovereign country called Israel. Are their wishes irrelevant? Are their national rights conditional on their behavior -- or rather, perceptions of their behavior -- and if so, should such conditionality apply to all countries? It also should be obvious that simply because opposition to Zionism does not automatically make one guilty of anti-Semitism, neither does it automatically acquit one of it.

Such nuances, however, seem to go unnoticed by some of Israel's more elevated critics. Michel Rocard said in 2004 that the creation of the Jewish state was a historic mistake, and that Israel was "an entitity that continues to pose a threat to its neighbors until today." Mr. Rocard is the former Prime Minister of France, an "entity" that itself posed a threat to its neighbors for the better part of its history."

Alternatively, Professors Stephen Walt of Harvard and John Mearsheimer of the University of Chicago, whose paper on "The Israel Lobby" is now being turned into a book, have complained that "anyone who criticises Israel's actions or argues that pro-Israel groups have significant influence over US Middle Eastern policy . . . stands a good chance of being labeled an anti-semite." Maybe. But earlier this week, former Klansman David Duke took the opportunity to tell CNN that he does not hate Jews but merely opposes Israel and Israel's influence in U.S. politics. He even cited Messrs. Walt and Mearsheimer in his defense. Would they exonerate him of being an anti-Semite?

In fact, anti-Zionism has become for many anti-Semites a cloak of political convenience. But anti-Zionism has also become an ideological vehicle for an anti-Semitism that increasingly feels no need for disguise. In January 2002, the New Statesman magazine had a cover story on "The Kosher Conspiracy." For art, they had a gold Star of David pointed like a blade at the Union Jack. This wasn't anti-Zionism. It was anti-Zionism matured into unflinching anti-Semitism. And it was featured on the cover of Britain's premiere magazine of "progressive" thought.

The scholar Gregory Stanton has observed that genocides happen in eight stages, beginning with classification, symbolization and dehumanization, and ending in extermination and denial. What has happened in Tehran -- denial -- may seem to have turned that order on its head. It hasn't. The road to Tehran is a well-traveled one, and among those who denounce it now are some who have already walked some part of it."

sexta-feira, dezembro 15, 2006

O Céu a Seu Dono (Dicionário Imaginário)

AI A TOLA

1. Regresso de Teerão, onde o estado policial não conseguiu encontrar-me, nem saber onde dormi, de onde telefonei, e com quem falei (com duas ou três excepções). A avaria nos computadores do aeroporto foi também providencial, no meu regresso.
Seja como for, esclarecimentos adicionais aos bem-intencionados (os outros podem continuar com a medicação), e um abraço emocionado aos amigos.

2. A ideia de ir ao Irão, num trabalho de pesquisa na área política, estratégica, de relações internacionais, defesa e segurança, começou há já algum tempo. O país é demasiado vital para que o ignoremos, e uma mina de informação e contactos.
O MNE local sugeriu-ma há um ano, depois passou-se muita água debaixo das pontes. O último convite incluía, para além de fact-finding, a assistência (como enviado SIC Notícias, e com um câmara) ao que então se chamava “congresso sobre a revisão histórica” (depois “Holocausto: Mito ou Realidade”, e depois ainda “Holocausto: Uma Visão Global”).
Era suposto podermos filmar livremente o que lá se passaria.
Curiosamente, nunca recebi uma lista das pessoas que fariam parte do “colóquio”, até ao dia seguinte à minha chegada a Teerão. Provavelmente, saberiam o que diria, se em vez de um congresso “científico”, me aparecesse o Grande Dragão do Ku Klux Klan. Ou um passeio ao bairro nazi, ou uma excursão em camisa a Ishfahan.
Mesmo assim, dias antes da “conferência”, pedi para traduzir a minha participação, não de um mero observador de reportagem (a câmara SIC não ficou disponível para aqueles dias, e não vivemos do Estado), mas de um interveniente que, como convidado do MNE, não poderia ignorar uma realização do mesmo ministério.
Fiz então o texto “Holograms of Holocausts”, e pedi para o ler, durante cerca de 30 minutos, adicionando-lhe uma introdução em farsi, que dizia simplesmente, traduzido:

“Obrigado ao Irão pela recepção cortês, e obrigado por manter a fé”.

Achei que era suficientemente ambíguo, e queria-o assim. O começo do texto explica a história.

3. Não queria mais nenhum contacto com a organização, até porque não teria tempo: os meus trabalhos em várias instituições (não interessa aqui quais) não me davam tempo, e queria apenas apresentar uma declaração de princípio, que vários me disseram que nunca seria aceite (incluindo o meu bom amigo Andre Thomashausen, da UNISA, que aqui não me esqueço de saudar).
Sei que o texto foi logo posto debaixo do lápis censório. Talvez não pelo organizador directo (o IPIS, que me parecia bem intencionado, mas ingénuo), mas por alguém mais acima, ou mais ao lado. Sabemos exactamente aquilo que eu não poderia dizer.

4. Quando cheguei ao aeroporto de Teerão, não estava ninguém à minha espera. Não conhecia a cidade, não conhecia ninguém (directamente) na cidade, não conhecia os locais de pernoita da cidade, e, mais estranho, não tinha qualquer morada de referência (a não ser o bairro de Niavaran). Os hotéis – tanto quanto sei – não aceitam cartões de crédito (as transacções passam pelos EUA, e as “travestidas” que vão ao Dubai nem sempre resultam), e o meu telemóvel não tinha roaming para o país (só a Vodafone é que tem, ou a V e mais uma, creio).
A organização estava a dar-me a primeira mensagem sobre o que achava...da minha mensagem. O truque é velho: deixar o inimigo apodrecer, desmoralizar, para depois o velar “ao sítio”.
Mas há vantagens em ser um combatente de outras guerras. E a verdade é que sobrevivi. Tive em Teerão anjos da guarda de várias nacionalidades, que fintaram a clique que ocupa a nação orgulhosa, e que é denunciada pelos próprios órgãos de poder alternativos que existem no país. Passei quatro dias terríveis, com o MNE local a tentar adivinhar onde estava, quem me levava, como andava, com quem falava.
No dia aprazado para a minha mensagem, saí da clandestinidade para a sede do IPIS. Insisti para os meus 30 minutos. Encontrei muita gente do MNE, nobre e profissional, revoltada com a afluência de nazis e gangs racistas. Esperavam outras pessoas, e outras causas.
Quando me fizerem sinal para entrar, perguntei se garantiam os 30 minutos, e uma sala livre do Grande Dragão do KKK (ele podia entrar quando eu acabasse).
Não sabia o que me ia acontecer, não sabia o que ia acontecer. A minha protecção era quase nula, e a verdade é que deixara, em Lisboa, uma mulher inolvidável, os meus filhos e os meus amigos de gerações.
Não sou mártir nem herói, e ali era um homem quase só.

5. Disseram-me então que um não participante não podia falar, e muito menos ditar condições. Houve uns “f...you!”, uns “who is this jerk?”, e uma senhora que perguntava, excitada, “este é que é o amigo dos judeus?”.
Senti-me transportado para uma telenovela bíblica.
O director geral do IPIS saiu de rompante da sala, levou-me para o anexo onde se deveriam reunir os rabis anormais, e disse-me que o melhor era esquecer tudo. Se eu lesse o texto, haveria bernarda. Iam assim acabar mais cedo, não haveria conclusões e sessão de encerramento, e partiriam, providencialmente, para ver Almadinejad (que os deixou a secar, até se decidir).
Pediu ainda para tirar o meu nome da mesa. Alguém tentou rasgar o papel, mas o apelido estava mal escrito. Tenho o resto comigo.
Dei-lhe o texto, e disse-lhe que achava lamentável para o Irão querer conduzir a luta dos oprimidos, aliando-se ao menor denominador possível, a coligação nazi-trotsqui-louca-pseudo-guevarista. Tive pena de saber que andava por ali o Muti (ainda bem que não o Freda), e olhei para tudo desta perspectiva: quem foi o génio que quis destruir, em dois dias, o que o Irão tinha construido nas últimas semanas, em imagem e legitimidade.

6. Não vou dizer o que se seguiu, mas garanto uma coisa: há muitas pessoas, com formações diversas, nos vários órgãos de poder, que ficou irritada não só com a “conferência”, mas com as mentiras que sobre a mesma se construíram.
Primeiro, a mentira da “cientificidade”.
Depois, a mentira da “liberdade de opinião”.
Por fim, a mentira das “intenções honradas”.

Podem ter a certeza de que, do regime (o grupo de Almadinejad não é parvo), não haverá mais erros de “casting” deste tipo.
Mas este chega.

O resto, e os pormenores, ficam para a próxima “Sábado”.

Desenterrar o passado em Espanha


O PSOE de Zapatero, talvez para disfarçar o fracasso das negociações com a ETA, decidiu avançar, no Parlamento espanhol, com uma chamado "Lei da Memória Histórica", que pretende fazer, 70 anos depois do início da Guerra Civil de 1936-39 e 20 anos depois da transição pró-franquista, a revisão de todo esse processo.

O grande êxito da transição espanhola foi: pôr um ponto final, com uma amnistia cruzada, às sequelas de um conflito que matou mais de meio milhão de pessoas e que envolveu, política e emocionalmente, gerações de espanhóis e europeus durante meio século. Isto foi entendido e interiorizado pela maioria da população, mas há - lá como cá - a par de uma esquerda normal, civilizada, decente, uma esquerda revanchista, vingativa, arrogante, que quer reescrever a História e mudar o passado.

Quem teve a culpa da Guerra Civil? Quem quebrou a legalidade democrática depois das eleições de Fevereiro de 1936, ganhas pela Frente Popular? Muito antes dos militares se revoltarem, anarquistas e esquerdistas tinham queimado igrejas, assassinado opositores políticos, ocupado propriedades e desencadeado uma "guerra de classes" violentíssima por toda a Espanha. Quem começou? Quem provocou ou quem respondeu à provocação?

Sobretudo tal não importa. Mexer no passado, deste modo, não só é faccioso e injusto, como é estúpido

quarta-feira, dezembro 13, 2006

"Bons" Democratas


A propósito de democratas conservadores no Congresso dos EUA: Brad Ellsworth de Indiana, também membro proeminente da NRA (National Rifle Association); Mike Weaver do Kentucky, militante pró-Vida; Heath Shuler da Carolina do Norte, que se declara "pro-business, "pro-life and pro-guns"; e Jim Webb da Virginia.

"Antifascista" mal (in)formado
No Público de há dias o Sr. António Vilarigues, numa acalorada diatribe "antifascista", a propósito do "Museu Salazar" a criar em Santa Comba Dão, perguntava o que seria se a Itália fizesse um "museu" a Mussolini? Já fez. Em Pedrappio, terra natal do Duce existe um conjunto memorial que todos os anos atrai milhares de visitantes, à procura de memorabilia, como estas...

Aborto
Jacinto Lucas Pires, desenvolveu no DN, um ponto interessante sobre a liberalização do aborto.
De certo modo, o nascituro concebido é o ser mais fraco, mais débil, menos protegido de toda a comunidade. Nesse sentido, a esquerda, tão empenhada em causas de protecção dos débeis - economicamente, socialmente, politicamente e até hoje em causas como os "direitos dos animais" - devia atentar na lógica, egoísta, mercantilista, que está subjacente a privilégios, a comodidade, a egoísmo ou a leviandade de uma mulher que, hoje, e depois da pílula do dia seguinte, só fica à espera de bébé se quer, contra uma vida em gestação.
Só que há aqui duas esquerdas "ideais" em conflito e a esquerda (real) pró-aborto, dos "direitos das mulheres" é uma "esquerda velha" "soixante-huitarde", de nostálgicos já que querem repetir e fazer aprovar, com quarenta anos de atraso, uma agenda feminista sem sentido. Era como queimar sutiãs, fumar e dizer palavrões e exaltar as comunidades hippies californianas. E é, sobretudo, uma esquerda hedonista, sibarita que maximaliza os prazeres e o "querer individual" não recuando perante nada. Daí a lógica pró-abortista em que entraram.

Número 62



Está no prelo mais um número de Futuro Presente, o número 62, cuja capa e sumário aqui podem ver em ante-estreia. Sabemos entretanto que vários assinantes não receberam o nº 61. Foram entregues nos Correios e não recebemos nenhuma devolução. Não sabemos o que se passou, mas estamos a providenciar uma nova entrega. Queremos avisar também os nossos assinantes, leitores e correspondentes que vamos deixar de usar o endereço electrónico do Portugal mail. Agradecemos a todos que, para já, se dirijam, se o quiserem fazer electronicamente, aqui ao blog ou ao endereço que consta na revista: catarina.franco@lxmedia.com. Por carta, o endereço é – até nova ordem -Rua do Corpo Santo, 16 – 3º , 1200-130 Lisboa;o telefone é 213224180 ou, para assinaturas e outras questões de expediente, 217167386.

Mais lidos

Lista de obras sobre o Médio Oriente no "top ten"de The New Republic:

1. Palestine: Peace Not Apartheid by Jimmy Carter
2. The Prince of the Marshes: And Other Occupational Hazards of a Year in Iraq by Rory Stewart
3. Istanbul: Memories and the City by Orhan Pamuk
4. Seven Pillars of Wisdom: A Triumph by T E Lawrence
5. Because They Hate: A Survivor of Islamic Terror Warns America by Brigitte Gabriel
6. Reading Lolita in Tehran: A Memoir in Books by Azar Nafisi
7. Between Two Worlds: Escape from Tyranny: Growing Up in the Shadow of Saddam by Zainab Salbist
8. The Lemon Tree: An Arab, a Jew, and the Heart of the Middle East by Sandy Tolan
9. Guests of the Ayatollah: The First Battle in America's War with Militant Islam by Mark Bowden
10. Mirrors of the Unseen: Journeys in Iran by Jason Elliot

terça-feira, dezembro 12, 2006

Diário de Paris

Confesso que tenho sempre o maior dos gostos em ler os livros do Embaixador Marcello Duarte Mathias. Primeiro pelo bem que o autor escreve, depois pelo interesse dos mesmos e pela leitura sempre agradável que proporcionam. Podíamos falar de diversas das suas obras como O Último Lance, viajando por várias capitais europeias, em torno do jogo de xadrez, ou o Diário da Índia, relativo aos anos de 1993 a 1997, ou ainda o fantástico A Memória dos Outros, carregado de reflexões sobre diversos autores e personalidades estrangeiras. Todos, livros que recomendamos facilmente e que se lêem quase sem parar, de uma ponta à outra, tal a cadência que impõem e a curiosidade que despertam.

Agora, o autor volta à carga com o recentíssimo Diário de Paris, 2001-2003, também ele marcado pela variedade dos temas sobre que se debruça, por gostos e paisagens pessoais e por reflexões sempre marcadas pela originalidade. Contudo, este livro é também caracterizado por Paris ter sido o cenário onde travou porventura a mais difícil das batalhas, desta feita contra a doença. É um assunto que não evita e de que nos fala com grande coragem e serenidade.

Como qualquer obra do Embaixador Marcello Duarte Mathias, é um livro cuja leitura vivamente recomendamos.

Em Teerão

HOLOGRAMS OF HOLOCAUSTS

First They Came for the Jews
First they came for the Jews
and I did not speak out because I was not a Jew.
Then they came for the Communists
and I did not speak out because I was not a Communist.
Then they came for the trade unionists
and I did not speak outbecause I was not a trade unionist.
Then they came for me
and there was no one left to speak out for me.
(Poem attributed to) Pastor Martin Niemöller


WHAT I BELIEVE IN (BUSINESS CARD PREFACE)

I came to Iran, graciously invited by the Ministry of Foreign Affairs of the Islamic Republic, to research and do some fact finding about the country, its life and institutions, perceptions and reality. As this conclave coincided with my coming, I intended first to be present here only as a silent witness, to report back what I saw and what I heard.
But controversies about the real significance of these proceedings made me feel I had the moral duty to say some words, and concoct this text.
It is not by any means systematic and scientific, but rather impressionistic. I hope it is, at least, clear in its message.
First of all, a personal introduction, or, as Louis Pauwels used to say, something about "the things I believe in" (ce que je crois).
I come from Portugal, in the outmost Western part of Europe, where land ends and the ocean starts.
I come from Portugal, where in the very early Middle Ages there was a sort of Golden Era of coexistence of Muslims (mostly from Northern Africa) and other faiths. It was the time of Princes who were scholars and poets. It was the time of Almutamid (1040-1095), of the Al Andalus Emirate and successor taifa governorates (711-1492), of an Edenic Age of "Dialogue of Civilisations" (to pick on the theme of a very recent and very welcome initiative from the governments of Spain and Turkey) (*).
I come from post – authoritarian Portugal (if labels suit), born in a generation used to militancy (in my political quarters) for what we called "revolutionary nationalism".
In late high school and university, our principal foes were "capitalist internationalism", all forms of "imperialism", and specially the then expansive soviet system and its "puppets". From my ideological family tree perspective, we were also fighting (or believing in that fight) "the triumphant demo-liberal thinking" in the west, and all forms of racism, in particular the ones coming from "supremacist" soldiers, from all colours, quarters and languages.
Among the most sinister antics, "Nazism" (to use the Anglo - Saxon derogatory terminology) appeared to us as repulsive as the other Hegelian illegitimate son, "pseudo – Bolshevik" (as the extreme left would later say) Stalinism.
Hitler and his Twilight of the Gods entered the dark side of pop culture, and generated despise or rage, from almost all sides of the political spectrum. Stalinism has been less present as a spectre, and we could even argue that it was forgotten in many areas of Europe, specially the ones that suffered under its weight. This makes more urgent the preview of the forthcoming movie version of Solzhenitsyn’s "First Circle". Memory should be a two way road, although we know it is largely selective, and there are even usages for amnesia (1).
Maybe all this is not immensely controversial.
But I also believe in a couple of things about current international affairs. These could be more debatable for this conclave.
I believe, for example, that Iran, with its ancient and wise civilisation, that precedes even the wonders of the Hellenic world, should not be treated by certain international circles as a primitive clan, born yesterday, with no rights except to obey some politically correct master.
I believe that Iran should still seek reparation, for being the sole case of a nation unjustly attacked with weapons of mass destruction, in this case chemical and maybe bacteriological weapons.
I believe that the Palestinian nation should have an independent, viable, internationally recognised state, with external borders and all the attributes of a sovereign body, including armed forces and police.
I believe that the international intervention in Afghanistan was righteous and measured, as the country showed no will to extradite or suppress the public perpetrators of 9/11.
I believe the last international intervention in Iraq could only be justified under an international specific resolution from the UNSC, and only in case there was a proven system of WMD, ready to be used.
Maybe many in this room are still with me in this.
But I also believe in the right of Israel to exist as a sovereign state, capable of protecting its own people, and live in peace with its neighbours.
If this was (and is) possible with Jordan and Egypt, why not with others?
If Ytzhak Rabin and Yaser Arafat, men of war turned into men of peace, managed to plan this, why not others?
Maybe some are still not entirely in disagreement.
Finally, I believe that it would be good for everyone if Iran and the US would establish full diplomatic relations, based on the principles of non interference, equality of status, respect for national sovereignty and compliance with international law.
I hope someone in this room agrees.

ON BARBARIANS

Holokauston, or what is totally burn (from "holos" and "kaustos"), originally meant a offering to the pagan gods. "Holocaust" and "Barbarianism" come together.
"Barbarian" is not used here as an updated Hellenic notion of "strangers to our civilisation", but as actors of inhumanity, in a grand scale.
The first image that pops into our mind is Ernst Jüngers Head Forester (Öberfoster), in "On the Marble Cliffs", published in 1939, as a dreamlike/nightmarish prelude to the European storm of fire (2).
The Forester is a sort of slaughterhouse manager, leading a warlike tribe to destroy next door’s ancient, enlightened, civilisation. It is at least tempting to see Iran’s imprisoned neighbour, and former chemical enemy, Saddam Hussein, as another evident application of this bloody tyrannical archetype.
The Hitlerian system (to simplify, and refer to the post-1933 "experiment") was, from my perspective, a form of ethnic (or ethnically presumed) imperialism, barbarian totalitarianism, "demonic parody of religion" - to use the most adequate formula of Pol Vandromme (3) - and well behaved proletarian dictatorship. It was even more tragic as it disguised itself as social revolution, a transvestite courageously denounced by the likes of Ernst Niekisch, the aforementioned Jünger, Hannah Arendt and many others.
Of course that, for a certain politically correct Left (that used to say that "Church is Fascism"), it is always disturbing to find that, among the ones that (from very early) raised their voices against this menacing beast, was D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), a Portuguese Theologian and Historian, who would later become the Patriarch Cardinal of Lisbon , under Salazar. He wrote against Nazism not in the comfort of post-war "democracy triumph", but in the uncertain darkness of the early thirties of last century.
The Martin Niemöller much quoted poem, that appeared in many versions, also shows how dignified people from all backgrounds, faiths and creeds, finished to realise what kind of monster was being bred by the Third Reich.

HOLOCAUST(S)

Being a Portuguese Catholic, an ex (future?) - "revolutionary nationalist", a man with a rib that is conservative, another one anarchist, a third trade unionist, a supplementary libertarian one, and a final one that we could call "justicialist" (hoping it makes sense outside of Argentina), and, last but not the least, a sceptic in earthly matters, I have inscribed in my political Holy Book (to the death) the fight against anti-Semitism, be it under the anti-Jewish guise or Anti-Arabic one. And also the fight – also until death – against anti-white racism in Africa, anti-black racism in the west, anti-Japanese and anti-Chinese prejudice, etc.
I also believe that memory (Niskor, as I believe they say in Hebrew), oral history, sound historiography and non forged documents, confirm the existence of a Holocaust. But this one has, for me, a vaster and deeper sense than the "industry" created around its perception, so well denounced by Norman Finkelstein (a Jewish name that is not popular, to say the least, in several Zionist circles).
We had, in 20th century Europe and the world at large, between the end of the 30’s (we could argue between the end of the First World War) and the end of the 40’s, several coordinated strategies for the physical elimination of social groups, communities, people, nations and whole cultures. This planned and systematic destruction (sometimes fanned from the bottom, sometimes promoted from the top), that had Hitler and Stalin as main heralds and workers, finds Jews not as the single victimised group, but one of the most suffering.
This is important. Europe had a Jewish population that was wiped out, and there was a systematic intent to do so. Meticulous planning and meticulous action provoked a bigger than life (and bigger than death) tragedy, that still has wounds open, as all can see in the sinister remnants of the past, be it in Auschwitz or Bergen Belsen, in Dachau or Treblinka.
How can someone believe that all European Union members, all its governments and heads of state, parliamentarians and major opinion makers, are all involved in a major conspiracy to "invent" the Holocaust?
How can someone believe that the European Union, that has a traditional policy of understanding all parts in the Middle East problem, is actively promoting some kind of strategy to stress crimes against Jews, and ignore historical crimes against Arabs, Christians and other faiths?
As I stated before, the policy of extermination dictated by Hitlerism is well documented, and it would be fastidious to repeat the vast amount of historical findings on this. Proving intent and systematisation is the key: there was a plan to wipe out internal enemies of the Reich. We can debate about perceptions (were Jews singled out for being "anti-patriotic", "explorers", "immoral", "alien", "non Arian", fifth columnists, etc?), but there is not much to be added about the existence of the basic plan for extinction.
From there on, numbers and statistics cease to make existential sense (this is different from saying that studies on the matters should not be, by definition, free in free societies), and I see no use in discussions about burning furnaces head count orthodoxy. The first one to signal this was not a deep philosopher, but Woody Allen (4).
To say that there were several holocausts, or catastrophic genocides, where entire peoples were singled for extinction, cannot mean the trivialisation of each of those. It should only mean, if you are in good faith, that there are not "good" and "bad" genocides, or more palatable ones than others.
On the other hand, the word "holocaust" as been used as metaphor for human extinction, through other causes than a systematic desire to kill people (5).
We should then always explain when we speak in a literary way, and when we talk about factual organised campaigns to wage war against the idea of humanity itself.

JUSTA LEX

Are there sufficient laws in place, internationally (and without getting into the interminable discussion on the applicability of public international law), to punish acts of holocaust, meaning attempts to wipe out an entire people, nation, civilisation, etc.?
The UN Convention on Genocide, discussed and approved between 1948 and 1951, seemed an excellent instrument. It criminalised not only direct mass murder, but also deportation, or forms of persistent or systematic persecution. Some argue there are flaws in the basic norm, as it doesn’t specifically integrate, for example, economic genocide, or man induced environmental catastrophes, leading to genocide. It is comprehensive enough, though, to protect national, ethnic, racial and religious groups, from a large catalogue of intentional acts, whatever the true motivation is (5a).
In fact, the so called "Holodomor", the "Great Famine" in Ukraine, in the thirties of last century, where millions died of starvation, maybe would not count under "genocide", as it was not direct mass execution, but it derived from politically designed forced collectivisation, relocation and deportation of producers and farmers, and the simultaneously destruction of national intelligentsia, in order to tame what was perceived as latent "irredentism", and Germanophily.
As for terrorism, some argue that "genocide" (a term coined by a Jewish lawyer, after WWII) has to do with intent, or motivation.
Extended killings by a crime syndicate are not "terrorism", although they could produce more devastating results than "terrorist acts". These ones have to be directed against civilians and non combatants, and to have some sort of political motive, or politically argued motive.
In the same line, mass murder that results from sporadic clashes, or involves mere land or tribal disputes, could be seen by many as something else than "genocide", as the master plan , or the initial execution blueprint, may be lacking, although results could be as inhumane and widespread as "pure legal" genocide.
We could also argue that Hague and Geneva conventions, forbidding cruel forms of weaponry, securing the protection of civilians, neutrals, non combatants, protecting prisoners of war and instituting the bases of the so called "humanitarian law of war", have direct impact in the minimising or prosecution of at least "indirect" forms of genocide.
But the truth is that genocide, "direct" or "indirect", was committed, according to most accounts, in many occasions after the Convention was fully implemented and accepted.

Cases
Summary
Ukraine, 1932-1933
4,821,600 died in the "Great Hunger" engineered by Stalin 1932-33. 7,465,000 died in 1932-1939.
USSR 1934 to 1953
From 1934 to 1953, up to 15 million Russians disappered in the GULAGS.
Germany/Poland 1939-1945
5,000,000 non-jews died in German camps
Germany, 1942-1945
5,860 mill. jews died in German KZ-Camps
Poland/Russia from 1941
1,700,000 Polish people were deported to Siberia after 1941.
Bengal, 1943
1,500,000 died of war-related famine in 1943 in Bengal.
Germany, East Prussia 1945
3,000,000 German civilians were killed by Russians in the last months of WW2.
Cambodia, 1975-1979
Khmer Rouge´s (president 1976) killed about 1,700,000
East Timor 1983-1985
200,000 East Timorese (Portugal)I were killed in 1983-1985, by Indonesian invading forces
Rwanda/Burundi - 1993-1994
700,000 Hutus and Tutsies killed in Rwanda, in internecine war
Yugoslavia 1991-2000
At least 250,000 dead in ex-Yugoslavia (until 2000), mostly Bosnian Muslims and Catholic Croats
And the wars that succeeded the conflict that ended in 1945 were especially predatory and left immense wounds, with some seeing the use of practices forbidden by the humanitarian law once dreamt by the Russian Tsar, at the end of the 19th Century.

(Some) War deaths in the post- WW2 experience:
Korea 3,000,000
Vietnam 2,059,000
Nigeria/Biafra 2,000,000
Afghanistan 1,300,000

Some calculations indicated also that around 170 million people died under totalitarian regimes during the XX Century.
No wonder, than, that in April 2006, ex- Czech President Vaclav Havel addressed the Council of Europe, on the need not to forget mass extermination, deportation, expulsion, deportation. He added that the distinction between "good" and "bad" concentration camps is a dangerous one, and observed that crimes against humanity, by definition, have as main victim the whole of mankind, through the suffering of its members.
There should be, so , sufficient norms, courts and law enforcement agencies, together with preventive bodies, capable of early warning, deterrence , punishment and reparation for genocide, or holocaust (5b) .

TRICKS OF MEMORY

Part of this mechanism of genocide prevention should be based on experience, and memory. But memory plays us tricks, and is sometimes a force for destruction. This is why certain Greek City-States would forbid the remembrance of sad events (as the French put it, ne parlons pas de malheur). But certain nations – we immediately recall Serbia – precisely celebrate their national days to commemorate sad, even tragic, or catastrophic events, as was the battle of Kosovo Polje, where most of the elite was destroyed in a single burst.
How to deal with this suffering, though?
The Russian psychologist Aleksandr Luria may have given us a way, in two brilliant, puzzling books (6). He treated Zazetsky, a survivor of the battle of Smolensk, who had a terrible brain wound. This affected his memory radically. In a sense, the veteran would not recall a thing, although he would be capable of most intellectual and physiological acts. Doctors would teach him how to eat soup with a spoon, for example, and he would do it on the spot, but he would forget it some time after. The same with everything else he would try, or do. He would not recall his name, his past, his family, his friends, his city, his country.
In a sense, Zazetsky was the true creator, doing everything ex novo. But the absence of historical references deprived him of a minimally normal, decent and comfortable life.
The other Luria patient was "S", the "Mnemonist". He was not able to forget.
His absolute memory was intense, and if he wanted to suppress cruel or sad elements of his past life, he would fail. Happiness and pain would live forever in his mind, as memories would always be present, with the same intensity.
His life became impossible, because of too much memory, as the life of Zazetsky became unbearable, because of no memory.
There should be a way for persons, and people, to find a middle ground between the Mnemonist and the Man from Smolensk. Between no memory, that will make us repeat the errors of the past, and too much memory, that will make us unable to relax, forgive and forget the bad things, we should find a way. An healthy way.

TO THINK

Almost as imbecilic as denying XX Century holocausts, starting with the extermination of Jewish Europeans, is to - in peace time and without the constraint of a state of emergency (of what the Germans call Notstandrecht) - want to approve (or conserve, or converse) laws that will forbid any scientific and intellectual discussion on the same subjects.
If the a priori negation of the whole can look sectarian, the refusal to revise the parts also contradicts the principles, rules, assumptions, bases and fundaments of systematic thought.
We should distinguish, though, between honest discussion of issues, in an intellectual level (and even taking into account that political analysts can contaminate the politics they discuss, in a sort of application of the Heisenberg principle), and the advancement of an agenda, disguised as scientific discussion.
We sometimes feel that many who deny the existence of proven holocaust or genocides, would themselves be able to commit these acts, if the circumstances were right, and if they had the power to do so. This is why the absence of laws against intellectual discussion should be complemented with presence of laws against the promotion of violence, racial hatred, or the incitement to murder, and mass murder.
We sometimes also feel that professional "negationists", using the excuse of the discussion of details, finish denying the whole that was proven correct. It would be as if bad calculations about the size, matter or distance from earth, would lead people to doubt about the existence of the sun.
We sometimes feel that, for each "holocaust industry", there is a "holocaust denial industry".
We sometimes feel that human groups and nations didn’t yet grow enough to stop asking history for scapegoats (as Nietzsche once said).
But as we said before, there should be no bounds to intellectual discussion, and intellectuals should not be surprised if their more controversial ideas would be debated, contested, opposed and destroyed, or proved wrong. This is a never ending process of acquisition, growing and learning.
This is why, together with marginal "negationists", usually accused by the mainstream of lesser talent than demagoguery, we have, or had, important intellectual figures who are not afraid of dwelling in the past, with open minds and hearts, and learning each day new available data, facts, interpretations, putting them to the litmus test of discussion, etc.
We could mention, among those figures, and starting in Israel and Palestine, but also in the US and Europe, Hannah Arendt or Leo Strauss, Amos Oz, Zeev Sternhell, Paul Eisen, Eduard Said, Paul McCormick, Wolfgang Mommsen and Ernst Nolte.
Each in its own way, they all dared to look at the past with an open mind, based not on faith, but doubt. Not based on love for prejudice, but love for truth. Not based on love for dogma, but on the desire to know and understand more.
To know always more,
to understand always better.

NOTES
(*) Cf. , for the Spanish "utopian" dimension of Al Andalus, M. R. Menocal, Ornament of the World : How Muslims, Jews and Christians created a culture of tolerance in Medieval Spain, Back Bay Books 2002, and S. E.Al-Dzajairi, The Hidden debt to Islamic Civilisation, Bayt al Hikma Press 2005.
(1) See, for example, Y. Yerushalmi et al., Usages de l’oubli, Ed. Du Seuil 1988.
(2) See Jüngers "de-crypting" of his book, in the conversation with Julien Hervier, The details of time: conversations with Ernst Jünger, Marsilio Pub. 1995.
(3) P. Vandromme, L’Europe en Chemise, Ed. de La Francité, 1971
(4) For example, in Deconstructing Harry, 1997. His quip about Auschwitz (that was meant as an attack against the insensitivity of people that like to count dead heads), was attacked severelly by Elliott Gertel, in Over the Top Judaism : Precedents and Trends in the Depiction of Jewish Beliefs and Observances in Film and Television(Univ.Press of America).
(5) A good example of "metaphorianism" is D. Wilson, Five Holocausts, Steele Roberts Pub. 2001. According to the author, militarism, oppression, economic destitution, population explosion and environmental destruction will seal our fate as a dying species.
(5b) This is the background for Koffi Annan’s decision to appoint a UN Special Advisor for the Prevention of Genocide (and a pre-emptive Plan of Action), back in 2004, on a speech remembering the 10th anniversary of the bloodbath that killed 800.000 people in Rwanda.

(5a) The crime of genocide is defined in international law in the Convention on the Prevention and Punishment of Genocide. Relevant passages:
"Article II: In the present Convention, genocide means any of the following acts committed with intent to destroy, in whole or in part, a national, ethnical, racial or religious group, as such:
(a) Killing members of the group; (b) Causing serious bodily or mental harm to members of the group; (c) Deliberately inflicting on the group conditions of life calculated to bring about its physical destruction in whole or in part; (d) Imposing measures intended to prevent births within the group; (e) Forcibly transferring children of the group to another group.
Article III: The following acts shall be punishable:
(a) Genocide;
(b) Conspiracy to commit genocide;
(c) Direct and public incitement to commit genocide;
(d) Attempt to commit genocide;
(e) Complicity in genocide.
The Genocide Convention was adopted by the United Nations General Assembly on 9 December 1948. The Convention entered into force on 12 January 1951. More than 130 nations have ratified the Genocide Convention and over 70 nations have made provisions for the punishment of genocide in domestic criminal law. The text of Article II of the Genocide Convention was included as a crime in Article 6 of the 1998 Rome Statute of the International Criminal Court.
(6) A. R. Luria, The Man with a shattered world: The History of a Brain Wound, Harvard Univ. Press, 2004 reprint, and The Mind of a Mnemonist: A Little Book about a vast memory, HUP, reprint 2006.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Pinochet visto por outros

Algumas opiniões na imprensa norte-americana sobre Pinochet:
"A Spanish joke: a reporter traveled to Spain to learn what people think of Franco. Upon arriving in a village, the reporter asked one man, but the man insisted they walk out into the country. Yet once there, he still hesitated. "Let's go by that lake," he said. When they arrived at the lake, the reporter asked yet again, but the man insisted that they take a row-boat out of the middle of the lake. When they got there and the reporter asked again, the man finally leaned over and whispered, "I like him."

Pinochet's coup d'etat and the murder of Salvador Allende along with 3,000 or more suspected opposition members, were perhaps the worst thing that has ever happened to Chile, just as the Cuban Revolution was the worst thing that ever happened to Cuba.

But there is one vital difference between the two. Once he consolidated power, Pinochet worked hard to protect the bases of a modern progressive democracy. Castro, by contrast, made it his business to ruin those in his country — and now a new generation of Latin American leaders fondly dream of walking in his footsteps.

Pinochet did something else that few dictators ever do: Upon losing by a small margin in a plebiscite that pitted him against the entire spectrum of political opposition, he resigned. The crimes of Pinochet may be unpardonable. But at least he tried to redeem them.We shouldn't be surprised by the number of Chileans who are still thankful for that."
Mario Loyola
—( Mario Loyola is a fellow at the Foundation for Defense of Democracies .)



"In my other life, as a Communist general, I lived under two tyrants who killed and jailed over one million people. Pinnochet saved Chile from becoming another Communist hell. God bless him for that, and may he be forgiven for his later aberrations. Not only in Chile does power corrupt."
Mihai Pacepa
( Lt. General Ion Mihai Pacepa is the highest-ranking intelligence officer ever to have defected from the former Soviet bloc. His book Red Horizons has been republished in 27 countries.)


Otto J. Reich:(ex-National Security Council, in George W. Busch Administration,2001-2004)
"Augusto Pinochet was a tragic figure. Instead of being remembered for saving Chilean democracy from a communist takeover, and starting the country on the longest-lasting economic expansion in Latin America, which he did, he will be remembered mostly for carrying out a brutal campaign of human-rights abuses.

Contrary to revisionist history and mainstream media myths, Pinochet’s military coup against President Salvador Allende was supported by a majority of Chileans, two-thirds of whom had voted against Allende in the 1970 election. The three-way electoral tie had been decided by the Chilean Congress in favor of Allende. By 1973, however, Chileans were demonstrating in the streets against shortages, inflation and unemployment brought about by Allende’s failed socialist policies.

Facing widespread opposition to his rule, Allende secretly prepared a “self-coup,” with the help of Fidel Castro, who surreptitiously sent large quantities of weapons to arm Allende’s minority of supporters. Army Commander Pinochet beat Allende to the coup, which was justified by the Allende-Castro plans. What was not justified was the bloodbath which followed, when Allende supporters and innocents alike were summarily executed, imprisoned and tortured, including loyal military officers who disagreed with the coup.

Today, thanks to the KGB files smuggled out of Russia by Vasily Mitrokhin, we know that Allende was receiving payments from the KGB. There is no doubt that if he had succeeded in his plans, Chile today would be an impoverished Communist prison like Cuba, instead of a shining example of democracy and prosperity. With some compassion and self-discipline, Pinochet could
have been remembered as a liberator and not a despot. He was both."

Soljenitsine aos 88 anos


Alexandre Soljenitsine foi dado por morto há mais de um ano pela revista britânica Prospect (Outubro 2005) como tivemos ocasião de fazer notar no número 61 de Futuro Presente (Mortos ou Vivos, "O mundo de Chomsky", introdução, p. 54). Era, como dizíamos, um ligeiro exagero. Estava vivo nessa altura – e continua vivo: faz hoje 88 anos.
Teve a sorte – como ele próprio diz numa entrevista recente – de ser enviado para o Gulag em 1945, com menos de trinta anos. "Abriu-me um campo de visão claro e o mais amplo possível sobre tudo o que se designava por bolchevismo, comunismo soviético e, mais profundamente, mergulhou-me nos fundamentos da nossa existência". (A cadeia às vezes é o caminho de uma liberdade superior – ideia que Soljenitsine partilha com o seu compatriota e também veterano das prisões russas Dostoievski; é o tema de um grande filme do cineasta francês Robert Bresson, Pickpocket, retomado por outro cineasta "metafísico", o norte-americano Paul Shrader, em American Gigolo; Schrader é também autor de um famoso ensaio sobre Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer).
O autor de Um dia na vida de Ivan Denisovich, O Primeiro Círculo, O Pavilhão dos Cancerosos ou, claro, O Arquipélago do Gulag, tem no seu activo uma gigantesca história romanceada da Rússia no século XX. Foi entrevistado recentemente pela revista alemã Cicero, uma entrevista publicada depois por Le Figaro numa versão francesa que mão amiga e caridosa nos fez chegar.
Nessa entrevista - que citámos acima – Soljenitsine fala da queda do comunismo. O entrevistador diz-lhe: "O senhor é a prova viva de que um homem isolado pode influenciar o destino e de que a literatura pode igualmente ter influência. Tem todas as razões para estar satisfeito com o que conseguiu", ao que Soljenitsin responde: "A ditadura comunista merece uma oposição absoluta. No entanto, pedi repetidas vezes às potências ocidentais que não identificassem o comunismo soviético com a Rússia e a história russa. Infelizmente muitas potências ocidentais não marcaram essa diferença e a política dos dirigentes ocidentais, mesmo depois da queda da ditadura soviética, não se mostrou muito menos dura em relação à Rússia. Isso é uma grande decepção. Mas nos anos 90 aconteceram coisas ainda mais graves. Ao mesmo tempo que o país se tentava restabelecer em todos os aspectos (morais, económicos) triunfaram rapidamente forças obscuras, bandidos sem fé nem lei, que enriqueceram pela pilhagem nunca contrariada dos bens nacionais e implantaram na sociedade o cinismo e a corrupção moral. Foi uma catástrofe para a Rússia. Sofri muito com essas mudanças – como falar de ‘satisfação’?"
Homem de Fé e de Tradição que nunca se rendeu ao novo-riquismo democrático e "capitalista", partidário de uma democracia "orgânica" com base nas administrações locais, inimigo da "partidocracia" – Soljenitsine não é hoje muito ouvido – a Leste ou a Oeste. Mas merece ser lembrado.